Um dia na vida de um otário

Chega a cobrança do aluguel: “esqueceram” que as despesas estruturais são do proprietário, desculpe senhor, vamos corrigir o “erro”.

O governo te convida a financiar um lindo apartamento, desde que seja a mais de 100 quilômetros de onde mora a sua família, de modo que essas pessoas detestáveis que precisam de financiamento de pobre fiquem bem longe dos nossos belos lofts na zona nobre, a zona da nobreza.

A empresa de ônibus jura que não vai te cobrar pela viagem que você não fez — e cá estamos no terceiro mês de cobrança indevida.

O plano de saúde adoraria reembolsar a sua consulta, mas faltou um “pequeno detalhe” na fatura e infelizmente caiu apenas metade do valor que deveríamos depositar, desculpe senhor.

O banco, outro desmemoriado, não lembrou que tinha eliminado a taxa anual do cartão e, ops, lá está a cobrar de novo mais de 100 reais pelos nossos excelentes serviços prestados. Como os juros já pagam nossos salários, essa taxa é uma ajudinha pro nosso peru de Natal.

A revista já cobrou sua terceira parcela no cartão e está avaliando quando, e se, vai enviar de fato o produto.

A empresa de entretenimento te agradece a compra antecipada dos ingressos fazendo um desconto para os que compraram de última hora. Para os mais relaxados, mais de 100 reais de brinde.

Para relaxar, que tal um joguinho no Maracanã? Seja bem-vindo e nos ajude, de quebra, a refinanciar as dívidas que ainda estão no Brasil, porque as das Ilhas Marshall não temos notícia.

Vamos relaxar na volta para casa, de ônibus — o coletivo comandado por um cartel cujos lugares reservados a idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo e pessoas com deficiência são ocupados por jovens que escondem no celular a própria vergonha pelo fato de confirmar, na prática, a causa de todos os acontecimentos descritos anteriormente.

Este é apenas mais um dia — um único dia — de um otário que ainda acha que pagar suas contas em dia é um exercício de cidadania, o que todo homem moralmente elevado tem, por fim, a obrigação de fazer.

Um otário que compreende perfeitamente porque o Brasil, a despeito de toda torcida ufanista, continua a merda que é. Compreende, sem dúvida, mas em hipótese alguma vai se acomodar.

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