Urgências missionárias contemporâneas: o caso da vocação teológica das mulheres

São plurais os caminhos inspirados pelo Espírito do Ressuscitado aos e às que buscam ser solícitos ao Seu seguimento. Assim tem sido, em todos os tempos e lugares. Também hoje. Há, com efeito, uma diversidade considerável de formas de atendimento aos apelos do Sopro Fontal, do Espírito Santo, em sua atuação no mundo e ao interno das Igrejas cristãs. Uma ilustração didática do que estamos a evocar faz-se presente, por exemplo, na diversidade de formas de aturarem como missionárias e missionários os diferentes grupos e comunidades ligados à Teologia da Enxada. Aqui se observa um leque de opções missionárias em curso: peregrinos e peregrinas, missionários e missionárias do campo, contemplativos e contemplativas, formadores e formadoras missionários e missionárias atuando nas periferias urbanas, etc.

São, todas, formas distintas de atendimento ao chamado do Ressuscitado: “Não foram vocês que Me escolheram, mas fui Eu quem os escolhi, e os enviei, para que vocês vão e produzam frutos, e estes frutos permaneçam.” (Jo 15, 16). E assim se faz pelo mundo a fora. Tais formas de atuação missionária, por estarem vinculadas ao chamamento do Espírito Santo, também têm a ver com situações concretas, tais como: conjunturas sócio-eclesiais específicas, escolhas pessoais em função de vocação pessoal, urgências históricas, no âmbito sócio-eclesial, etc. Nas linhas que seguem, propomo-nos a considerar alguns elementos atinentes a uma dessas urgências missionárias contemporâneas, a saber, a produção teológica pelas mulheres.

É gratificante constatar o crescente número de mulheres – religiosas, leigas (consagradas ou não), a assumirem, em distintas partes do mundo, e em diferentes igrejas e mesmo ao interno de confissões não-cristãs, o desafio de produzirem teologia. Tal tendência é algo a ser saudado, com entusiasmo. De fato, quando comparamos, em passado recente, ou menos recente, o número de mulheres dedicadas às pesquisas teológicas em relação ao número de homens, as distâncias pareciam astronômicas. Que bom que isto esteja mudando! Por outro lado, também convém termos presentes as desigualdades ainda persistentes. E isto tem feito uma diferença significativa, sobretudo num mundo afetado gravemente por tendências androcêntricas e fundamentalistas. E aqui, também, o âmbito teológico tem um papel decisivo.

Nos mais distintos domínios de saberes – do campo filosófico à esfera das religiões; da área científica à literatura e as artes, etc., pesquisas recentes têm revelado aspectos impactantes em seus resultados, ou melhor, em todo o seu processo, quando conduzidos por mulheres, sob a perspectiva feminista. No caso da história do Medievo, por exemplo, as pesquisas de perfil feminista vêm trazendo revelações emblemáticas, à medida que aprofundam a compreensão do lugar privilegiado das sábias medievais, relegadas, durante séculos, à invisibilidade autoral. Acerca destas descobertas há uma literatura acadêmica significativa (ver, por ex., indicações biobibliográficas constantes no livro de Georges Deuby e Michelle Perrote. História das mulheres, vol. II, Porto: Afrontamento, 1990).

Nosso propósito, nas linhas que seguem, restringe-se a breves notas sobre o campo específico da produção teológica por mulheres, inclusive no campo da exegese.

À semelhança do que sucede nos campos filosófico, histórico e literário, atinentes à Idade Média, cumpre observar os avanços notáveis também em curso na área da Teologia, como podem ser atestados por autoras tais como Fiorenza, Gebara, Marinella Perroni, Teresa Forcades, entre outras. Que aspectos podem ser sublinhadas da excelência de tais pesquisas? Tal como já vinha acontecendo, desde algumas décadas, em relação às pesquisas bíblicas voltadas para uma releitura dos textos sagrados, sob a perspectiva dos pobres na América Latina (ver, a este respeito, por ex., a expressiva obra sobre a história da Igreja na América Latina, do ponto de vista do povo, conduzidas pela Comisión de la Historia de la Iglesia Latinoamericana y Caribe, também se passa com relação ao olhar feminista. A condição de gênero implica, com efeito, modos distintos e, por vezes, antagônicos, de se apreciar o mesmo texto sagrado. Como as traduções das Sagradas Escrituras, durante séculos, foram obra de homens, tem resulto uma tendência à cristalização das interpretações da Bíblia (e de qualquer outro texto sagrado) feitas por homens, sob os mais diferentes aspectos. Narrativas vétero e neotestamentárias que o olhar masculino interpreta de um modo, comportam notáveis diferenças, quando lidas por mulheres, numa perspectiva feminista, como alertam várias teólogas, dentre as quais Teresa Forcades (cf., por ex., seu livro “A Teoloia Feminista na História; ver ainda Dr. Elizabeth Schussler Fiorenza: https://www.youtube.com/watch?v=dUDlV8B1aHw ; Marinella:https://www.youtube.com/watch?v=ym7gRUM2zXc )

