Um oásis para resgate da auto-estima

Ela sorri para a foto e pede que a câmera também enquadre seus santinhos, suas flores e os enfeites que cuidadosamente guarda em cima de uma mesinha. Solta os cabelos, arruma os diversos colares em volta do pescoço e segura, como se fossem mágicas, as quatro varas que simbolizam o projeto que a acolheu. Aos 67 anos, a vida de dona Zilma Saturnino é outra, desde que se tornou uma das cuidadoras da oca de saúde comunitária.

Ela conta que nasceu perto do Açude João Lopes, no bairro Ellery, periferia de Fortaleza. “Era doente até vir me tratar com doutor Adalberto”. Depois de um período de internamento no Hospital Psiquiátrico Mira y Lopez — de onde fugiu —, Zilma encontrou apoio no Projeto 4 Varas, onde pôde exercer a vocação para cura. “Eu era doente porque tinha o dom e não sabia”, diz. Foi numa das sessões de terapia comunitária que ela se (re)descobriu rezadeira.

O doutor Adalberto relembra. “Dona Zilma era doida de pedra. Mas quando chegou aqui, não olhei a patologia: disseram que era curandeira. Um dia, uma pessoa passou mal, segundo ela era um encosto. Ela foi lá, rezou e, depois que terminou, as pessoas começaram a pedir que ela rezasse aqui e ali. Não deu mais tempo de endoidar”.

A massoterapeuta Cléia Rodrigues Monteiro chegou ao projeto há nove anos, também à procura de ajuda. Relata, sorridente, à porta da sala que ocupa na oca de saúde comunitária, que sofria de depressão desde jovem e reclamava de um entalo. “Quando Cleinha se curou, começou a mandar pessoas pra cá”, recorda Adalberto, que identificou naquela senhora a capacidade de mobilização na comunidade. “Vi que ela tinha capilaridade, conseguia formar uma rede de suporte e de apoio social”, lembra. No início relutante, fez o curso de massagem. “Você cuida muito bem dos outros, venha aprender a cuidar melhor”, dizia Adalberto para convencê-la.

Situação semelhante viveu dona Francisca, que chegou à casa “neoleptizada, babando, inclusive impregnada”. Adalberto conta que até ela se surpreendeu pela maneira como foi recebida: “Disseram que a senhora é rezadeira. Meus remédios sozinhos não dão conta de tanto estresse e sofrimento. Vou precisar de gente como a senhora”, disse o médico. “O senhor acha que vou ficar boa?”, duvidou Francisca. “A senhora nasceu assim? Não! Não se preocupe que vou te tratar”.

Zilma, Cleinha e Francisca são apenas três dos muitos perfis que comprovam a resolutividade do trabalho de terapia comunitária realizado há 20 anos na Favela do Pirambu, comunidade que abriga cerca de 50 mil pessoas na periferia de Fortaleza. O responsável pela iniciativa é o psiquiatra e antropólogo Adalberto Barreto. Desde que começou a reunir as pessoas para escutar seus problemas à sombra de um cajueiro, no mesmo terreno onde agora está instalado o projeto, ele defende a parceria entre o saber científico e o popular no tratamento dos transtornos mentais.

Hoje, sentado no mesmo local, ele festeja a concretização de um projeto que atende mensalmente 1.200 pessoas e enfrenta, ao mesmo tempo, a patologia e o sofrimento. “Aqui temos um posto de saúde do PSF, onde se trabalha a patologia com o médico, o enfermeiro e o dentista, e um espaço onde se trabalha o sofrimento, com a massagem, a argila com pedras mornas, o banho de ervas e a reza com curandeiros”, resume. Assim é possível aproveitar, de forma complementar, o saber dos especialistas e a sabedoria popular, que enfrenta o sofrimento “promovendo a saúde e reduzindo danos”.
Desde 2006, o projeto — iniciativa com o Departamento de Saúde Comunitária e a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Ceará (UFC) — recebe apoio da Prefeitura Municipal de Fortaleza, que tem convênio de financiamento e apoio técnico para os serviços prestados — por exemplo, o pagamento do salário dos massoterapeutas. O apoio foi decisivo para a reforma dos equipamentos já existentes e para a construção de uma unidade básica de Saúde da Família, que funciona em dois turnos e é monitorada por equipe que reúne médico, enfermeira, auxiliar de enfermagem, agente comunitário de saúde, dentista e auxiliar de consultório dentário.

