A violência burra das elites aprisionou Lula

Por Gustavo Conde

A gente vê juízes e procuradores com salários milionários somados a um pacote absolutamente indecente – e ilegal – de auxílios e lamenta do fundo da alma democrática o que houve com o Brasil.

Esse é o nó. E é esse nó que será desatado, mais cedo ou mais tarde, com urna ou sem urna, com sangue ou sem sangue, com lei ou sem lei. Lula seria a chance de eles terem uma transição relativamente suave para a realidade ética que lhes falta.

A corrupção folclórica no Brasil migrou do executivo para o judiciário. Percebam que eu falo da “corrupção folclórica”, aquela que vai para a boca do povo. Mais um ou dois anos e o grande estereótipo de corrupto no Brasil não será mais o político habituê que transporta mala de dinheiro no nariz da imprensa e do Brasil noveleiro. Será o integrante do judiciário que legisla em causa própria e que acumula salários milionários.

O fato de um juiz ganhar dois milhões por ano – o maior salário do mundo – começa a se alastrar em esquinas e botecos, que é onde nasce a opinião pública real. O judiciário brasileiro virou uma casta. Eles já têm até dificuldade psicológica de sair às ruas. Transitam com medo porque sabem que usufruem de benefícios imorais. Um bom Dostoiévski seria a leitura adequada para suas pretensões de imunidade ética.

A verdade é que Lula seria a única chance de a elite brasileira, judicial ou não, livrar-se da cólera popular que vai tomando forma diante da violência diária e arbitrária promovida pelo estado. Não se iludam: “povo burro” e “povo quieto” são simulacros estimulados por nossas elites atrasadas, compostas em grande medida por falsos intelectuais. Simulacros que muita gente supostamente esclarecida compra sem questionar-lhes as cifras mais evidentes.

O povo não é bobo

Não existe “povo burro”. O que existe são condições de produção de discursos e de resistência. O que esperar de um país que construiu sua identidade vulgo democrática através de uma única emissora de televisão por 50 anos seguidos, num monopólio midiático sem precedentes no mundo?

Burra é a estrutura política que permitiu a expansão de um grupo de mídia dessa natureza e com essas características. Burra, porque prejudicou a si mesma, sendo simbolicamente devastada por um falso pressuposto que diz que todo político é corrupto, pressuposto gestado e veiculado justamente por essa famigerada emissora.

O fato de parte considerável da população aceitar esse pressuposto não significa, por sua vez, que este segmento aparentemente prepotente também seja burro. Significa apenas que nós enquanto sociedade não estamos tendo a capacidade de construir uma resposta a tudo isso, uma resposta que seja contra-hegemônica e que produza soberania e desenvolvimento econômico atrelado ao desenvolvimento humano.

Os dados que comemorávamos

É muito curioso. Há poucos anos atrás, nós comemorávamos ano após ano, evoluções notáveis nos índices de desenvolvimento humano e econômico. Quando saía algum relatório da ONU, do índice de Gini, do IBGE, do INPE, do emprego formal, do salário, dos mais variáves tipos de monitoramento social e econômico, os números eram de evolução contínua e uniforme, além de surpreenderem positivamente com saltos não previstos (as metas do milênio foram um desses casos).

Naquele momento, no tecido jornalístico da leitura aplicada e detida, já era esperado que os dados estatísticos seriam sempre bons e positivos. O país rumava rapidamente a uma posição consolidada no cenário internacional das conquistas sociais e econômicas.

Tudo era tão previsivelmente óbvio e alvissareiro, que o que se comentava nas redes e nas mídias alternativas era como a imprensa hegemônica iria tratar a divulgação dos dados positivos daquela vez. Porque esse era um ponto a se considerar: a imprensa minimizava e diminuía os dados apresentados.

Podia ser a posição ascendente no IDH, a diminuição da mortalidade infantil, a queda do desmatamento na Amazônia ou o pleno emprego no país – que, aliás, durou até 2014, a despeito de toda a crise alardeada pela imprensa dia e noite, anos a fio.

Os dados positivos, portanto, eram vítimas do pilates retórico da imprensa que se recusava a reconhecer os avanços sociais da sociedade brasileira e preferia entender que o reconhecimento destas conquistas seria apenas uma propaganda não remunerada a um governo que, ademais, não lhe era íntimo.

Antes do golpe, a violência não era explícita

Em 2014 não havia essa explosão de violência, não havia massacres em presídios, execuções políticas, tiros em caravanas, genocídios indígenas, incêndios criminosos em sedes do Ibama. A situação era bem diferente.

Isso posto, resta a pergunta: o povo não é mesmo burro? Por que ele trocou tudo aquilo por isso? Primeiro, ele não trocou: foi “trocado”, à revelia. Aliás, esse é mais um ponto claro da conjuntura do golpe: uma administração que, com todas as dificuldades geopolíticas, estruturais e econômicas conseguia ainda manter o padrão de vida do brasileiro em curva ascendente, jamais sairia da gestão pública via sufrágio.

