Testemunho convincente de um homem de palavra: notas sobre a Exortação Apostólica “Cristo vive!”, do Papa Francisco

Em um mundo fascinado pela “pós-verdade”, ressoa forte o testemunho de um jovial ancião de palavra, por meio de um documento, em forma de carta, dirigida aos jovens cristãos. E o que escreve este jovial ancião de oitenta e dois anos, com tal credibilidade que impacta não apenas os jovens? Encanta todos, todas quantos não sucumbem ao fascínio das “fake news” dos nossos tempos.

Mais uma vez, por suas práticas, seus escritos e pronunciamentos, o Bispo de Roma dá testemunho credível ao mundo, a crentes e não-crentes, de seu compromisso evangélico com a verdade, com a justiça, com a paz. Dá testemunho de seu fecundo empenho na construção de um outro mundo possível, necessário, e urgente. Construção na qual os jovens emergem como protagonistas especiais.

Já nos parágrafos 1 e 36, o autor manifesta a força convincente de suas palavras:

CRISTO VIVE: é Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida. Por isso as primeiras palavras, que quero dirigir a cada jovem cristão, são estas: Ele vive e quer-te vivo! (…) devemos ter a coragem de ser diferentes, mostrar outros sonhos que este mundo não oferece, testemunhar a beleza da generosidade, do serviço, da pureza, da fortaleza, do perdão, da fidelidade à própria vocação, da oração, da luta pela justiça e o bem comum, do amor aos pobres, da amizade social. (CV, nn.1e36, http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2019/04/02-04-ExortacaoChristusVivit_PT.pdf)

Eis dois parágrafos que, além de tocarem pelas palavras-chave incisivas que empregam, também são capazes de sintetizar o fundamental do conteúdo de todo o seu escrito, assinalando as linhas-mestras sobre as quais se deterá com enorme sensibilidade, com amorosidade, com rica intuição e, sobretudo, fazendo uso de uma linguagem poética, de imagens preciosas, bem ao gosto de nossos jovens.

E qual foi a motivação desta carta? Como foi anunciado e realizado, aconteceu em Roma, em outubro passado, o Sínodo dos Bispos sobre os Jovens. Sínodo antecedido de relevantes iniciativas de preparação, em que os próprios jovens tiveram reconhecida participação, enviando aos organizadores do Sínodo relatórios elaborados por eles e elas acerca de um leque de situações e desafios enfrentados.

Alternando trechos de densa reflexão e outros feitos ao modo de uma carta dirigida aos seus interlocutores-alvo, A Exortação Apostólica “Christus vivit” começa por convidar os jovens a um passeio pela Sagrada Escritura, com o propósito de examinar o que diz a Palavra de Deus, fonte de nossa fé. O Papa Francisco empreende um percurso bíblico, pelo Antigo e pelo Novo Testamento, profundamente instigante, à medida que se mostra vivamente feliz nas escolhas das passagens bíblicas, com forte incidência na temática-alvo. O que diz a Palavra de Deus aos jovens? E assim, nos faz saborear passagens e trechos de densa sabedoria, que tocam profundamente o coração e a mente de que se dispõe a fazer tal percurso.

Do Antigo Testamento o Papa Francisco rememora emblemáticos episódios protagonizados por jovens, em distintas situações que indicam os surpreendentes critérios preferidos por Deus, para convocar jovens – mulheres e homens – a assumirem grandes responsabilidades. Personagens tais como José (do Egito), Gedeão, Ruth, Jeremias e tantos outras figuras constituem um atestado do lugar privilegiado que Deus reserva aos jovens: quando anciãos e adultos se arrogavam qualidades exclusivas, Deus vai contrariá-los, ao mostrar sua preferência pelos jovens, de modo a indicar que os caminhos do Reino de Deus, na perspectiva da construção de um mundo novo, alternativo aos interesses de uma gerontocracia, devem ser protagonizados pelos jovens.

Não seria diferente com Jesus de Nazaré! Ele próprio jovem vai cercar-se também de jovens e de mulheres, para anunciar e inaugurar na terra o Reino de Deus e Sua justiça. São, com efeito, numerosos os episódios que o Papa Francisco destaca na Exortação Apostólica “Christus vivit”, nos quais o jovem Jesus e outros tantos se apresentam como figuras centrais, ao testemunharem os valores axiais do Reino de Deus: a prioridade dos pobres, dos últimos, dos desvalidos, das mulheres, dos enfermos, dos presos, dos marginalizados, ao mesmo tempo em que denunciam os malfeitos dos grandes e poderosos daquela sociedade e daquela religião.

