Um País Cheio de Vítimas

@@@--FASCISMO&FAMILIA

Revista de propaganda fascista da década de 30, que estimulava o grande tamanho das famílias

Carlos Alberto Lungarzo

Anistia Internacional (USA) – 2152711

Se eu não conhecesse bem o caso Battisti e, além disso, acreditasse na boa fé da grande mídia, pensaria que os inimigos do escritor italiano estão sendo muito generosos. Com efeito, será verdade que ele matou apenas quatro pessoas? Vocês pensarão por que me faço uma pergunta tão idiota. É o seguinte: Itália é um tradicional país cristão, onde até há pouco tempo as famílias tinham muitos filhos. Aliás, conservadores piedosos e crédulos aceitam todos os filhos que “Deus manda”. Durante as décadas de 20, 30 e parte de 40, este robustecimento da família se intensificou com recomendações, prêmios, medalhas e elogios. Apesar de tudo isso, porém, será que apenas quatro pessoas podem ter tantos familiares?

Com efeito, parece praticamente infinito o número de familiares das vítimas, que também são vítimas, às vezes no sentido físico, como Alberto Torregiani, e nos outros casos em sentido moral. Eu tenho dificuldade para avaliar quantos são esses familiares ou, se preferirmos, essas vítimas. Eles são permanentemente invocados pelo presidente da Itália, o ex-stalinista Napolitano, quem afirma ter escrito uma carta à presidente Dilma, dizendo que deve devolver Battisti, por respeito às vítimas.

Os filhos dos mortos dizem que não querem vingança (ainda bem!), mas apenas justiça para as vítimas. As vítimas possuem associações nas quais são mencionados todos os que morreram em confrontos com a esquerda. As vítimas vivas não podem esquecer as centenas de outras vítimas que foram aniquiladas nos stragi organizados pelos fascistas: Piazza Fontana, Trem Italicus, Piazza Brescia, Petteano, e outros 7 mega-ataques terroristas, no maior dos quais, em Bolonha, morreram 85 e ficaram mais de 200 mutilados. Mas, isto não pode ser carregado à esquerda porque, apesar dos esforços da polícia, da justiça e da mídia italiana, os fascistas deixaram orgulhosamente sua marca. Para sermos justos, uma parte significativa dos fascistas não se parece a seus obscuros subservientes no Brasil: alguns gostam de dar as caras e afrontar os riscos, mesmo contrariando as instruções dos militares italianos que querem incriminar a esquerda. Vincenzo Vinciguerra, o único fascista ainda preso, assumiu seu assassinato de três policiais e pós a boca no trombone, denunciado todos seus cúmplices.

Então, as associações de vítimas preferem não falar dos autores (embora comentem todos os detalhes dos estragos), e eventualmente deixam transparecer que houve uma manifestação de esquerda, após o estrago, e essa manifestação produziu novas vítimas.

Em fim, há vítimas por todos os lados. Vítimas que vão ao Parlamento Europeu, que dão dúzias de entrevistas por Rádio e TV, que escrevem em jornais, e ameaçam de vez em quando vir ao Brasil. Até o representante de Comissão Européia, o oportunista ex-stalinista Stefan Füle, que estragou as ilusões de uma vendetta de toda a Europa contra Brasil, também disse que reverenciava as vítimas.

Não acho raro que existam milhares de vítimas, mas “são todas parentes de Battisti?”. Alberto Torregiani desfez o equívoco quando achou que a coisa tinha sido exagerada. Disse que ele e outras vítimas de Battisti eram solidários com as vítimas em geral.

Como disse no blog Outras Palavras, a mídia chegou a inventar vítimas inexistentes, com nomes fictícios, tão reais como as testemunhas contra Battisti ou as provas que a polícia italiana diz ter contra o escritor. Segundo os autores do blog, as organizações Globo e o Grupo Folha foram mestres da criatividade nessa rubrica.

http://ponto.outraspalavras.net/2011/01/12/por-que-a-midia-nao-quer-battisti-livre/

O presidente da sociedade de vítimas do estrago de Bolonha é um ativo líder do movimento linchador de Battisti. Todos eles afirmam uma unidade entre todas as vítimas, o que coincidiria com uma visão humanista do direito: vítimas do terrorismo, de direita ou de esquerda, são equivalentes. Isso é correto, desde que em ambos os casos tenham sido vitimadas cruelmente. Mas, na prática, não é isso o que fazem. Estão preocupados pelas vítimas dos PAC, que não foram mortos por Battisti, mas por alguns delatores de Battisti e outros, mas não se pronunciam contra os democratas cristãos que mataram jornalistas, nem contra os policiais que jogaram Giuseppe Pinelli, um militante anarquista, do 4º andar de uma delegacia. Não. As vítimas não têm nada contra eles. Os delatores são ex-pecadores, redimidos pelo arrependimento. Já os torturadores da polícia, do exército e da magistratura (sim, porque os promotores assistiam e assessoravam na aplicação de tormento, como provou Laura Grimaldi), são heróis, e se estão mortos, são mártires e vítimas.

