Trajetória política, atividades sindicais, resistência, articulação e mobilização à ditadura militar

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Depoimento à Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória da Paraíba

No final da década de 50 e início dos anos 60 do século passado, a expressão mais ouvida no cenário político ideológico brasileiro era: Reformas de base.

Reformas de base era um conjunto de propostas do Governo João Goulart para mudanças estruturais em diversos setores econômicos e sociais do país, amplamente apoiado pela população brasileira.

Sob a denominação de Reformas de Base compreendia-se: Reforma bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária ou educacional.

Estava também incluído nesse projeto de mudanças o voto dos analfabetos e dos militares subalternos das forças armadas (sargentos, cabos, marinheiros e soldados).

Essas medidas causariam uma maior participação do Estado na economia, regulando o investimento estrangeiro no país e estatuindo regras para as remessas de lucro para o exterior, além de centrar o foco na Reforma Agrária que permitiria o acesso à terra de milhões de trabalhadores rurais.

O projeto de Reformas coincidia com os anseios da classe média brasileira, da Classe Trabalhadora, do empresariado nacionalista, por isso grande parte do povo brasileiro aderiu ao movimento das Reformas, contudo desagradava profundamente aos grupos conservadores e ao capital americano.

A Classe Trabalhadora tentava se organizar em uma Central, a primeira do Brasil.

Os trabalhadores do campo reivindicavam e estavam conquistando os mesmos direitos dos trabalhadores urbanos.
Essa atmosfera de euforia era trazida pela brisa das experiências de libertação vindas do exterior:

– da Revolução Cubana onde os guerrilheiros da Sierra Maestra comandados por Fidel Castro e Che Guevara derrubaram o ditador Fulgêncio Batista, que fazia de Cuba uma dependência do império americano.

(A propósito cito dois pronunciamentos contraditórios da época, um no editorial do jornal O Globo de 07.06.62 que dizia: “O exemplo de Cuba não pode encorajar a ninguém”, O outro de um bispo nordestino – Antônio Batista Fragoso – a um jornal de Natal: “A coragem da pequena Cuba é um exemplo e um apelo para toda a América Latina”. Vocês não imaginam quanto essa expressão custou a esse bispo.)

– Esses ares libertários vinham do Vietnam do Norte, um pequeno e paupérrimo país da Ásia, que resistia bravamente aos milhares e bem equipados soldados americanos e seus aliados na proporção de 1 vietnamita para 7 aliados;
– Da experiência do socialismo do Leste Europeu que, na época, era modelo e chamamento a todos os trabalhadores do mundo.

Era esse o clima quando ingressei no Banco do Nordeste do Brasil, Agência de Joao Pessoa, em 1958.

Porém, a chamada reação estava muito atenta, investindo e se articulando para fazer frente à crescente organização, especialmente da Classe Trabalhadora Brasileira.

Eu trazia comigo uma formação cristã que fazia entregar-me, sem limites, à luta pela justiça, e muito influenciado pelos comunistas, alguns, colegas de banco, associei-me ao Sindicato dos Bancários, e logo eu era eleito Diretor Secretário desse Sindicato na Paraíba.

A história política brasileira mostrava que os momentos democráticos no Brasil eram interrompidos em curtos espaços de tempo, portanto fazia-se urgente aproveitar a oportunidade tentando despertar na categoria dos bancários a consciência: da luta de classes e da realidade nacional.

Relato as minhas atividades, nesse período, em quatro dimensões:
a) – enquanto funcionário da instituição Banco do Nordeste;
b) – enquanto pertencente à categoria dos Bancários;
c) – como integrante da grande Classe Trabalhadora,
d) – como membro do PCB – Partido Comunista Brasileiro

Ao entrar no BNB havia um descontentamento de todos os funcionários pela enorme diferença para menor, dos salários do Banco do Nordeste em relação ao Banco do Brasil, embora, no capital social de ambas as instituições, o Governo Federal tivesse a mesma participação. Isso gerou um mal estar e motivação de luta. Dediquei-me de corpo e alma a essa causa, sendo eleito Presidente da Comissão de Equiparação na Agência de João Pessoa visitando grande parte das agências do Nordeste, tentando sensibilizar os colegas de Banco a aderirem à luta. No futuro foi conquistada a equiparação de salários, mas naquele momento provocou uma tremenda fúria na Direção do Banco, cuja vingança veio com o golpe empresarial civil militar de 1964.

