Violência regulamentada

A explosão de assassinatos na Grande São Paulo, já oficialmente atribuída à ação de organizações criminosas, demonstra, em última análise, como a “luta” contra o crime no Brasil consiste  muito mais em um processo contínuo de negociações escusas do que em uma real tentativa por acabar com a violência ou reduzi-la a níveis efetivamente satisfatórios – como costumam declarar as autoridades.

Geraldo Alckmin, governador de São Paulo: em momentos de crise, o que as autoridades fazem para ludibriar a população é cortar cabeças, como os times de futebol fazem com seus técnicos. Já era de se esperar, portanto, que o secretário de Segurança do estado caísse. O problema é que o buraco é bem mais embaixo.

Segundo analistas, a onda de crimes que vem varando as madrugadas na região metropolitana do estado seria uma retaliação a execuções de criminosos cometidas por policiais, hipótese que chegou a ser confirmada por autoridades em entrevistas a jornais de grande circulação. Em uma das reportagens, o delegado geral da Polícia Civil de São Paulo revelou que policiais acessaram a ficha criminal de pelo menos uma das vítimas das execuções, o que reforça o caráter premeditado dessa e, possivelmente, de outras ações.

Como sempre, muitos dirão que a polícia está certa e que bandido tem mais é de ser morto, seja legal ou ilegalmente – não importa se à queima-roupa, após se render, ou pelas costas. Tal pensamento, no entanto, deixa de lado o fato de que o trabalho da polícia, ao ser operacionalizado dessa maneira, está abdicando da inteligência, o que redundará, sem sombra de dúvida, em resultados práticos muito menos significativos.

Isso sem contar que o apoio à violência policial – ou melhor, a qualquer tipo de violência – denota um perigoso posicionamento, que, no fim das contas, dá asas a ações extremadas, de caráter fascista, que não cabem em um regime essencialmente democrático. Vale, inclusive, lembrar que não são raros os casos de execução de inocentes por policiais, os quais são recorrente e convenientemente registrados como autos de resistência.

No mais, é importante destacar que, por estar adotando uma prática que, no âmbito das relações entre as autoridades e o crime organizado, é vista como antiética, a polícia de São Paulo está sendo indiretamente responsável pelos assassinatos que o país tem acompanhado, os quais também tiveram, entre suas vítimas, diversos policiais.

Agora, após a irresponsabilidade de PMs e policiais civis do estado mais rico do país, as autoridades terão de negociar com os “cabeças” do crime organizado algum tipo de trégua, que implicará, no máximo, à volta dos índices anteriores de violência, que, por sinal, ainda estavam longe de se equiparar àqueles registrados em países de primeiro mundo.

Para tanto, terão de ser redefinidas as áreas de atuação de traficantes e sequestradores, bem como limites para a própria polícia, que também se verá forçada a dar garantias ao crime organizado de que suas facções poderão continuar a trabalhar em paz dentro das fronteiras pré-estabelecidas.

Enfim, a dinâmica das relações entre as autoridades e o crime está longe de ser o que aparece diariamente nas páginas policiais. Tamanhas são a intimidade e a promiscuidade entre os dois lados que a sensação que fica é que existe aí uma assustadora interligação, cuja melhor expressão remete ao conceito de crime organizado – uma forma de atuação que envolve a infiltração, a mistura e o relacionamento constante com governantes, possibilitando-lhes, assim, deter certo controle sobre a criminalidade, ao mesmo tempo em que permite aos bandidos obter determinadas garantias.

O que se vê em São Paulo, portanto, não deixa de ser um fenômeno que está associado à regulamentação não oficiosa do crime por parte do Estado – talvez sua face mais perversa. Disso os jornais certamente não falarão.