Vozes mulheres

fotoPor Conceição Evaristo*

A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
De uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
No fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.

A voz de minha filha
recorre todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.

__
* Nasceu em 1946 em Belo Horizonte, MG. Reside no RJ desde 1973. Importante personalidade em literatura afro-brasileira. Formada em letras pela UFRJ.

Fonte: Calado, Alder Júlio Ferreira. Chico Rei: do cativeiro libertou-se com os irmãos. Arcoverde, PE. Edições ARHCA, 2010, 2a. ed. pp. 72-73

Share

Comentários

comentários