O ministro Gilmar Mendes, notório simpatizante do PSDB, falou com todas as letras – e com outras palavras: com esse cinturão de proteção social, ‘eles’ jamais sairiam do poder; seria impossível vencê-los. Seria mesmo. O golpe serviu para superar essa “dificuldade”.

Coletividade versus reflexividade

A burrice, no entanto, não é uma ‘exclusividade’ do povo e nem a explicação para esse quadro terminal pelo qual passa a democracia brasileira. O que se poderia propor enquanto análise do cenário da percepção e da reação popular é a coletividade real versus a leitura individual e confortável que faço na minha sala de estar.

A coletividade social opera em outro nível no que diz respeito à construção das ideias e das representações. Dela não se pode exigir a consciência individual ponderada que analisa os fatos dentro da própria urgência subjetiva. A coletividade é uma força da natureza, ela “emana”, ela se organiza de maneira difusa e, em geral, jamais roça a racionalidade. São espasmos emocionais coletivos que, eventualmente, coincidem com o singelo conceito de “voz do povo”.

Essa indomesticação da voz coletiva é que justifica, em parte, a existência de um sistema que tem que dar conta da representação popular e da incontornável democracia. Não é trivial pensar isso, do alto da racionalidade individual e conceitual que, por sua vez, também compõe o tecido democrático.

A voz coletiva é fatalmente emocional, irracional e imune ao argumento bem comportado e frívolo. A voz coletiva quer fricção, quer demolição, quer a arena, quer a catarse. Carlos Drummond de Andrade já dizia: meu nome é tumulto.

A voz coletiva detém uma energia muito poderosa e extremamente revolucionária, sempre. É da natureza dela ser assim. Essa energia, se devidamente canalizada para um propósito, logra êxito tão logo se imponha o desafio.

É por isso que a leitura individual e argumentativa desta força emanatória discursiva da coletividade humana é atravessada por tantos simulacros e por tantos blefes e diversionismos, cirurgicamente plantados por mecanismos específicos de poder – de um poder que teme essa força e que passa a totalidade de seus dias e noites tentando domesticá-la.

O discurso “o povo é burro” é muito sedutor e, de fato, convence parcela significativa da sociedade brasileira, que ainda sofre de um imenso complexo de inferioridade decorrente das próprias elites, essas sim, burras na acepção clássica do termo.

O que, afinal, é “inteligência”?

Há de se fazer uma distinção urgente: inteligência não é “se dar bem”. Não é “roubar e se safar”. Inteligência não é desviar milhões e explorar o trabalhador. Não se pode chamar isso nem de esperteza. No entanto, essa força artificial contrapopular que nasce na imprensa, nos canais empresariais e nos nichos falsamente intelectuais, interpreta esse tipo de “ação” como fruto de ‘inteligência’ (eles adoram a palavra ‘sucesso’). Isso é um equívoco monumental.

Sucesso não é sinônimo de inteligência. É por isso que o conceito de darwinismo social é tão eloquente e fala por si. O evolucionismo é só uma tese que dá conta minimamente bem da luta pela sobrevivência genética nos ambientes hostis da natureza real. Aplicado à vida simbólica como premissa, ele se torna só mais um vetor fascista, que afasta a compreensão do humano.

Muita gente, no entanto, compra essa tese de que a inteligência tem a ver com o sucesso. Como contraprova, basta pensar em Neymar. É possível dizer que sua vida milionária decorre de sua inteligência pessoal? Para a Globo, certamente sim.

O povo não é “burro”, o povo é honesto

Por outro lado, essa ideia de que a inteligência são os Geddeis, Temers e Aécios é a contrapartida do discurso “o povo é burro”. Para estes, o povo é ‘burro’ porque é trabalhador, porque segue as regras, porque respeita as leis, porque acredita nas instituições, porque tem senso de solidariedade, porque celebra a vida paupérrima com a família e ainda consegue sorrir e ter esperança.

Essa é a ‘burrice’ que cativa tanto o “espírito crítico” da nossa classe média que, evidentemente entende que não faz parte dessa realidade “cruel, desumana e ignorante”. Esse nó semântico trava a compreensão de país e do desenlace político para essa encalacrada histórica em que nos enfiamos.

Destaque-se o seguinte complicador: em uma conjuntura social que lida com emocionalidades de toda sorte, ter um centro irradiador que tenha o poder de mobilizar a coletividade é algo altamente estratégico. A Rede Globo cumpre essa função com extremo profissionalismo e profunda competência.

Domesticar a massa populacional de um país inteiro ao seu bel prazer facilita muito a vida dos políticos coadjuvantes que disputam as rebarbas do naco financeiro deixado pela emissora tentacular. Essa população imensa e pobre paga seus impostos em dia, diferentememte do segmento mais abastado que aprendeu a ser “inteligente” e a sonegar de maneira profissional.

Esse volume de impostos pagos honestamente pela população trabalhadora – que, ademais, nem tem como sonegar, uma vez que, na realidade dela, tudo é descontado em folha – retornam à poderosa emissora em forma de contratos publicitários milionários. É, inegavelmente, um ciclo “inteligente”.

