Um jovem nos interpela, desde as entranhas do nosso ser social

Revisitando os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, de Karl Marx

Também neste ano de 2018, coincidindo com as comemorações dos 200 anos do natalício de Karl Marx, este continua a despertar fortes interesses, por toda parte, de um lado,  provoca  incessantes frustrações às vãs expectativas dos que se têm empenhado em seu definitivo silenciamento (quantas vezes Marx já foi sepultado! Que defunto teimoso!), por outro lado, também não cessam as vozes daquelas e daqueles que o reconhecem atual, fecundo, vivente, razão por que se põem a revisitá-lo, buscando atualizá-lo, diante de aspectos e fatos novos e desafios da contemporaneidade. E, ao revisitá-lo, perguntam-se:

– O que levaria alguém de classe média, a aceitar viver na penúria quase ao longo de sua vida com graves repercussões sobre a própria família (3 de seus filhos morreram, na penúria), por assumir tão radicalmente por décadas a fio, o compromisso de ajudar a desvendar as profundas raízes socioeconômicas e culturais em que vive mergulhada a humanidade, sobre o peso do modo de produção capitalista?

– O que levaria a alguém a manter-se fiel ao projeto de investigação das raízes perversas deste sistema, ocupando-se, por toda vida, em pesquisar suas causas, enfrentando toda sorte de adversidades (perseguições, sucessivos exílios, tratado como apátrida)?

– Têm ou não fundamento máximas de sua escolha, tais como: “Nihil humani a me alienum puto” – “Nada do que é humano me é estranho”; “De omnibus dubitandum” – “Devemos duvidar de tudo”?

– O que move alguém, ao longo do seu labor investigativo, a manter-se contínuo observador e leitor assíduo de uma infinidade de autores, clássicos e contemporâneos, de todas as correntes de pensamento, e referências dos mais diversos campos de saberes, do que é prova a imensa lista de notas que produziu, enquanto redigia milhares de páginas ao longo de sua vida?

– E o quê dizer de sua vasta obra, parte da qual ainda nem veio a público e que tantos insistem em condenar, sem sequer tê-la lido?

Aqui destacamos apenas uma dessas obras, produzida em sua juventude: “Os Manuscritos Econômico- Filosóficos de 1844”. Intrigante é percebermos que tal obra só tenha vindo à público, em 1932, graças ao trabalho de uma equipe de pesquisadores de alto nível intelectual, da qual fazia parte G. Lukács. Fato que se dá não apenas em relação a esta obra.  Há, com efeito, escritos vários da lavra de Marx ainda por virem a público. Digno de reconhecimento, a este respeito, tem sido o empenho hercúleo de uma equipe de pesquisadores, em publicar a íntegra das obras de Marx e Engels, iniciativa conhecida pela sigla MEGA (“Marx unt Engels Gesamtausgabe” – Edição Completa de Marx e Engels, cf. https://www.youtube.com/watch?v=d1SngcUKD8M).

A propósito especificamente de seu empenho em exercitar ampla interlocução com autores de vários tempos e lugares, e de distintas correntes de pensamento, convém sublinhar o vasto espectro de clássicos e contemporâneos, lidos e anotados por Marx. Seu interesse de observador perspicaz, vai dos antigos filósofos gregos – não é à-toa sua escolha temática de Demócrito e Epicuro como referências de sua tese doutoral – , passando por poetas latinos (uma de suas máximas preferidas ele extrai de Terêncio), por figuras paradigmáticas, como Shakespeare (ver, por exemplo, como aparece nos “Manuscritos”, emblemática citação sobre o dinheiro, presente na tragédia Shakespeariana “Timão de Atenas”), por figuras exponenciais da literatura francesa, até à sua atitude de decompor com rigor científico obras de clássicos da economia, tais como Adam Smith, David Ricardo, Jean Baptiste Say.

Impactante, contudo, foi e tem sido polêmica a recepção dos “Manuscritos de 1844”, em várias partes do mundo, de um lado alguns de seus críticos, à exemplo de Louis Althusser, (cf. “Pour Marx”) avaliando-o como um escrito sem muito a contribuir com o legado marxiano; outros, por outro lado – e não são poucos – a saudarem com entusiasmo a densa contribuição do Jovem Marx. Entre estes últimos, podem ser destacadas figuras tais como: Henri Lefebvre (segundo Amdré Tosel “ele foi um dos primeiros a dar importância aos Manuscritos de 1844, a sublinhar a função central da práxis, e a da teoria da alienação”), Jean Paul Sartre (confira “Siuations”- materialisme et revolution) Marcuse (cf. “Los manuscritos econômicos-filosoficos de Marx: nuevas fonte para la interpretacion de los fundamentos del materialismo histórico”), Michael Lowy (cf.“ A teoria da revolução no jovem Marx”, focando o conjunto da produção do jovem Marx), István Mészáros, (cf. ‘A educação em Mészáros: trabalho, alienação e emancipação, Erich Fromm (cf. “O conceito marxista de homem”), Perry Anderson (cf. “Considerações sobre o marxismo ocidental”), entre outros.