O atendimento do posto de saúde chega aos domicílios cadastrados no entorno — cerca de 1.000 residências, segundo a Secretaria Municipal de Saúde — e presta serviços de imunização, aerossolterapia (terapia por nebulização) e prevenção de câncer do colo do útero. Adalberto destaca a parceria entre as duas instâncias: as pessoas tanto são encaminhadas da unidade de saúde às terapias complementares, como podem ser orientadas nos serviços comunitários a procurar apoio de especialistas, quando necessário.

Além da unidade de saúde, o complexo 4 Varas conta hoje com a oca de saúde comunitária, para as massagens, os banhos e as rezas, a tenda das sessões de terapia comunitária e de resgate da auto-estima, a farmácia viva — onde são cultivadas ervas medicinais, cuja venda auxilia na autonomia financeira do projeto —, o ateliê de arte-terapia e a casa de acolhimento, onde se hospedam pesquisadores visitantes e são recebidas as pessoas que necessitam de repouso.
Também fazem parte da estrutura física local a Casa da Memória — que dispõe de acervo de fotos, áudio e vídeos sobre a história da terapia comunitária, do projeto e da comunidade —, uma escola que atende cerca de 100 crianças carentes da favela e o grupo de teatro Zé e Maria, que reúne 30 jovens da comunidade.

Parece um oásis, encravado numa das comunidades mais violentas da capital cearense, cercado de coqueiros e outras árvores frutíferas, salpicado de verde nos canteiros com ervas medicinais e nos jardins que emolduram os prédios. As construções utilizam materiais locais, como a madeira e a palha da carnaúba, que se harmonizam com as redes sempre armadas e os móbiles feitos de concha, que balançam ao sabor do vento. A ambientação, baseada em elementos locais, cumpre a função de deixar à vontade quem ali procura tratamento: “É um espaço para acolher o sofrimento, a dor da alma”, abrevia Adalberto.

VÍNCULOS INQUEBRÁVEIS

Outros elementos também simbolizam a participação da comunidade. A estátua de um índio segurando as quatro varas que batizaram o projeto lembra que a união faz a força: enquanto as varas estiverem juntas, fortes serão; separadas, se tornam fracas e podem se quebrar. Outra referência simbólica é a teia de aranha pintada no chão da tenda onde acontecem as sessões terapêuticas: seus fios representam a fortaleza dos vínculos desenvolvidos pela comunidade naquele espaço — com a terra, com as tradições, com o conhecimento científico e entre eles mesmos.

Na visão do terapeuta, a estratégia deste ambiente familiar é mais uma diferença entre o 4 Varas e os serviços que, mesmo na melhor das intenções, acabam “medicalizando o sofrimento”. “Observamos que a maior parte das pessoas que vai aos postos de saúde quer ser acolhida e desabafar”. Ele sintetiza a proposta com um questionamento: “Uma mãe ansiosa e desesperada porque o filho entrou no mundo das drogas precisa de psicotrópico para dormir ou ser acolhida?” Ele mesmo responde: “Ela pode melhorar com uma massagem, onde possa chorar, falar, ser acolhida e compreender”. Ao mesmo tempo, Adalberto deixa claro que o trabalho não desconsidera nem desvaloriza a medicina tradicional: “O que queremos fazer aqui é medicina popular em complemento à medicina científica”, afirma. “Não estamos em competição, não brigamos pela patologia”.

Nessa via de mão dupla entre o saber científico e o popular, quem sai ganhando é a comunidade, que conquista melhor qualidade de vida e alça novos vôos. Em janeiro de 2008, um grupo de 11 pessoas acompanhou Adalberto e o secretário de Saúde de Fortaleza, Odorico Monteiro, em viagem à cidade de Grenoble, na França. Convidada pela prefeitura local, a comitiva apresentou, durante 15 dias, a experiência inovadora do Projeto 4 Varas a pesquisadores europeus. Entre eles, dona Zilma, testemunha viva de que acolhimento e escuta transformam doidos de pedra em gente que distribui acolhimento e apoio.

Fotos: Adriano De Lavor

Fonte: Revista Radis, n. 67, março de 2008