Voltando

Ontem à noite, andando pela beira-mar com a minha esposa, encontramos um velho amigo, um médico sanitarista com quem, há cerca de 10 anos atrás, participamos de ações em saúde mental comunitária no município de Cabedelo.

Entre outros assuntos, a conversa veio para o Papa Francisco. Este amigo nosso, que hoje se dedica a cuidar da saúde das populações indígenas no estado do Amazonas, em condições dificílimas, disse que o atual Papa trouxe de volta o Evangelho para dentro da Igreja Católica.

Agora volto sobre esta frase, uma vez que ela me faz refletir sobre algo que até agora nunca disse em público, e que me parece necessário dizer. Não acredito que o Evangelho de Jesus Cristo, nem que Jesus Cristo ele próprio, sejam propriedade de alguém, um grupo, uma instituição.

Mas não era isto que queria dizer. O que quero dizer, é isto: creio que os cristãos ou os que tentamos seguir Jesus Cristo e viver o Evangelho, não somos pessoas melhores do que as outras. Ao contrário, em algum sentido, somos pessoas que confessam, ao atender ao chamado de Jesus, a nossa própria indigência, a nossa necessidade de sermos apoiados e guiados pelo próprio Deus feito homem, para que possamos andar no bom caminho.

Acredito que, como seres humanos, precisamos sempre uns dos outros para que, entre todos, possamos ir construindo caminhos de bem, de verdade, de amor e de justiça. Lembro que, na Terapia Comunitária Integrativa, frequentemente se diz que “Deus age humanamente no mundo humano”. Isto quer dizer que necessitamos uns dos outros para acertar no que seja justo.

Ninguém pode se isolar dos demais e dizer: Deus me disse o que é a verdade. A verdade é feita entre nós, entre os seres humanos. É uma construção coletiva. Mas esta coletividade ou socialidade ou caráter comunitário do agir humano, não garante que estejamos sempre a andar pelo bom caminho. Podemos errar juntos, também. Ninguém está isento disto.

O que estou querendo frisar aqui, é que a necessária socialidade do nosso ser e existir em sociedade, deve nos fazer permanecer abertos ao que vemos ao nosso lado, ao que acontece com os vizinhos, com as pessoas da própria família, com os amigos e conhecidos. Ninguém está isento de errar.

Quando digo que o fato de sermos cristãos ou de sermos pessoas que tentam seguir Jesus, revela a nossa indigência e a nossa incapacidade de, sozinhos, acertarmos com o bom caminho, estou dizendo que isto deveria nos fazer mais humildes, menos auto-suficientes. Somos criaturas efêmeras, conquanto alguns de nós consigam viver muitos anos.

Mas esses anos vividos, que sejam em conexão com o mistério e o milagre que nos faz estar aqui. Que não nos percamos no intelectualismo enganoso, que nos afasta de nós mesmos e dos demais, do mundo. Aprendamos a agradecer a vida que nos foi dada, sem indagar sobre questões inúteis nem sobre os desígnios de Deus.

Aceitemos a nossa natureza única, que nos faz ser diferentes de qualquer outra pessoa, sem que por isto, percamos de vista a unidade essencial que nos mantém integrados não apenas à humanidade, mas a tudo que existe. Sejamos capazes de aceitar o silêncio interior que nos é dado como uma graça, para poder viver em paz no meio do bombardeio diário de informações e de apelos de todo tipo. Cultivemos os dons que nos foram dados, para o bem nosso e dos demais.

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