A jovem Maria, mãe de Jesus, também se mostra protagonista especial do anúncio e da inauguração do Reino de Deus, à medida que se entrega à defesa e promoção da causa libertadora dos “de baixo”, o que se percebe bem no s “Magnificat”, trecho destacado por Lucas, indicando do lado de quem está o Reino de Deus: “Cumula de bens os famintos, despede os ricos sem nada”; “destrona os poderosos do seu trono e exulta os humildes”…

Eis a Maria do serviço, da solidariedade, da compaixão, dos gestos corajosos, da ousadia, da criatividade…

Nesta mesma esteira, o Bispo de Roma destaca, no mesmo Documento, o protagonismo de muitos santos e santas JOVENS, sempre recorrendo a documentos e textos múltiplos que relatam esses fatos. Na lista de santos e santas jovens, certamente não poderia estar fora a veneranda figura de Francisco de Assis. Sua trajetória amorosa e de radicalidade pela vida dos humanos e de todos os viventes constitui um especial atrativo de horizonte e de caminho para os jovens de hoje.

À medida que a igreja segue esses passos, ela vai testemunhando sua fidelidade à sua vocação; à medida que ela se dispõe a renovar-se, com se dispõem os jovens, vai confirmando sua fidelidade à sua missão.

Como são descritos os jovens de hoje pelo Papa Francisco?

Sempre se servindo de uma linguagem coloquial e direta, inclusive empregando a segunda pessoa do singular, Francisco também cuida de despertar em cada jovem a consciência de suas potencialidades criativas, transformadora. E, como de pai para filho/filha, segue incentivando cada jovem a descobrir sua vocação libertadora, as forças de sua inventividade, capazes de torná-lo/la um agente revolucionário de um novo mundo possível, necessário e urgente, seja na sociedade, seja ao interno da Igreja Católica.

E não o faz, no vazio, em abstrato. Convida cada uma, cada um a aprimorar sua capacidade perceptiva e, animado pela luz e pela força do Espírito do Espírito Santo, que que torna novas todas as coisas, passa a destacar um leque de gigantescos desafios do mundo contemporâneo, dentre os quais:

– as boas e más potencialidades tecnológicas, a depender do uso que delas faz o jovem: tanto podem torná-los robôs e cópias xerográficas de modismos alucinantes e alienantes, como podem constituir-se em preciosas ferramentas que potencializam o ritmo e a qualidade de seu empenho inventivo voltado para a criação de novas relações sociais e humanas, como alternativa às relações de barbárie que prevalecem, em nosso mundo atual;

– convida-os/as a tomarem consciência das desigualdades extremas e suas causas, como ponto de partida para seu exitoso enfrentamento;

– o drama da migração é apontado como um desses grandes desafios da atualidade, em relação aos quais os jovens são chamados a responderem com amizade social e com generosidade;

– os desafios socioambientais aí também pontificam como um ponto fundamental de atuação missionária dos jovens;

– chama a atenção para o cuidado com os pobres, a merecerem um cuidado prioritário, não como suje alvo de dó, mas como parceiros de libertação, como sujeitos e agentes na construção de um outro mundo.

Assim como em outros escritos seus, Francisco, Bispo de Roma, mostra-se tomado de uma profética iracúndia com relação aos malfeitos da própria Igreja Católica: manifesta indignação com relação aos abusos (sexuais e financeiros) cometidos por alguns bispos, sacerdotes e outras agentes eclesiásticos; combate com veemência, a chaga do clericalismo; defende o protagonismo dos jovens também no que toca às mudanças estruturais da Igreja.

Não se detém apenas na indicação de malfeitos. Empenha-se também na proposta de pistas de uma nova Pastoral juvenil, na qual os nada se faça sem a participação dos jovens nas decisões a serem tomadas. Recomenda que, sem prejuízo da pluralidade de ambientes e de tipos de juventude (“Juventudes”), seja da especial atenção a uma Pastoral de Juventude Popular, voltada ao atendimento de uma enorme quantidade de jovens distantes da Igreja, vivendo nas periferias do mundo, das igrejas e das paróquias.