Poder-se-ia dizer: ora, o povo é “burro” em deixar tudo isso acontecer diante de seus olhos. O brasileiro tem mesmo o hábito de dizer: “eles que são brancos que se entendam”.

O ônus da desinteligência, no entanto, não merece ser terceirizado para a população trabalhadora. Esse ônus tem dono: é a elite escravocrata e a classe média – que pensa que é mas não é. A esquerda e os segmentos democráticos, por sua vez, não podem agregar esse discurso às suas demandas de representação e ceticismo. Acusar o povo brasileiro de “burro”, neste momento ou em quealquer outro, é suicídio histórico.

É preciso entender: a coletividade é diferente do meu pensamento bem comportado e supostamente racional. São forças diferentes e como tal devem ser interpretadas e codificadas.

O efeito-Lula

É por isso que há um fenômeno discursivo em curso no Brasil já há 40 anos: o efeito-Lula. Este operário do discurso soube fazer frente às estratégias mesquinhas de subjugação da elite brasileira e a ofendeu de maneira indesculpável.

Testemunhar um homem sozinho desafiar todo um conglomerado de mídia e de poder secular e, ainda assim, lograr êxito por mais de 13 anos seguidos na cena do embate público, só interrompido por um golpe, é algo para se ter orgulho e para se contar aos netos com imensa felicidade, independente da violência burra da elites que sufocou e aprisionou o amor inteligente de Lula.

Lula detém esse poder de modalizar e conduzir a compreensão difusa da realidade que decorre da coletividade social. Para se sentir essa força emanatória sem intimidação nem tampouco prepotência, é preciso ter, acima de tudo, profunda humildade e, é claro, inteligência acima da média.

Os falsos intelectuais, notadamente simpáticos ao PSDB, tem não só desprezo pelo discurso que eventualmente é produzido pela coletividade: eles têm nojo. Eles não compreendem as sutilezas do discurso que emana do povo.

É por isso que é muito perigoso – e suicida – alguém pertencente aos segmentos democráticos chamar o povo de “burro”. Não se trata de quantificar a inteligência: trata-se de ter sensibilidade para dialogar com essa força popular que, em tese, deveria definir os destinos de toda e qualquer nação democrática.

O destino do Brasil, portanto, está nas mãos e no discurso do povo, só o segmento mais intelectualizado é que não sabe e/ou não aceita. A prisão de Lula acelerou o processo histórico e, prolongada ou não, ela já disparou esse gatilho.

O corpo de Lula

A sociedade brasileira, em toda a sua complexidade e heterogeneidade – e para além da admiração legítima tão compartilhada entre os cidadãos mais pobres – sofre de um fetiche atávico pela simbologia avassaladora de Lula. Quer-se, de alguma maneria, o corpo de Lula.

O habeas corpus, nesse sentido, não é apenas um conceito jurídico que foi denegado pela Suprema Corte. O habeas corpus é o desejo de toda uma sociedade em ter para si o corpo de um líder revolucionário que extravasa todas as classificações históricas possíveis.

Quer-se o corpo de Lula com tal intensidade que sua presença em Curitiba provoca um distúrbio social que chega a assustar. Lula é acordado diariamente com o “bom dia” gutural dos sem-terra acampados em frente à polícia federal. As mobilizações por sua liberdade ganham o país inteiro – ainda que ignoradas pela imprensa nativa.

A narrativa acerca de sua vida e de seu legado já atingiu níveis astronômicos de produção de texto e de massa discursiva. Elas se aceleraram a olhos vistos com sua prisão que, por sua vez, impôs um sentimento de “falta” nos segmentos democráticos. Esses segmentos, por sua vez, ressentem-se diante do retrocesso social e temem o mergulho do país na obscuridade fascista que ganhou espaço sob a chancela da imprensa e dos partidos usurpadores de poder, MDB e PSDB.

O cenário enseja, portanto, muito cuidado e muita atenção aos detalhes da linguagem política e, por que não dizer, filosófica. A hora requer assertividade e autoestima, como, aliás, têm demonstrado os coletivos urbanos (muitos recolocados em cena em função da indignação diante da execução brutal de Marielle Franco).

Rotular o povo, nesse momento, é um dos favores que podemos prestar aos nichos seculares de poder. Lula jamais rotulou o povo. É dessa cumplicidade que emana toda a força da aliança Lula-povo que impressiona e impacta tanta gente.

Lula ficou mais forte depois de sua prisão, diferentemente do que prognostica o Datafolha de hoje. A função do segmento que gosta de refletir a quatro paredes é a de construir mais conexões com o povo e não contrário. O povo é inteligente à sua maneira. A democracia é inteligente à sua maneira. Não podemos ceder esse espaço simbólico a um inimigo tão vil e tão – à sua maneira – desinteligente.

Fonte: Brasil 247

https://www.brasil247.com/pt/colunistas/gustavoconde/351273/A-violência-burra-das-elites-aprisionou-Lula.htm

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