No Sindicato dos Bancários, em perfeita sintonia com o presidente Luiz Hugo Guimarães, estabelecemos a consciência política como meta prioritária.

Juntamente com a direção, comunistas e outros interessados, criamos uma biblioteca, cujos cerca de 1.000 volumes foram doados pela categoria e constavam de clássicos marxistas, e das histórias de libertação dos povos nos vários continentes.

(Como explicar que as forças armadas, tendo à frente um oficial, destruíssem todo esse patrimônio?).

– Criamos, nos Bancos, as Comissões de Empresa, que tinham como objetivo ajudar aos colegas, nas diversas agências dos Bancos, a conscientizar-se de sua situação de explorados, e somente unidos aos demais colegas e ainda como integrante da Classe Trabalhadora poderiam conquistar seus espaços. Essa prática tornou a mobilização tão forte, que greves, antes quase impensáveis, já contavam com o apoio da grande maioria dos colegas, como foi o exemplo na conquista do 13º salário.

O Sindicato foi ampliado com delegacias em Catolé do Rocha, Souza, Cajazeiras e Guarabira.

A categoria chegou a tal ponto de mobilização e conscientização que os Sindicatos de João Pessoa e de Campina Grande decidiram realizar o primeiro Congresso Estadual dos Bancários, cuja temática tinha muito pouco a ver com os interesses específicos da categoria e muito mais com estudos sobre as Reformas de Base. Foi, com toda certeza, o maior evento de estudos políticos de uma categoria de trabalhadores, até então, na Paraíba.

Nessa altura decidi-me ingressar no PCB – Partido Comunista Brasileiro – o popular Partidão, não que eu tivesse convicções marxistas, não, minha formação era profundamente cristã, tanto que eu tinha um irmão bispo e dois frades religiosos. Era e é minha convicção de que o PCB estava sendo o maior instrumento de denúncia das desigualdades sociais e, ao mesmo tempo, apontava saídas.
Tudo isso estava sendo atentamente vigiado e arrolado nos registros da repressão. Recebíamos avisos e ameaças constantemente. Era comum ver em nossas Assembleias, estranhos e também colegas bancários, fazendo anotações e indagações suspeitas.

Os acontecimentos se afunilavam no endereço de uma decisão. Veio o dia 31 de março de 1964 e foi escancarada toda nossa fragilidade. Nenhuma orientação nacional.

Estávamos numa reunião de rotina no Sindicato, na noite de 31 de março, quando chegou uma pessoa avisando que Boanerges Timóteo de Souza, bancário do Banco Com. e Ind. Da Paraíba (Banco esse da família Ribeiro Coutinho) fora preso num comício em Cruz das Armas. Boanerges foi preso e entregue ao delegado da Polícia Civil Sílvio Neves que o torturou barbaramente, quebrando seu braço, rompendo os pontos de uma recente cirurgia de amígdalas, causando-lhe tantos sofrimentos que atingiu suas faculdades mentais, o que motivou, no futuro, seu afastamento precoce do Banco do Brasil, para o qual tinha sido nomeado.

A propósito, logo nos primeiros dias do golpe fui visitar os companheiros presos no quartel do 15º RI, e lá fui informado do grave estado de saúde de Boanerges. Pediram-me então que eu providenciasse um médico. Não tínhamos dinheiro para pagar. Procurei, imaginando ingenuamente que os médicos cumpririam seu juramento profissional, mesmo sem receber pagamento, o Dr. Antônio Carneiro Arnaud (depois prefeito de João Pessoa). Contei a história, fiz o apelo. Ele foi incisivo: “Só vou me pagando, não vou me arriscar de graça”. Felizmente o companheiro Boanerges escapou.