É curioso. No direito moderno, um criminoso é punido para segurança da sociedade, e não para deleite das vítimas. Que eu saiba, essa satisfação dos parentes das vítimas de ver o executor de seus amados sendo arrebentado era conhecida por vendetta ou feudo de sangue. É verdade que toda sociedade primitiva tem uma enorme parcela de vingadores, o que acontece em longa escala na América Latina. Entretanto, minha geração nunca viu um governo de um país dito civilizado apregoar a vendetta. Segundo meus antepassados, Mussolini, o príncipe Hiroíto, Franco, Hitler e outros proclamavam vingança, mas isso acabo após 1945.

A Itália sofreu realmente um grande desfalque depois de torturar Giordano Bruno, Galileu e Gramsci, e ignorar Beccaria e outros iluministas, pois, muito depois, no país continuam a vigorar os princípios jurídicos do império romano, ou talvez anteriores. O estado Italiano não usa o Common Law, é verdade, pois possui outra tradição jurídica e tem direito a escolher seu estilo. Mas parece que se mantém anterior ao Common Law. As ladainhas repetidas milhares de vezes sobre as infinitas vítimas de Battisti para justificar sua extradição, nos fazem lembrar os tempos Greco-romanos, onde o crime não era um ato contra o equilíbrio social e o convívio, mas contra as vítimas, e portanto a punição devia ser cobrada por elas mesmas, ou por alguém com autoridade como o pater familias.

Daí também surge a noção de soberania jurídica usada nos casos de extradição (embora a primeira extradição registrada seja só do século 6º). Quando Itália reclama Battisti e chora junto com o exército de vítimas, queixa-se de que sua soberania está sendo violada. Pessoas simples se perguntam: “Eles querem tirar uma pessoa que está em nosso país, que nosso governo protege, e falam de que a gente quer violar a sua soberania?” Mas isto tem sua lógica. Na soberania imperial e familiar, o delinquente não tem direitos próprios: ele é propriedade do clã, da família, da tribo, e, no caso em apreço, desse grande clã chamado estado. Então, Battisti não é um ser humano independente que nasceu na Itália: ele é uma propriedade da Itália, que o Brasil tem roubado.

Para a filosofia “vendetteira”, confortar as vítimas não é fazer suas vidas mais agradáveis, e ajudar a melhorar a sociedade. Segundo algumas fontes jornalísticas, o jovem Torregiani deveu esperar anos antes de receber uma pensão do Estado. Nesse caso, e em muitos outros (algumas vítimas do terror preto ou vermelho, lutam duramente para obter alguns euros para sobreviver) o conforto das vítimas é entendido como na filosofia dos antigos clãs escoceses: Nemo me impune lacessit: “Ninguém pode me fazer dano e ficar impune”.

O presidente Napolitano, que não por nada soube fazer a cambalhota certa no momento certo (apoiar o massacre de Hungria, quando os soviéticos eram ricos, e repudiar a invasão quase pacífica da Tchecoslováquia quando os soviéticos eram pobres), usa também as vítimas como motivo.

Num dos fragmentos citados pela mídia italiana como fazendo parte da (suposta) carta a Dilma, o famoso oportunista do poder diz que entregar a Battisti será uma maneira de satisfazer às vítimas e fechar uma história de sangue.

Accidenti! Será que Battisti é Superman? Um único homem pode salvar os pecados de toda uma geração, quase como fez Jesucristo com os pecados de toda a humanidade? Há vítimas de todos os estilos, mas o que predominam são vítimas do fascismo. Só entre os 11 principais stragi há quase 500 mortos e milhares de mutilados. Tudo isso pode ser redimido com o sangue de um único sujeito, um cara que escreve livros e cuida de sua família desde há 30 anos?

Será então que aqueles milhares de vítimas são todas produzidas por ele? Bom, se for assim, minhas dúvidas são corretas. Para que os familiares das vítimas sejam milhares, os mortos e feridos devem ser mais de 20 e não apenas 4. Ou aquelas famílias eram mais numerosas do que jamais o Duce pôde suspeitar?

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Carlos Alberto Lungarzo é matemático, nascido na Argentina, e mora no Brasil desde sua graduação. É professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), São Paulo, e milita em Anistia Internacional desde há muito tempo, nas seções mexicana, argentina, brasileira e (depois do fim desta) americana. Tem escritos vários livros e artigos sobre lógica, estatística e computação quântica, mas seu interesse tem sido sempre os direitos humanos.

Seções: Atitude!, Cidadania, Justiça & Direito, Memória & Consciência, Mundo, Sociologia.