Uma leitura mais cuidadosa dos manuscritos econômicos filosóficos de 1844, de autoria de Karl Marx, permite vislumbrar a genialidade do autor, já aos seus 26 anos. Os conceitos aí desenvolvidos constituem um atestado do equívoco reiteradamente cometido, de se pretender estabelecer um muro intransponível entre o jovem Marx e o Marx maduro. Uma leitura igualmente atenta das obras mais tardias de Marx, inclusive “O Capital”, também permite conferir uma linha de continuidade (ainda que comportando alguma descontinuidade pontual) entre o mesmo autor dos “Manuscritos” e suas obras mais tardias. Certa vez, questionado acerca da continuidade ou descontinuidade de sua obra, o próprio Marx expressa uma autoavaliação de sua obra, assumindo-a como um “Tout artistique”, isto é, assim como não faz sentido examinar uma obra de arte aos pedaços decompondo-a em partes estanques e desconexas, também não faz sentido não se reconhecer o caráter conectivo de sua obra. Nesse sentido, ajuda-nos a entender tal linha de continuidade, mais do que uma aposta em meros resultados uma atenção acurada ao processo de pesquisa a que Marx se entregou, durante décadas a fio.

Outro aspecto impactante com que saímos da leitura dos manuscritos, é a verificação de sua forte atualidade, pelo menos em relação a conceitos-chave ali desenvolvidos. O objetivo destas linhas é ressaltar nos manuscritos marxianos de 1844, vários traços de intrigante continuidade e vigência, no atual cenário capitalista, de crescente globalização. Para tanto, cuidamos de destacar várias passagens que julgamos mais significativas e portadoras de atualidade, confrontando diversas passagens dos “Manuscritos” com elementos conjunturais e estruturais do momento atual.  Da vasta gama de conceitos tratados por Marx, nos Manuscritos de 1844, elegemos focar apenas quatro: “Trabalho”, “Alienação”, “Ser Social” e “Dinheiro.

No modo de produção capitalista, para o trabalhador, o que significa o trabalho?  

No espectro da obra geral de Marx, convém ter sempre presente, antes de tudo, a centralidade do conceito “Trabalho”. E, antes mesmo de nela assumir uma conotação negativa, cumpre destacar sua profunda positividade. Em Marx, o trabalho corresponde à marca principal do Ser humano, à medida que por esta atividade, ele próprio vai se fazendo, vai auto-organizando-se, seja enquanto individuo seja como partícipe do gênero humano. Trata-se aqui de um contínuo exercício de “auto-poiêsis”. No caso dos “Manuscritos” e demais obras, Marx restringe-se analisar o “Trabalho”, tal como exercido no modo de produção capitalista.

Em se tratando, no caso, de relações sociais no horizonte de uma sociedade de classes, e mais precisamente, numa sociabilidade capitalista, bem diversas passam a ser as características do Trabalho, como teremos oportunidade de sublinhar, a partir do próprio texto dos “Manuscritos”. Comecemos por uma longa, mas bem eloquente citação:

“A economia Política oculta a alienação na natureza do trabalho por não examinar a relação direta entre o trabalhador (trabalho) e a produção. Por certo, o trabalho humano produz maravilhas para os ricos, mas produz privação para o trabalhador. Ele produz palácios, porém choupanas é o que toca ao trabalhador. Ele produz beleza, porém para o trabalhador só fealdade. Ele substitui o trabalho humano por maquinas, mas atira alguns dos trabalhadores a um gênero bárbaro de trabalho e converte outros em máquinas. Ele produz inteligência, porém também estupidez e cretinice para os trabalhadores. (…) O que constitui a alienação do trabalho? Primeiramente, ser o trabalho externo ao trabalhador, não fazer parte de sua natureza, e por conseguinte, ele não se realizar em seu trabalho mas negar a si mesmo, ter um sentimento de sofrimento em vez de bem-estar, não desenvolver livremente suas energias mentais e físicas mas ficar fisicamente exausto e mentalmente deprimido. O trabalhador, portanto, só se sente à vontade em seu tempo de folga, enquanto no trabalho se sente contrafeito. Seu trabalho não é voluntário, porém imposto, é trabalho forçado. Ele não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades. Seu caráter alienado é claramente atestado pelo fato, de logo que não haja compulsão física ou outra qualquer, ser evitado como uma praga. O trabalho exteriorizado, trabalho em que o homem se aliena a si mesmo, é um trabalho de sacrifício próprio, de mortificação. Por fim, o caráter exteriorizado do trabalho para o trabalhador é demonstrado por não ser o trabalho dele mesmo mas trabalho para outrem, por no trabalho ele não se pertencer a si mesmo mas sim a outra pessoa.” (…)