O Presidente Luiz Hugo homiziou-se temendo o pior.

Alguns bancários, entre eles: Antônio Aragão Filho e eu resolvemos entrincheirar-nos no Sindicato. Doaram-nos um rifle e o aceitamos com a intenção de proteger o nosso único instrumento de divulgação – o mimeógrafo (explicar), e ficamos tentando articular-nos com sindicatos similares e de outras categorias, em vão.

No terceiro dia, após o golpe, recebo a visita de minha irmã – a Assistente Social Maria Madalena Fragoso Ribeiro – esposa de um sargento do exército. Com ar profundamente grave, chama-me a um canto e entrega-me um envelope. Ao abri-lo tive uma das mais agradáveis surpresas; tratava-se de uma declaração assinada, talvez por uns vinte sargentos do exército, propondo-se a resistir ao golpe com armas, contanto que Luiz Hugo Guimarães fosse o comandante. Localizei Luiz Hugo, através de sua esposa: D. Laís Peixoto, porém ao contatar com ele tive a terrível informação: “Não adianta mais nada, o Presidente João Goulart já se exilou no Uruguai”.
Na mesma tarde a polícia invadiu o Sindicato, levou preso o funcionário Fernando, expulsou-nos de lá e lacrou as portas.

Resistir era preciso, era o nosso pensamento. Decidimo-nos procurar a direção de um sindicato muito atuante – o dos funcionários da Rede Ferroviária do Nordeste –, porém quando lá chegamos à procura do Presidente Aloísio, a Estação Ferroviária estava completamente ocupada por soldados do Exército comandados pelo Coronel Plínio Pitaluga.

Resistir era preciso, mas através de outros meios e, enquanto nos articulávamos, aguardaríamos em casa os acontecimentos.

Aragão foi preso e ambos fomos demitidos do Banco do Nordeste.

Tempos difíceis, fui trabalhar numa micro papelaria, de cujos trabalhos fazia parte a lavagem de banheiro, limpeza do chão e entrega de mercadorias, mas resistir era preciso.

O Delegado do Ministério do Trabalho Elpídio Cavalcante de Oliveira, “pau mandado” da ditadura, decretou a intervenção no Sindicato dos Bancários, aliás, o primeiro na Paraíba a sofrer intervenção, alegando abandono das funções. Como se a própria polícia fechou aquela instituição?

Foi nomeado interventor no Sindicato o funcionário do Banco do Brasil – Geraldo Teixeira de Carvalho – depois Presidente do Tribunal Regional do Trabalho. Não há sinais de que Geraldo tenha se mantido, pelo menos neutro. Geraldo tinha um irmão que era chefe de escritório das usinas São João e Santa Helena, de Renato Ribeiro Coutinho, latifundiário que, além de acusado de assassinatos de camponeses era de absoluta confiança e prestígio nas Forças Armadas.
Pelos menos se sabe que o interventor permitia livremente a entrada do auditor do Banco do Nordeste, a quem foram dadas abundantes informações que redundaram na demissão de vários funcionários.

Após três anos, por mediação de companheiros do Partido, voltei a um banco privado e ao Sindicato, desta vez eleito vice-presidente, mas logo fui conduzido à Presidência por renúncia do Presidente Orlando Cavalcanti Gomes nomeado Diretor Financeiro da UFPB.
Portanto eu fui o primeiro Presidente do Sindicato dos Bancários da Paraíba, vindo de banco particular, já que eu era funcionário do Banco Real do Norte S/A.

Aqui cabe uma observação: Fui informado por este Sindicato que toda documentação, até o ano de 1997 foi completamente destruída, ficando uma das mais valorosas categorias de trabalhadores da Paraíba sem poder recompor sua história de 1933 a 1997.

