Um dia para celebrar o tráfico

O Brasil foi a nação americana mais acabadamente escravista. Foi uma das primeiras a conhecer a instituição maldita e a última entre todas a aboli-la. Se em inícios do século 19 a escravidão era realidade de apenas parte − ainda que substancial − dos USA, a instituição encobriu com seu triste manto todo o Brasil até suas décadas finais. Não houve região do país intocada pela ordem negreira.

Na Colônia e no Império, o cativo assegurou o essencial do esforço produtivo urbano e rural, produzindo uma miríade de serviços e de produtos de que usufruiu escassamente. Fomos a região das Américas que recebeu o maior número de africanos. Dos nove a quinze milhões de trabalhadores escravizados que chegaram com vida nas Américas, três a cinco teriam desembarcado nas costas do Brasil.

A escravidão não foi página importante da história brasileira − foi a instituição que gerou a antiga formação social luso-americana e determinou a gênese e devir do Brasil independente. Constitui a espinha dorsal e o elemento unificador da nacionalidade brasileira, determinando o passado e influindo poderosamente no nosso presente.

A escravidão não é experiência histórica atinente apenas a grupo especial de nossa população, ainda que os brasileiros com forte afro-ascendência sofram especialmente suas duras seqüelas. Todo o brasileiro descende sociologicamente de escravizadores ou de escravizados, segundo se encontre objetiva ou subjetivamente no campo do trabalho ou do capital.

O chocho registro do transcurso, no domingo, 23 de agosto, do “Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos”, instituído pela UNESCO, materializa o relacionamento paradoxal que mantemos com o passado escravista, em geral, e com o tráfico negreiro, em especial. Sobre este último, são ainda raros os estudos que dimensionem, mesmo aproximativamente, sua magnitude e influência no que se refere ao Brasil.

Nos anos 1560, com o declínio da escravidão dos nativos nas principais capitanias, a escravidão de africanos dominou a exploração do trabalho. Então, um terrível cordão umbilical uniu o Brasil à África, alimentando as classes proprietárias americanas e européias e dessangrando a África Negra, através da expatriação incessante de adultos e jovens, com a colaboração dos segmentos dominantes africanos.

O desembarque incessante de cativos no Brasil, majoritariamente homens, deveu-se às duras condições médias de existência dos cativos. As necessidades da produção escravista mercantil e da submissão dos trabalhadores escravizados impediram que os negreiros concedessem em forma geral e sistêmica o direito dos cativos de viverem relações familiares estáveis, capazes de garantirem a reprodução endógena dos trabalhadores ceifados pela escravidão.

Sequer a interrupção do tráfico transatlântico, em 1850, por pressão do governo inglês, modificou qualitativamente essa realidade. Rei morto, rei posto. O fim daquele comércio intercontinental, na ilegalidade formal desde 1831, deu lugar ao tráfico interprovincial, que deslocou legiões de trabalhadores, em grande parte já nascidos no Brasil, das províncias periféricas para as fazendas cafeicultoras do Centro Sul, fenômeno estudado em dois clássicos da historiografia brasileira − Da senzala à colônia, de Emília Viotti da Costa, e Tumbeiros: o tráfico de escravos para o Brasil, de Robert C. Conrad.

Nesta celebração, a luta gloriosa dos cativos sublevados da ilha açucareira de São Domingos ilumina a memória dos trabalhadores e trabalhadoras ceifados aos milhões no altar da rapacidade mercantil. Em 23 de agosto de 1791, armados de seus instrumentos de trabalho, iniciaram a longa luta pela liberdade que, quinze anos mais tarde, em 1804, fundou o Haiti, primeira nação americana totalmente livre do tráfico e da escravidão. Essa saga é relatada magistralmente por C.L.R. James, em Os jacobinos negros: Toussaint l’Ouverture e a revolução de São Domingos [São Paulo: Boitempo, 2000].

Submetido a seguir ao bloqueio das nações americanas e européias, para que o vírus da revolução anti-escravista não incendiasse as Américas, a população haitiana pagou duramente o desrespeito às classes proprietárias. Tem sido mantida em um martírio sem fim, que tem apenas como último capítulo a atual ocupação militar, que se arrasta há cinco anos, dirigida pelas tropas brasileiras, por pedido do imperialismo estadunidense e francês.

(*) Mário Maestri, 61, historiador, é professor do Curso e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. E-mail: maestri@via-rs.net

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Mário Maestri, 69, é doutor em Ciências Históricas pela UCL, Bélgica, e professor do PPGH da UPF. Tem pesquisado a escravidão colonial brasileira e, atualmente, a história da grande guerra da bacia do rio da Prata [1864-1870]. E-mail: maestri1789@gmail.com

Seções: Brasil, Memória & Consciência, Questão étnica.

Imputar o atraso do Haiti a elementos externos é de uma desonestidade intelectual impressionante.
Se o Haiti é hoje uma nação miserável, é porque seus próprios governantes sempre preocuparam-se mais em encher os próprios bolsos que em atuar em favor do povo (como, aliás, sói acontecer com governantes de países majoritariamente negros; não estou sendo racista, apenas constatando um fato). A ocupação militar do Haiti por forças da ONU deu-se para evitar que os haitianos entrassem em sangrenta guerra civil, não me parecendo que qualquer pessoa – incluindo o autor do texto – considere reprovável a conduta da ONU ao impedir o extermínio de milhões.
Ademais, tão-somente afirmar que a população haitiana “tem sido mantida em um martírio sem fim” pelo opressor estrangeiro como punição por sua rebeldia em 1804 – 13, e não 15, anos após 1791, como a boa matemática ensina – é algo muito grave, que foi apresentado de forma leviana. Quais foram essas opressões? O que se fez contra o Haiti desde então? O autor não sabe, apenas usa essa falácia para criticar todos que não partilham de sua ideologia.
Aliás, confesso que me reputo marxista, pois acho que nenhum outro pensador explicou tão bem as relações econômicas quanto o alemão, e por achar que o sistema por ele criado é o que mais aproxima as pessoas da felicidade.
Contudo, tenho nojo dos atuais “homens de esquerda” do Brasil. São pessoas sem qualquer escrúpulo, que não se importam com os outros, mas apenas em aparecer e com “ter poder”, poder, poder, poder. Não se definam como marxistas para não ofenderem a homens como eu, srs. militantes de PSTUs e PSOLs da vida. Definam-se como aproveitadores oportunistas que nem sabem quem foi Marx e apenas usam seu nome para justificar seus anseios de poder.

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