Toda crise tem sua inquisição

Foto: maishistoria.com.br

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Os ataques às minorias que parecem crescer não são propriamente uma novidade. Ao longo das crises dos séculos XVI e XV, por exemplo, o processo de perda de poder do senhorio feudal para a nascente burguesia foi caracterizado pelo aumento, em muitos casos, da perseguição a “leprosos”, judeus e às “mulheres solitárias”. Por vezes, a explosão de violência contra os marginalizados tinha o apoio das autoridades.

Um inquisidor francês em 1321, por exemplo, reprimiu um suposto “plano dos leprosos” contra as pessoas saudáveis do reino da França, conjecturando que ao infectarem os rios, tornariam o número de adoentados cada vez maior, aumentando suas chances de se tornar senhores de cidades e castelos. Os delírios nunca são tão delirantes assim: servem no mínimo a um propósito político previamente consolidado.

O pensamento conservador clássico – agora exposto nas modernas redes sociais – comumente identifica uma crise econômica a uma suposta “crise de valores” – isto é, os valores morais conservadores que estariam ameaçados.

Esta relação não tem, evidentemente, qualquer conexão racional, visto que a crise depende sobretudo de fatores políticos e econômicos – influenciados inclusive pelo cenário global, em alguns casos –, passando ao largo portanto do que costumamos chamar de “valores morais”. A análise de diferentes sociedades, incluindo as contemporâneas, mostra a falta de solidez de tal tese conservadora.

Mas este discurso é hábil, por exemplo, em identificar potenciais bodes expiatórios – algo como dizer que os protestos dos estudantes seria uma consequência direta da ausência da disciplina de moral e cívica, instituída pela mais recente ditadura militar, com consequências para a sociedade “ordeira” como um todo.

Ou, muito evidentemente, em identificar nos refugiados e migrantes um dos grandes males da economia, quando na verdade são eles em grande maioria trabalhadores assalariados que geram riquezas e dinamizam a economia dos países tanto de destino quanto de origem, conforme demonstram estudos das Nações Unidas.

A crise recente do capitalismo pode, conforme nos demonstra a História, ser longa e imprevisível. E, entre as diversas perdas, já sabemos de pelo menos uma que precisaremos enfrentar cada vez mais: a da cidadania duramente conquistada durante o século XX.