Eu tinha absoluta certeza de que era questão de tempo meu afastamento daquela instituição e por isso procurei avançar rápido.

Ajudado pelo PCB concluímos que o setor social mais atuante junto à população, naquele momento, era o estudantil. Por conta disso as portas do Sindicato foram abertas para estudantes de todos os partidos políticos, inclusive com acesso ao mimeógrafo, o que me custou grandes dores de cabeça junto à Polícia Federal.

Essa prática deu grande visibilidade ao Sindicato, de modo que na campanha salarial fomos, junto ao Sindicato dos Bancários de Minas Gerais, os únicos no Brasil a conseguir os 14º e 15º salários, infelizmente não mantidos depois.

Como acabava de ser decretada a unificação da previdência, ou seja, criado o INPS, com grandes desvantagens para os bancários que tinham seu próprio instituto de aposentadoria e previdência – o IAPB -, o Sindicato comprou, na minha gestão, uma casa na Rua 13 de Maio – instalando o Ambulatório dos Bancários.

A ditadura civil-empresarial-militar procurava eliminar as vantagens conquistadas pela classe trabalhadora, primeiramente unificando os institutos de aposentadoria e previdência e criando o INPS, abrindo assim o caminho para a privatização da saúde, possibilitando, no futuro, a criação dos planos de saúde, sendo um dos primeiros, o Golden Cross, multinacional americana. Depois e bem próximo extinguiu a estabilidade no emprego aos 10 anos na mesma empresa, uma das mais duras conquistas da Classe Trabalhadora, criando o FGTS – Fundo de Garantia do Tempo de Serviço.

É claro que o Sindicato dos Bancários se opunha ostensivamente a essas medidas e isso desgostava os militares, e por isso fui bastante interrogado durante a prisão, pelo próprio comandante do 15º RI – Cel. Rodin de Holanda Sá.

A pressão popular não estava mais sendo contida pelos meios tradicionais, as manifestações se generalizavam em todo país, culminando com a passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro, tendo a Junta Militar decretado o famigerado Ato Institucional nº 5, em 13.12.1968, a medida mais repressiva e mais ditatorial tomada pela ditadura. Consultei o PCB e entendemos que competiria um pronunciamento e a mim coube essa tarefa, como dirigente sindical. Fiz um manifesto aos bancários, que lerei no final, o qual foi publicado no jornal do Sindicato. Fui preso pela Polícia Federal e Exército por 23 dias, respondi IPM na auditoria militar, fui destituído da presidência do Sindicato e banido da vida sindical.
A título de informação, menciono que fui preso por mais duas vezes: uma juntamente com meu pai e minha irmã, tendo um major do Grupamento de Engenharia, o Major Fernandes, exigido uma declaração nossa de que a Polícia Federal estava extorquindo dinheiro nosso. Embora fosse verdade, assinar era também assinar a sentença de morte.

A terceira prisão ocorreu por ocasião da expropriação feita pelo PCBR (se não me engano) à Cia. De Cigarros Souza Cruz. Os organizadores e executores planejaram e programaram essa ação na minha casa, já que um dos membros era muito amigo e frequentava constantemente o apartamento onde eu morava. Segundo informações compareceram a essa reunião: Heraldo Fernandes dos Santos, Eduardo (Ferreira) Batata, Rômulo Araújo, Erick Rosas e outros, todos pertencente a um partido completamente divergente do meu.

O Presidente do Sindicato Luiz Hugo Guimarães, um pouco antes do golpe, havia sido eleito o primeiro Presidente do CGT – Comando Geral dos Trabalhadores – secção da Paraíba. Aproveitei essa oportunidade para participar ativamente da articulação de várias categorias de trabalhadores, inclusive os do campo, convicto de que na união das massas trabalhadoras estava a chave para as mudanças tão almejadas.
Lamentavelmente o tempo foi insuficiente para conseguirmos uma articulação mais estruturada com outras categorias.