Que desafios concretos da atualidade católica demandam um enfático apelo ao empenho as leigas e das religiosas, no sentido de se dedicarem cada vez mais aos estudos teológicos, em suas diversas áreas, inclusive da exegese bíblica e da história do cristianismo? Ora, no campo missionário e outros, tais como o terreno pastoral, deparamo-nos com desafios desta natureza. Em várias ocasiões do agir missionário, situações embaraçosas vêm a lume. E, não raro, acabam prevalecendo posições tipicamente masculinas, quando não mesmo machistas, com a agravante de se apoiar em textos bíblicos sob interpretação exclusivamente masculina, não raramente descampando para interpretações androcêntricas, que acaba prevalecendo.

No cotidiano missionário, bem como em outros cenários da vida eclesial são constantes e frequentes, as situações concretas, nas quais prevalecem interpretações androcêntricas, em grande parte por conta da desvantagem que as mulheres católicas (e também de outras expressões religiosas) se veem diante de interpretações bíblicas (do antigo e do novo testamento), sem que tenham condições de reagir à altura. E aí se trata de questões fundamentais, no que diz respeito a uma compreensão mais próxima da tradição de Jesus. Neste sentido cumpre reforçar a importância do protagonismo das mulheres também no campo da pesquisa teológica, do que podem ser tomadas como referência iniciativas tais como:

– Há cerca de quatro décadas, o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI) nos tem brindado com uma produção de profundo e vasto alcance, no campo dos estudos bíblicos, inclusive no que concerne a condição feminina;

-O excelente trabalho de pesquisa protagonizado pelas autoras Luise Schottroff, Silvia Schroer e Marie Theres Wacker, com seu livro intitulado “Exegese Feminista – Resultado de pesquisas bíblicas, a partir da perspectiva de mulheres” (cf. http://books.google.com.br/books?id=SbBIR27O59oC&pg=PA51&lpg=PA51&dq=quiriarcado&source=bl&ots=IWP4vr6Wko&sig=finMW_0CPZ36cisC0x8RgRRfIq4&hl=pt-PT&sa=X&ei=lA4uU7rsAafV0QHSmIGgDA&ved=0CDQQ6AEwAQ#v=onepage&q=quiriarcado&f=false );

– Os trabalhos reconhecidos, realizados por diversas Religiosas, ligadas à conhecida Conferência das Religiosas dos Estados Unidos (https://lcwr.org/ );

– A intensa atuação de pesquisadora e palestrante da Teóloga Ecofeminista Ivone Gebara;

– A fecunda iniciativa de Católicas pelo direito de decidir, inclusive por meio de sua instigante série de pequenos vídeo, intitulada “Catolicadas” (cf. https://www.youtube.com/watch?v=HcX0Iv2zLm4 );

– Há de se lembrar a atuação criativa de mulheres de diferentes confissões religiosas, espalhadas pelo mundo, que também se valem da produção literária como meio de expressarem suas convicções religiosas;

Ao longo da história do Povo de Deus, inclusive da trajetória do Cristianismo, as mulheres mesmo em profunda desvantagem em relação aos homens sempre protagonizaram momentos marcantes, dos quais o Movimento das Beguinas e mais recentemente, as Pequenas Comunidades de Religiosas inseridas no meio popular (PCIs), bem como várias organizações feministas atuando nos Estados Unidos, no Canadá, na América Latina e na Europa constituem exemplos ilustrativos inspiradores. Que as energias subversivas também ao feminino, nos inspirem a todas, a todos, neste 8 de março, tanto no âmbito do Sagrado, quanto nas lutas sociais libertárias.

João Pessoa, 6 de março de 2019.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *