Você pode questionar a Ressurreição e ainda ser cristão?

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Por Kimberly Winston, Religion News Service

“E ressuscitou ao terceiro dia.” 

Desde o Credo de Nicéias, esta é a linha da afirmação basilar do crença cristã. Ele declara que três dias depois que Jesus morreu na cruz, Ele ressuscitou, uma antecipação da vida eterna prometida aos que crêem. Eis o coração da narrativa da Páscoa, em sete breves palavras. 

Mas, como essa afirmação é interpretada constitui fonte de algumas fissuras mais profundas no Cristianimso, e pedra de tropeço para alguns cristãos e para não poucos céticos.

Será que Jesus ressuscitou literalmente dos mortos, numa ressurreição corporal, como acreditam muitos cristãos tradicionailistas e conservadores? Ou terá sido a dele, uma ressurreição simbólica, uma restauração do seu espírito de amor e de compaixão pelo mundo, como sustentam alguns membros de correntes mais liberais do Cristianismo ? 

Como a Páscoa se aproxima, muitos cristãos se batem sobre como entender a Ressurreição. Quão literariamente se deve ler a narrativa do Evangelho sobre o triunfo de Jesus, para ser chamado de cristão? Pode-se entender a Ressurreição como uma metáfora – talvez até não crer que ela tenha mesmo acontecido – e ainda reivindicar-se um seguidor de Cristo?

O embate faz com que alguns cristãos  guardem o feriado. Uma pesquisa Barna de 2010 mostrou que apenas 42% dos Americanos disseram que o significado da Páscoa era a ressurreição de Jesus; apenas 2% identificaram o feriado como sendo o mais importante de sua fé.
 
“Muita gente tem problemas com a Páscoa porque ela exige requer que se acredite  que Jesus ressuscitou dos mortos”, disse o Jesuíta Pe. James Martin, autor do novo livro, “Jesus, uma Peregrinação”.  

“Mas, é essencial crer na Ressurreição. Ela mostra que nada é impossível para Deus. De fato, a Páscoa sem a Ressurreição é extremamente sem sentido. E a fé cristã sem a Pàscoa não é fé alguma.”

Scott Korb, 37, tem um olhar diferente. Embora ele hoje se descreva como um católico não-praticante, ele um dia já quis ser padre. Naquela época, ele acreditava que Jesus havia literalmente ressuscitado dos mortos, mas hoje ele se vê acatando essa narrativa apenas simbolicamente.

“O milagre de uma ressurreição corporal é algo que rejeitei, sem abandonar sua idéia básica”, disse Korb, um professor da New York University.

“O que eu quero dizer é que podemos atingir o ponto mais baixo de nossas vidas, de ir fundo para um lugar que se tenha como a morte, e encontrar nosso caminho de novo – eis a narrativa que agora me passa a Ressurreição. E na Pàscoa, isto é expresso em comunidade, em seu melhor sentido, por meio da compaixão pelos outros.”
  
E essa mudança – de uma abordagem literal para uma interpretação metafórica – conferiu mais força à narrativa, disse ele.
 
“Há apenas uma narrativa a ser contada sobre um homem singular, que morre e depois ressuscita”, disse Korb. “Mas, se pensamos na metáfora da Ressurreição, isto nos permite voltar à narrativa ano apos ano, e nela encontrar novo significado.” 

Reg Rivett, 27, acha a repetição da narrativa da Páscoa um grande problema. Um ministro em meio aos jovens, numa comunidade evangélica perto de Edmonton, no Canadá, disse que sua crença em que Jesus ressuscitou literalmente dos mortos é central à sua identidade cristã e à sua fé. Não obstante, ele ainda experimenta sentimentos conflitivos em relação a como a narrativa da Ressurreição é usada em alguns círculos. 
 
“Ano após ano, você ouve falar nisso ou ao final de cada evento com a Juventude – ´Foi por isso que Jesus veio, e foi por isso que morreu´, disse.” “Pregamos isto ao final de qualquer coisa. E não deveria ser assim. É como se tivéssemos tomado algo muito sagrado e o tornado muito trivial.”

Isto leva a algum tipo de conflito interior acerca do Domingo de Páscoa, até mesmo quando ele vai à igreja com sua família e os reúne para uma grande refeição. 
  “Torna-se algo que eu preciso fazer, e faço isso em respeito aos outros”, declarou.

A fim de reabilitar a narrativa da Ressurreição e da Páscoa ao seu lugar apropriado, disse Rivett, a igreja deveria “formar” nessa direção ao longo do ano – colocá-lo em seu contexto, em toda a saga bíblica.

“É outra narrativa sobre Jesus, outra parte de toda a Bíblia, mas ao mesmo tempo, é uma parte tão significativa”, disse.   
“Negligenciá-la completamente seria um erro, mas saturá-la constitui também um erro. É difícil encontrar um equilíbrio.”

O Bispo aposentado da Igreja Episcopal, John Shelby Spong, mais conhecido por sua interpretação de fama liberal do Cristianismo, não endossa a visão literal de Rivett sobre a Ressurreição.  Seu livro de 1995, “Ressurreição: Mito ou Realidade?” provocou uma celeuma, ao indagar-se: Será que o Cristianismo vai à ruína, se não se confirmar um milagre sobrenatural?

Para Spong, 82, a resposta é um não enfático. 

 “Não acho que a Ressureição tenha algo a ver com ressurreição física”, disse ele. “Penso que ela significa que a vida de Jesus foi elevada de volta à vida de Deus, não para a vida neste mundo, e que foi fora disto que sua presença – não seu corpo – “foi manifestada a certas testemunhas.”  

À semelhança de Rivett, ele também acha que a Ressurreição deve ser contextualizada para ser interpretada e entendida – o que tentou fazer quando padre jovem, baseado na Bíblia, ao longo de anos, por meio de aulas de estudo da Bíblia, culminando na narrativa da Páscoa, disse ele. “Tentei ajuar as pessoas a superar aquele literalismo”, declarou. “Mas, você não faz isto num único sermão. Você precisa de tempo para preparar o terreno e para que as pessoas processem isto, faça perguntas. Você tem que começar a formá-las.”

Os estudos de Bíblia de Song eram bastante populares, atraindo 300 pessoas, por sessão, disse ele. Suas assembléias cresceram como consequência. 

“Quando as pessoas ouvem isso, elas se apegam”, disse Spong. “Elas não podiam acreditar em superstições, e elas passaram por um processo de lavagem cerebral, para crerem que, se elas não acreditassem literalmente, não podiam ser cristãs.” 

“Um cristão, disse Spong, é alguém que aceita a realidade de Deus sem a exigência de uma crença literal em milagres.

“O que diz a Ressurreição é que Jesus rompeu todos os limites humanos, inclusive o limite da morte, e que, marchando em seu caminho, você pode ter um vislumbre daquilo”, declarou. “E penso tratar-se de uma belíssima mensagem”, disse. 
 

John Shelby Spong, Scott KorbJames Martin, Reg Rivett

Ressurreição de Jesus, Páscoa, Semana Santa 

Fonte: http://ncronline.org/news/theology/can-you-question-resurrection-and-still-be-christian

Trad.: Alder Júlio F. Calado

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