“Chegamos à conclusão de que o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo em suas funções animais – comer, beber e procriar, ou no máximo também em sua residência e no seu próprio embelezamento – enquanto que em suas funções humanas se reduz a um animal. O animal se torna humano e o humano se torna animal. Comer, beber e procriar são, evidentemente, também funções genuinamente humanas. Mas, consideradas abstratamente, à parte do ambiente de outras atividades humanas, e convertidas em fins definitivos e exclusivos, são funções animais.”

Em toda sociedade de classes – e em grau maior, no modo de produção capitalista – não há horizonte de verdadeira realização do ser humano, na medida em que ele se sente desintegrado do/no seu trabalho. Ele se sente partido, cindido do que produz e da riqueza, fruto do seu trabalho. Sobre o processo de produção não exerce qualquer controle. Passa a ser mera peça na e para a engrenagem do Capital, como bem sugere aquela cena do filme de Chaplin, “Tempos Modernos”, em que o trabalhador se transforma em mero apertador de parafusos…

Concepção de ser social nos “Manuscritos” de 1844

Sempre lembrados de que as categorias aqui priorizadas (“Trabalho”, “Ser social”, “Alienação”, “Dinheiro”) e outras tantas, no conjunto da obra de Marx, devem ser compreendidas em sua dinâmica interconexão, aqui destacamos, com um propósito didático, seu enfoque específico sobre a natureza social do ser humano. E me permito citar mais um trecho dos “Manuscritos”:

“Ainda quando realizo trabalho cientifico, etc., uma atividade que raramente posso conduzir em associação direta com outros homens, efetuo um ato social, por ser humano. Não é só o material de minha atividade – como a própria língua que o pensador utiliza – que me é dado como um produto social. Minha própria existência é uma atividade social. Por essa razão, o que eu próprio produzo, o faço para a sociedade, e com a consciência de agir como um ser social. ”

Com efeito, o trabalho, ainda quando realizado individualmente comporta uma dimensão coletiva, inclusive de caráter societal. Por esta razão a cisão imposta pelo modo de produção capitalista entre o trabalhador e o seu produto, implica necessariamente uma experiência de alienação. Por vezes, tal experiência se expressa de modo tão profundo, que o próprio trabalhador acaba “naturalizando” esta cisão como se observa, por exemplo, no conhecido poema de Baudelaire, “le spleen de Paris”, em que o autor descreve o comportamento de seres humanos que marcham, sob o peso de um monstro agarrado ao seu pescoço e oprimindo seu tórax, sem que o oprimido esboce reação, tal é o grau de introjeção que ele acaba naturalizando, e, perguntado para onde marcham, responde apenas “para um lugar qualquer”. Tal reação nos faz remeter ao conhecido filme “Queimada”, uma de cujas personagens, José Dolores, costumava dizer: “É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir.”

É difícil ler-se passagens como estas, acerca do que Marx pôde observar, em 1844, e não conectá-las, de algum modo, com as condições atuais, de profunda opressão, a que seguem submetidos os trabalhadores e trabalhadoras. Com efeito, continua e se aprofunda o hiato ou fosso entre o trabalhador e sua atividade laboral, em verdade, o que hoje, se vive, por exemplo, no Brasil de Temer, sob sucessivas políticas de desmonte das condições de trabalho, ressoa, de modo clamoroso, o processo de alienação em curso, não apenas no Brasil, mas por todo mundo submetido ao modo de produção capitalista. A este respeito, desponta sugestivo o vídeo intitulado “de la servitude moderne” (cf. https://www.youtube.com/watch?v=VOfPUnCOUGI), bem como vale a pena revisitarmos o denso poema de Vinicius de Moraes intitulado “Operário em Construção”, do qual ressaltamos os seguintes versos: “Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão. Como um pássaro sem asas Ele subia com as casas Que lhe brotavam da mão. Mas tudo desconhecia De sua grande missão: Não sabia, por exemplo Que a casa de um homem é um templo Um templo sem religião Como tampouco sabia Que a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade Era a sua escravidão.”, “De fato, como podia Um operário em construção Compreender por que um tijolo Valia mais do que um pão? Tijolos ele empilhava Com pá, cimento e esquadria Quanto ao pão, ele o comia… Mas fosse comer tijolo! E assim o operário ia Com suor e com cimento Erguendo uma casa aqui Adiante um apartamento Além uma igreja, à frente Um quartel e uma prisão: Prisão de que sofreria Não fosse, eventualmente Um operário em construção.”, “À mesa, ao cortar o pão O operário foi tomado De uma súbita emoção Ao constatar assombrado Que tudo naquela mesa – Garrafa, prato, facão – Era ele quem os fazia Ele, um humilde operário, Um operário em construção. Olhou em torno: gamela Banco, enxerga, caldeirão Vidro, parede, janela Casa, cidade, nação! Tudo, tudo o que existia Era ele quem o fazia Ele, um humilde operário Um operário que sabia Exercer a profissão.”

