Uma imaculada concepção da vida e do mundo

Hoje é para mim um dia importante. No 08 de dezembro de 1965, na igreja do Mosteiro de São Bento em Olinda, eu fazia meus primeiros votos de monge.

Naquele mesmo dia, em Roma, o papa Paulo VI e todos os bispos católicos do mundo encerravam o Concílio Vaticano II que colocou a Igreja em um caminho de renovação e de diálogo com a humanidade.

Tradicionalmente no 08 de dezembro, os católicos celebram a imaculada concepção da Virgem Maria, um dogma segundo o qual, tendo em vista os méritos do Cristo na cruz, Maria teria sido concebida sem pecado original. Ora, como continuar a celebrar essa crença hoje se a própria noção do pecado original teria de ser totalmente revista (preferimos acentuar a bênção divina na criação e a bondade fundamental de todo ser vivo, assim como de todo ser humano. No princípio, diz a Teologia atual, está a bênção e o amor e não o pecado e a necessidade de reparação ou redenção. Então, essa festa de hoje, nada ecumênica (é um dogma proclamado pelo papa Pio XI em 1854), precisa ser totalmente revista e compreendida de uma forma nova.

Quem acompanha as notícias atuais e vê a realidade do mundo atual percebe que os meios de comunicação e os governantes se uniram na tarefa de provar que o ser humano é visceralmente mau e que a sociedade humana não tem mesmo solução nem remédio. O jeito é sobreviver todos contra todos e enfrentar a barbárie nossa de cada dia. Claro que essa propaganda já é suficientemente forte e não precisa mais de dogma católico do pecado original para se fortalecer. O que precisa é da fé que proclame: Deus é amor e nos fez à sua imagem e semelhança. Apesar de tudo, essa imagem divina esculpida no mais profundo de todo ser humano não se apaga nem se estraga de forma total ou permanente. Sempre é possível resgatá-la e torná-la visível. Essa é a nossa tarefa de fé com relação a nós e ao mundo. Se celebramos o Natal é para deixar que renasça em nós o Jesus que nasceu em Belém. Que sejamos nós humanos como ele e possamos assim renovar a imagem amorosa da humanidade.

Todos nós tivemos e temos a graça de conviver com pessoas que nos ajudam a renovar a fé na bondade fundamental da pessoa humana e de que esse mundo tem remédio e salvação. Pena que não pude, no dia 05, visitar o nosso querido Dom Pedro Casaldáliga, como chegou a ser pensado. Mas, quem conviveu com pessoas como Betinho (me lembro dos seus olhos vivos e cheios de ternura em meio ao enfrentamento de uma doença que ele sabia ser mortal e uma fragilidade que o fazia sofrer, mas não conseguia prendê-lo a si mesmo. É bom lembrar-se da aura de bondade e amor que é possível ver em pessoas com as quais convivemos. Quem não conheceu homens e mulheres sempre a destilar esperança na vida e a nos contagiar com generosidade amorosa?

O Concílio Vaticano II falou de Maria, mãe de Jesus, como figura (imagem-símbolo) da humanidade nova. Contemplá-la assim nos ajuda a retomar a fé na bondade fundamental do ser humano e mesmo na possibilidade de nos renovar permanentemente. Leva-nos a nos rever em nossa forma de ser e de conviver para deixar aflorar novamente em nós a inocência original que nada tem a ver com ignorância ou ingenuidade, mas que é opção de testemunhar que o mundo está grávido do amor divino e nós somos parteiros e parteiras que acompanhamos essa gravidez e ajudamos a criança a nascer em nós e no universo.

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