Todo um mundo a refazer! Que tal a partir de nós, com passos moleculares?

De tanto “dar murro em ponta de faca”, acabamos aprendendo vias alternativas de lidar, com relativa eficácia, com os desafios que se nos interpõem, no percurso existencial. Dialogando e aprendendo com a longa experiência humana de caminhada multissecular, compartilhando ensinamentos de nossos bons clássicos – mulheres e homens -, vamos descobrindo veredas alternativas por onde seguir empreendendo nossa caminhada.

Nas linhas que seguem, destaco um desses tantos aprendizados: o de nos dotarmos de instrumentos mais aprimorados de lidar com o sistema de morte – o modo de produção capitalista – que nos rodeia… e que também acaba alojando-se, sob vários aspectos, em nós próprios, sem que nos demos conta objetivamente. Mesmo dizendo combatê-lo, acabamos, não raramente, por ele fascinados, sob tantos aspectos. Destaquemos, de passagem, alguns desses aspectos da múltipla influência que o Capitalismo exerce em nosso dia-a-dia, seja do ponto de vista de sua macropolítica, seja – o que é pior – do ponto de vista de seus valores necrófilos.

Efeitos ilustrativos da necrófila influência macropolítica sobre nosso dia-a-dia…

Tardios e contumazes em nossos hábitos, não levamos a sério os inconfundíveis sinais que o modo de produção, o modo de consumo e o modo de gestão societal capitalista tem sobre nós. Mesmo conscientes – como parte expressiva da esquerda dos anos 60, por exemplo, da orgânica relação entre Mercado capitalista e Estado, nunca fomos suficientemente capazes de romper, NA PRÁTICA, com nossa enganosa aposta em que, desde que entrando em sua engrenagem, saberíamos, não apenas neutralizar, mas revertê-la em proveito das classes populares, convictos de que, acessando suas entranhas, seríamos capazes de controlá-las, em benefício do conjunto dos cidadãos e cidadãs, em especial dos desvalidos…. Ledo engano! Isto não quer dizer que a empreitada não tivesse surtido alguns efeitos positivos. Não nos cansamos de reconhecer um leque de conquistas arrancadas, nos governos que François Houtart chama, com propriedade, de “pós-neoliberais”. Não há negar conquistas em várias políticas sociais. O grande problema desponta, quando minimamente analisamos tais conquistas, comparando-as com as benesses extravagantes concedidas ao grande capital. Ao ousarmos tal comparação, verificamos que as tais conquistas favoráveis às camadas populares mais vulneráveis representam migalhas do bolo orçamentário. E, pior, obtidas por vias ético-políticas claramente reprováveis: desbragado aliancismo com toda sorte de partido e de figuras explicitamente comprometidas com os interesses mais espúrios, inclusive, tendo-os como companheiros de chapa, e recorrendo a estratégias que sempre repudiamos e combatemos abertamente, pela sua perversão ética. Os frutos dessa trágica escolha restam sobejamente conhecidos e amargados…

Refrescando nossa memória dos anos 60 e 70, o quê dizíamos sobre os mesmos descaminhos que acabamos inadvertidamente assumindo? Apoiados em bons clássicos, companheiros de nosso processo formativo – vêm-me à lembrança textos mimeografados que traballhávamos em nossas reuniões de JOC, AP, a poucos dias da decretação do famigerado AI-5 -, tomávamos consciência da natureza do Estado, de sua radical incompatibilidade com os interesses fundamentais de uma sociedade alternativa. E os exemplos eram convincentes, a ponto de nutrirmos uma entranhada desconfiança quanto aos profundos riscos de concentrar o melhor de nossas energias transformadoras nas instâncias estatais. Influenciados cada vez mais pela sedução dos “atalhos eleitoreiros”, fomos progressivamente cedendo terreno, até dedicar o melhor de nossas energias criativas (in)justamente nas instâncias governamentais…

E hoje, meio século depois, com que cenário nos deparamos? Destaquemos apenas alguns de seus aspectos mais relevantes, para fins de ilustração didática. E o fazemos, mediante uma sequência de questionamentos:

= Sem ignorar significativas alterações conjunturais, ao longo desses últimos cinquenta anos, teria o Estado capitalista passado por mudanças profundas, no tocante ao seu lugar relevante (ao lado do Mercado), no modo de produção capitalista, a ponto de desautorizar o essencial de seu papel, tal qual avaliado, nos anos 60?

= Neste transcurso de meio século, que políticas governamentais relevantes foram implementadas, não apenas sem o aval do Mercado, mas sobretudo contra seus interesses de classe?

= No tocante a ganhos obtidos para expressivas parcelas das camadas populares, tratou-se de conquistas efetivas, obtidas graças às lutas dos movimentos populares e das organizações de base de nossa sociedade, ou, antes, a estratégias de enormes concessões ao grande capital, especialmente ao seu segmento mais socialmente parasitário?

= Tomemos alguns casos concretos, relativos às políticas estatais consideradas socialmente mais representativas dos interesses e prioridades das classes populares, o que concretamente se passou?

= Por exemplo, na área da saúde, a despeito de órgãos estatais específicos, quem de fato concebe, impõe que o Estado implemente, e, além disto, acaba controlando? As grandes corporações transnacionais operando nas mais diversas áreas da saúde!

= Tendo presente o interesse que move os negócios no campo da saúde, o que daí se pode esperar, em termos de efetivo cuidado da saúde popular?