Vale, ressaltar a força semântica das linguagens artísticas, inclusive da poesia, por meio da criação empreendida por Vinicius de Moraes, em seu poema acima mencionado, podemos entrever, por exemplo, relevantes passos de como se dá a passagem entre as condições de alienação e o processo de “Consciência de Classe”. Tudo começa pela experiência da brutal exploração sofrida pelo trabalhador, vítima do modo de produção capitalista. Toda via, mesmo nesta dolorosa experiência, o trabalhador “cava” um espaço de liberdade ao ousar pensar sobre sua condição e vai descobrindo quantas potencialidades se acham “escondidas” em sua atividade laboral. Passa, então, a rememorar uma gama de produtos que passam pelas suas mãos, e aí se vê como um produtor, ao mesmo tempo em que se revolta ao descobrir que o seu trabalho, ao oprimi-lo é fonte de enriquecimento para o patrão. Vai-se forjando, assim, sua Consciência de Classe, sobretudo quando também descobre que não é um trabalhador isolado, mas que, ao seu lado, há incontáveis outros trabalhadores e trabalhadoras com quem pode contar, na luta contra sua exploração individual e coletiva.

Partindo destas inspirações poéticas, oferecidas por Baudelaire e Vincius de Moraes, sigamos dialogando com o Jovem Marx, buscando conferir coincidências apreciáveis, inclusive no que toca as potencialidades humanas destruídas pela sociabilidade capitalista, a partir mesmo da deformação da capacidade perceptiva dos humanos, à medida que tal sistema alija os sentidos materiais e imateriais. Vejamos isto no seguinte trecho dos “Manuscritos”:

   

“Consideremos, a seguir, o aspecto subjetivo. O sentido musical do homem só é despertado pela música. A mais bela música não tem significado para o ouvido não-musical, não é um objeto para ele, porque meu objeto só pode ser a corroboração de uma de minhas próprias faculdades. Ele só pode existir para mim na medida em que minha faculdade existe por si mesma como capacidade subjetiva, porquanto o significado de um objeto para mim só se estende até onde o sentido se estende (só faz sentido para um sentido adequado). Por essa razão, os sentidos do homem social são diferentes dos do homem não-social. E só por intermédio da riqueza objetivamente desdobrada do ser humano que a riqueza da sensibilidade humana subjetiva (um ouvido musical, um olho sensível à beleza das formas, em suma, sentidos capazes de satisfação humana e que se confirmam como faculdades humanas) é cultivada ou criada. Pois não são apenas os cinco sentidos, mas igualmente os chamados sentidos espirituais, os sentidos práticos (desejar, amar, etc.), em suma, a sensibilidade humana e o caráter humano dos sentidos, que só podem vingar através da existência de seu objeto, através da natureza humanizada. O cultivo dos cinco sentidos é a obra de toda a história anterior. O sentido subserviente às necessidades grosseiras só tem um significado restrito. Para um homem faminto, a forma humana de alimento não existe, mas apenas seu caráter abstrato como alimento. Poderia muito bem existir na mais tosca forma, e é impossível afirmar de que modo essa atividade de alimentar-se diferia da dos animais. O homem necessitado, assoberbado de cuidados, não é capaz de apreciar o mais belo espetáculo. O vendedor de minerais só vê seu valor comercial, não sua beleza ou suas características particulares; ele não possui senso mineralógico. Assim, a objetificação da essência humana tanto teórica quanto praticamente, é necessária para humanizar os sentidos humanos, e também para criar os sentidos humanos correspondentes a toda a riqueza do ser humano e natural. (…)

A resolução das contradições teóricas somente é possível através de meios práticos, somente através da energia prática do homem. Sua resolução não é, de forma alguma, portanto, apenas um problema de conhecimentos, mas um problema real da vida, que a filosofia foi incapaz de solucionar exatamente porque viu nele um problema puramente teórico. (…)

Na sociabilidade capitalista, o quê representa o Dinheiro, na constituição do “Ser social”?

