“Universidades em greve,” por Jaldes Reis de Menezes

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Os docentes das universidades federais brasileiras estão em greve. Na mesa de negociações entre os grevistas e o governo existe um único e perverso consenso, que justifica o movimento: o patamar atual dos salários dos professores das universidades públicas é baixíssimo.

Não faço figura de retórica: os vencimentos básicos de um professor em início de carreira (20 horas de trabalho semanais), pasmem, são menores que o salário mínimo. Trata-se do menor piso salarial entre todas as 73 carreiras do serviço público federal. Sem chauvinismo, apenas constato um professor universitário com doutorado ganha menos que um policial rodoviário. A proposta dos professores – que acredito seja perfeitamente factível para o tesouro nacional, tendo em vista o crescimento econômico dos últimos anos – é de subir o piso para a quantia de 2.329,35 (valor do salário mínimo do DIEESE).

Ninguém há de negar a importância estratégica do trabalho dos professores-pesquisadores universitários. As instituições públicas brasileiras (principalmente as universidades) concentram 90% da pesquisa científica e da inovação tecnológica do país. Foram desenvolvidas nas universidades públicas, por exemplo, as pesquisas avançadas de prospecção de petróleo em águas profundas (fundamental para tornar viável economicamente a riqueza natural do Pré Sal) e as novas fontes energéticas.

As universidades públicas se expandiram no período recém passado do governo Lula. Tornou-se lugar comum afirmar que os campi universitários se transformaram num autêntico canteiro de obras. No entanto, os salários dos professores (Universidade de verdade se faz priorizando o investimento em recursos humanos) nem de longe acompanharam o ritmo da expansão física. Ao contrário, o governo tem tratado os professores com menosprezo. Se Dilma quiser fazer história, fica uma dica: valorize o trabalho docente.

No ano passado foi firmado um acordo dos sindicatos docentes com o governo no qual constam duas clausulas simples: aumento de 4% (abaixo da inflação anual), a partir de março de 2012, e negociação – com prazo final também em março – de uma nova carreira profissional. Passou o prazo e o governo fez ouvidos de mercador. Somente quando se ensaiou a possibilidade de greve, enfim, o governo editou a Medida Provisória do irrisório aumento dos 4%. Mas cadê a nova carreira?

Fonte: Jornal da Paraíba, 27/05/2012.

O autor é docente da UFPB.

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