= Entre auferir abusivas margens de lucro e beneficiar a saúde pública, há alguma dúvida sobre a escolha feita pelas grandes transnacionais atuando na área da saúde?

= Em última instância ao lado de quem – do grande capital ou da saúde popular – se coloca o Estado a serviço, por meio de suas instâncias competentes?

= Por que razão as terapias naturalista, quando não rejeitadas sumariamente, enfrentam tanta resistência, seja por parte do Mercado, seja por parte do Estado, para serem exercitadas?

= Fundamentalmente, de que cuidam os serviços de saúde sobre o controle do Mercado e do Estado: da saúde ou de doenças?

As perguntas poderíamos multiplicar à saciedade…

Acrescentemos mais um exemplo ilustrativo, o da Educação.Também aqui, vale a pena perguntar:

= Será um acaso a crescente atuação das grandes corporações transnacionais no sistema de ensino, especialmente do Ensino Superior?

= Da Educação Infantil à Pós-Graduação, sob crescente influência do Mercado Capitalista, o que cabe ao Estado, senão controlar o sistema educativo na perspectiva do sistema imperante?

= Quem, senão as forças sociais grávidas de alternatividade, é capaz de assegurar um processo formativo contínuo, em busca de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal?

Efeitos ilustrativos da necrófila influência nos micro-espaços do nosso dia-a-dia

Nunca antes como nos tempos atuais, um modo de produção alcançou tal nível de globalização como o Capitalismo. Isto, é claro, tem consequências profundas, a começar pela inédita extensão de sua ação material e imaterial. Há que se entendê-lo como uma totalidade, a envolver todas as esferas da realidade, em escala global, ainda que de modo diferenciado, conforme a aplicação de sua dinâmica em distintas regiões. Nesse sentido, não basta reconhecer apenas a complexidade e a extensão de o alcance macropolítico de sua economia, mas igualmente – e talvez ainda com mais intensidade – de sua ação imaterial, de sua grade de valores. Em se tratando de um sistema complexo, sua própria base material se consolida, graças à sua capacidade de criar toda sorte de necessidades, inclusive e sobretudo as que se destinam a satisfazer o mundo dos sonhos e fantasias, mola-mestra do império do consumismo. Neste terreno, defrontamo-nos, mais do que com um modo de produção, deparamo-nos com um sofisticado modo de consumo, complementado por um modo de gestão societal. É no domínio do consumo, que inserimos nossas mais fortes inquietações com relação à gigantesca influência que este sistema exerce, não apenas sobre os setores menos conscientes da sociedade: também sobre amplas parcelas de nossas organizações de base. E isto é fatal para nossas pretensões de construção de condições indutoras de uma nova sociedade, alternativa à barbárie capitalista. A seguir, compartilhamos, em forma de questionamento, algumas de nossas inquietações.

Em torno da força e o fascínio da grade de valores capitalistas sobre nossas subjetividades

= A relacionalidade (o gostoso hábito da convivência fraterna, cf. por ex., o expresso no Sl 133) constitui a mais fecunda via de lidarmos com nossa condição humana de seres limitados, inacabados, inclusive no que se refere à avidez de poder, individualismo, imposição de decisões e práticas correlatas. Cercados de inúmeros apelos cotidianos, pela mídia, pela propaganda, pelas redes sociais, etc., de consumismo, das sedutoras chamadas de idolatria do ter, do poder, do prestígio… até que ponto nos damos conta do quanto ingerimos, incorporamos e reproduzimos desses valores, objetivamente?

= Eu/nós criticamos, com razão, os hábitos alimentares hegemônicos. Mas, de quê mesmo nos alimentamos, no dia-a-dia?

= Combatemos, com veemência – e isto é praxe em tantos ambientes: laborais, acadêmicos, sindicais, populares, eclesiais… – as atitudes antidemocráticas (decisões de cúpula, apropriação/privatização de bens e espaços públicos, continuísmo à frente de cargos e funções, etc. -, mas, será que eu/nós mesmos damos testemunho convincente disto? Reconhecemos constituir sério desafio, mesmo para quem se empenha em combater o Capitalismo, eximir-se dos graves riscos de sucumbir aos seus apelos sedutores.

= A tendência a naturalização da introjeção de valores necrófilos, no chão do dia-a-dia constitui um fato frequente. Quantas vezes, não nos sentimos tentados, diante de tantos contra testemunhos, a “jogar a toalha”, a deixar para lá, acomodamo-nos – ou, o que é pior: naturalizamos – a situação em voga?

É possível resistir e contrapor a esta onda necrófila ações moleculares alternativas?

Consola-nos, porém, saber que há quem não se deixe sucumbir a tal naturalização. Há quem se indigne diante da normose coletiva e individual, que nos acovarda e imobiliza frente à crescente tendência à burocratização da vida. Nas “correntezas subterrâneas”, respiramos ares alternativos, que nos encorajam a romper a síndrome da normose que ameaça imperar até em pessoas e grupos de relativa consciência social. Há, sim, pessoas e grupos que, a despeito, de suas limitações, buscam uma convivência alternativa, no que está ao seu alcance, investindo num projeto de vida em plenitude, isto é, com Liberdade. Todos somos chamados à Liberdade, mas constatamos, com tristeza, que há quem resista a este chamado. Em certo sentido, aqui e ali, todos podemos experimentar tal inclinação, mas a ela podemos resistir, a partir de passos moleculares, na busca da Liberdade. Em boa medida, isto depende de nós. Qual será nossa escolha?

João Pessoa, 21 de novembro de 2017.

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