Componente relevante da/na engrenagem capitalista, o dinheiro se manifesta como elemento (de)formador do ser humano, no contexto da sociabilidade capitalista. Nos “Manuscritos”, Marx também recorre a Shakespeare, para ilustrar as perversas potencialidades do dinheiro, nas sociedades de classes. Sabe-se, por outro lado, que bem antes de Shakespeare, tais propriedades do dinheiro foram demonstradas em versos e prosas. Na Idade Média – para não recuarmos mais no tempo, alguns movimentos populares, a exemplo dos Goliardos (cf., por ex., http://textosdealdercalado.blogspot.com/2018/06/movimentos-libertarios-do-segundo.htm ), já se mostravam mordazes em suas críticas aos miraculosos poderes do dinheiro. Em uma de suas poesias, assim se expressavam, a este respeito:

“O dinheiro reina, soberano, sobre a terra/ É admirado por reis e pelos grandes/ A ordem episcopal, venal, lhe rende homenagem/ O dinheiro é o juiz dos grandes concílios/ O dinheiro faz a guerra, e quando quer, obtém a paz/ O dinheiro é que faz os processos, para que sua conclusão dele dependa/ O dinheiro compra e vende tudo, dá e toma de volta o que deu/ (…) Graças ao dinheiro, o idiota se torna incontestável falante/ O dinheiro compra médicos, adquire amigos prestimosos/ (…) torna barato o que é caro, e suave o que é amargo.”

Havia, sim, um sentimento generalizado de protesto contra as injustiças quer das condições de trabalho, quer do significado do dinheiro, entre os trabalhadores e trabalhadoras medievais, como o lembra Le Goff:

“Nós estamos sempre a tecer panos de seda/ E nem por isso seremos melhor vestidas/ (…) Mas, os nossos salários enricam/ Aquele para quem nós trabalhamos.” 

No caso específico dos “Manuscritos”, recorrendo a Shakespeare, Marx assim se expressa:

“Shakespeare ressalta particularmente duas propriedades do dinheiro:

(1) ele é a divindade visível, a transformação de todas as qualidades humanas e naturais em seus antônimos, a confusão e inversão universal das coisas; ele converte a incompatibilidade em fraternidade;

(2) ele é a meretriz universal, o alcoviteiro universal entre homens e nações.

O poder de inverter e confundir todos os atributos humanos e naturais, de levar os incompatíveis a confraternizarem, o poder divino do dinheiro reside em seu caráter como a vida espécie alienada e auto-alienadora do homem. Ele é a força alienada da humanidade.

O que sou incapaz de fazer como homem, e, pois, o que todas as minhas faculdades individuais são incapazes de fazer, me é possibilitado pelo dinheiro. O dinheiro, por conseguinte, transforma cada uma dessas faculdades em algo que ela não é, em seu antônimo.”(…)

E o que propõe o Jovem Marx?

Diante deste quadro dantesco alimentado pela lógica do Capital, o Jovem Marx acena para uma saída, que supõe como alternativa, a construção de uma nova sociedade, ou, em seus próprios termos:

“(3) O comunismo é a abolição positiva da propriedade privada, da auto-alienação humana e, pois, a verdadeira apropriação da natureza humana através do e para o homem. ele é, portanto, o retorno do homem a si mesmo como um ser social, isto é, realmente humano, um regresso completo e consciente que assimila toda a riqueza da evolução precedente. O comunismo como um naturalismo plenamente desenvolvido é humanismo e como humanismo plenamente desenvolvido é naturalismo. É a resolução definitiva do antagonismo entre o homem e a natureza, e entre o homem e seu semelhante. É a verdadeira solução do conflito entre existência e essência, entre objetificação e auto-afirmação, entre liberdade e necessidade, entre indivíduo e espécie. É a resposta ao enigma da História e tem conhecimento disso.”

Eis algumas notas despretensiosas a propósito dos Manuscritos de 1844. Não se trata – bem o sabemos – de engessar os escritos marxianos (nem de ninguém), mas de seguirmos buscando, a partir deles, pistas que nos ajudem a enfrentar melhor os desafios presentes.

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Alder Júlio Ferreira Calado, sociólogo e educador popular.

Seções: Cidadania, Sociologia.