Como já disse, minha pertença ao Partido Comunista deu-se muito mais por uma opção estratégica do que por convicções marxistas, contudo nunca poderei ocultar os benefícios que o partido e companheiros me trouxeram. Cito apenas três que se identificam com os valores do Evangelho: A solidariedade, a fraternidade e a disciplina.
Conheci companheiros que entregaram suas vidas à causa operária, e desses companheiros um, quando morreu, não tinha sequer como comprar o caixão. Fomos nós que o compramos.

Sinto um apelo para citar três desses companheiros:

Manoel Alves Pereira: Um dos maiores articuladores que conheci. Visitava todos os companheiros e procurava manter elevado os seus ânimos. De pouca cultura, mas de profunda convicção ideológica. Preso, foi tão barbaramente emasculado que ficou prejudicado das faculdades mentais. Mas a matiz mais forte cai sobre o seu lado humano. A preocupação com o ânimo dos companheiros estava, talvez, acima do Partido.

Antônio Aragão Filho: Parecia revestido de coração de tão humano. Foi ele quem primeiro me deu a orientação cristã de estar sempre atento para servir, visitasse os doentes, ajudasse a todos os que precisassem.

Como todo o Partido, ele era proselitista, mas de uma maneira profundamente criativa: tomava um jogo de xadrez e saia pelo bairro de Jaguaribe ensinando a manejar as peças, mas dando uma ideia da luta de classes, identificando as peças umas com os patrões, outras com os operários.

Foi preso nove vezes, demitido do BNB, e ficou anos sem poder assumir qualquer emprego, a não ser informalmente.

Ao ser afastado do Banco, Aragão possuía um automóvel Gordini (ganho em um bingo) e o colocou na praça, expressão usada na época, hoje conhecida por taxista. A profissão de taxista era então considerada como de segunda categoria, e o pior, Aragão era profundamente humilhado por pessoas que discordavam de sua ideologia e tomavam o seu taxi.

Certa noite, já bem avançada, ouvi uma pessoa chamando-me, era Aragão que estava foragido, que foi me dizendo: “Fragoso, ainda não comi hoje”. Melânia minha esposa, preparou-lhe uma refeição e depois o levei para outro esconderijo.

Uma das suas nove prisões foi muito injusta, pois a causa era totalmente contrária à lei da física. Durante um desfile militar, Aragão dirigindo o seu taxi na lateral do Cassino da Lagoa, teria colocado todo o copo fora do carro e gritado qualquer coisa com os militares. Indignado procurei o Major Afonso Toledo Navarro, casado com minha querida amiga Lourdes Trigueiro do Vale e irmão de Lúcia Braga muito amiga de minha esposa, e apelei por Aragão. O Major Navarro, procurou informações e me veio com a recomendação: “Não se envolva nisso, pois o caso dele é muito complicado”. Continuei assistindo Aragão.

Antônio Augusto de Almeida: Está aqui presente?

É um belo exemplo de solidariedade. Nesse mister ele se especializou.
Quando o companheiro Manoel Alves, de tão torturado ficou prejudicado mentalmente, Antônio Augusto o trouxe para sua casa com familiares e, ainda, custeou todo o seu tratamento psiquiátrico.
Logo após o golpe militar, muitos companheiros perderam o emprego. Antônio Augusto e sua esposa, a grande artista plástica Marlene Almeida, faziam feiras e levavam aos companheiros, isso por sua conta e durante um largo período.

Esses vultos engrandeceram o partido e engrandecem a humanidade.
Rapidamente citarei algumas de minhas atividades no Partido.
Após a imensa frustração com o golpe militar veio a certeza de que era preciso resistir: denunciando, articulando, mobilizando o que restou. Para tanto nos reuníamos com: Zé Fernandes, José de Arimateia, Manoel Alves, José Costa, Maria Amélia e outros, sempre cautelosos quanto à repressão. Várias vezes nos encontramos à noite, na escuridão das matas da falésia do Cabo Branco, mas um desses encontros ficou na minha lembrança: Em 1969, já não encontrávamos um lugar seguro para reunião dada a intensidade da vigilância da repressão. Tive a ideia de fazer nossa reunião no Palácio do Bispo.

Chegamos um a um e encontramos uma sala aberta. Fizemos nosso encontro e quando deixávamos a sala, da sala ao lado saia D. José Maria Pires. Não disse nada, aliás, nunca disse nada. Em visita à minha casa, 45 anos depois, eu lhe pedi perdão pelo risco em que o coloquei. Dom José, sereno, respondeu: “você fez isso porque confiava em mim, porque sabia que eu não iria denunciar vocês”. Grande exemplo.

Outra atividade de denúncia à população marcou minha passagem pelo partido:

Foi no Governo de Pedro Gondim, após o golpe, mas eleito ainda antes. Sabedor de que muitos presos saiam para fazer pistolagem ele nomeou uma comissão de três pessoas, inclusive uma assistente social, e lhes confiou a direção do presídio do Roger, para impedir essas “escapulidas dos pistoleiros”. Ela trabalhava também à noite na tentativa de evitar tais fugas. Numa noite, estando no seu gabinete chega o cabo Chiquinho (assassino de João Pedro Teixeira) e após muitos circunlóquios lhe faz uma confissão: Contou com detalhes como tinha levado Pedro Fazendeiro e Nego Fuba do Quartel do 15 RI para a Usina São João e lá teria colocado os dois na fornalha, de forma que seria inútil procurar os corpos.

Essa assistente social, em face de nossa afinidade sanguínea, me fez a revelação, dizendo que jamais a tornaria público por ética profissional.

Levei o caso ao Partido, e sem identificar a fonte, conseguimos duas mil cópias mimeografadas e distribuímos (Lembro-me de Zé Fernandes e eu) nos vários bairros de João Pessoa, ocasionando um grande busca de todas as forças da repressão para localizar os autores. Em vão.
Termino dizendo resumidamente que meu pai e meus 6 irmãos foram atingidos pela ditadura.

– Meu pai, como já disse, foi preso uma vez em minha companhia e de minha irmã;
– Meu irmão mais velho o Dom Fragoso, foi considerado persona non grata pela Câmara Municipal de Crateús-CE, tendo esta coberto a cidade de luto com o apoio ajuda dos militares do 4º BEC. Foi impedido por 11 anos de se manifestar na rádio daquela cidade. Foi ouvido várias vezes pela Policia Federal e teve todos os seus pertences sequestrados pela PF quando de uma viagem a Paris, inclusive os dólares que levava para viagem.
– Meu irmão Domingos foi destituído da função de Contador do Antigo IAA;
– Meu irmão Estanislau, militar da Aeronáutica, a quem coube comandar a guarda da UNE na noite de 31.3.64, foi preso por 8 meses, sendo 3 meses no navio Princesa Leopoldina e outro tanto na Ilha das Flores. Depois foi expulso, ficando com a responsabilidade de, sem emprego, manter e educar nove filhos no Rio de Janeiro;
– Frei Hugo, religioso franciscano, teve o seu quarto no Convento de Salvador invadido pelas forças armadas e a maior parte dos seus preciosos livros (é historiador) sequestrados;
– Frei Domingos, religioso carmelita, por ter participado de um abaixo assinado em protesto pela morte do estudante Edson Luiz Souto foi indiciado no processo na Auditoria Militar e somente em última instância conseguiu livrar-se;
– Minha irmã Madalena Fragoso, além ser presa juntamente comigo e meu pai foi destituída do cargo de chefia que ocupava na Secretaria de Saúde.

(O depoimento conclui com a leitura do manifesto feito por ocasião do AI 5, portanto escrito há 45 anos atrás, custando-me prisão por 23 dias, destituição da Direção do Sindicato e banimento da vida sindical.)

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