Resulta igualmente impactante, no documento, sua coerência aos valores do evangelho. Do começo ao final, seu pronunciamento aos jovens, além de uma notável intimidade com o texto bíblico, em especial com o evangelho, revela-se de tal modo impregnado, que ainda quando não faz citações diretas, é possível observar sua proximidade com os ensinamentos do evangelho. Cuidou, o Papa Francisco, de reter o que é verdadeiramente essencial à palavra – o reino de Deus e sua justiça; em sua fidelidade à causa libertadora dos mais necessitados, dos presos, dos doentes, dos descartados, dos desvalidos; em seu modo de associar palavra e ato; em sua aposta de costurar a unidade na diversidade; em seu cuidado com a casa comum; em sua facilidade de estar atento aos sinais dos tempos, sempre pronto a acentuar as urgências mais prementes; seu incansável trabalho missionário pelos cinco continentes; sua abertura à interculturalidade dentro da qual deve ser anunciado o Evangelho mais pelo exemplo do que pela palavra; sua sistemática recusa em restringir o anúncio do Evangelho a algumas culturas ou a alguns povos, em detrimento de toda a humanidade, razão por que sempre corre o risco de ser interpretado como alguém menos preocupado com os interesses institucionais a serem pretensamente privilegiados…

Não bastasse esse leque de aspectos a s merecerem destaque especial, importa também sublinhar a forma como se comunica (no caso, aos jovens): faz uso de uma linguagem simples e direta, que brota da espontaneidade de seu coração amoroso; para tanto, e buscando colocar-se no lugar dos jovens, sendo ele um ancião, recorre a imagens, comparações, situações próprias do meio.

O documento também mostra os traços de sua pedagogia, inspirada no senhor da vida: uma pedagogia movida pela compaixão, por uma solidariedade visceral com os injustiçados de todo o mundo. Faz uso de uma linguagem poética de rara felicidade. Note-se, por exemplo, sua sensibilidade de se reportar a um jovem de Samoa, mencionando dele o exemplo da canoa dentro da qual jovens e anciãos devem andar juntos, uns aprendendo e compartilhando com os demais, em vista do mesmo horizonte.

Não se há de concordar necessariamente com cada linha do documento: aqui e ali, podem ser encontrados pontos ou afirmações em relação aos quais pode haver menos afinidade, não apenas pelas diferenças de pensamento

No denso escrito/testemunho do atual Bispo de Roma, ainda há que se ressaltar o íntimo nexo que confere entre o horizonte almejado – o de visibilizar já na terra os sinais efetivos do Reino de Deus e sua justiça, a necessidade e o compromisso de se empreenderem (pelos jovens, em especial) passos compatíveis com tal horizonte, e o exercício da esperança que a mística de Jesus vai fecundando, nos entrechoques da história. Não se trata de elementos indissociáveis. Pelo contrário, cada um guarda estreita relação com os demais. O primeiro elemento (o horizonte almejado) constitui a grande motivação dos protagonistas, como vem claro na feliz comparação que o jovem de Samoa fazia: jovens e anciãos têm em comum o mesmo horizonte, o mesmo rumo a perseguir. (CV.n.201) Rumo que lhes fornece força e luz de seu empenho na viagem, cada qual ocupando-se de sua parte, de sua tarefa. Enquanto os anciãos cuidam de atentar para o rumo da canoa, para o que perscrutam inclusive a posição dos astros, cabe aos jovens manter o ritmo da navegação, pela sua força, pelo seu empenho.

Outro traço desta mesma pedagogia se revela na feliz associação entre passado-presente-futuro. Quanto ao primeiro, o Bispo de Roma enfatiza a relevância da memória, recorrendo mais de uma vez à imagem das raízes. o desenraizamento cultural, por exemplo, custaria caro aos jovens desejosos de alcançar o horizonte almejado. Na prática, emerge o lugar imprescindível dos anciãos, graças à sabedoria acumulada graças à sua densa experiência de vida, por força da qual cuidam de alertar os jovens para lidarem adequadamente com as passagens perigosas da vida, com os tropeços da caminhada, sem que isto venha a descambar para falsos caminhos, distantes do horizonte perseguido. Há de se notar a eficácia pedagógica dessa troca de experiências, na qual jovens e anciãos só têm a aprender junto uns com os outros.

Estamos diante de uma aposta aberta à aventura a ser assumida, tendo-se consciência dos riscos, mas sem abrir mão de ousar empreender os passos necessários. Aventura e ousadia de discernimento; de acúmulo de experiências e de incansável aprendizado, de autoconfiança combinada com a entrega confiante à vontade do Pai/Mãe de bondade e de amor.

O Documento vem elaborado no que se pode chamar de um texto por excelência, isto é, de um produto cujas peças ou cujos fios se acham muito bem articulado: uma verdadeira malha tecida fio a fio de modo orgânico, em função do todo. Marca, aliás, de seu autor: um mestre na tessitura de uma obra literária. Obra, a exemplo de um outro documento de sua lavra – “a Encíclica “Laudato sì” -. O texto do Papa Francisco traz outras marcas admiráveis. Do começo ao final, em seus nove capítulos e 299 parágrafos, se acha atravessado do espírito do Evangelho, comportando traços inapagáveis da Sagrada Escritura, do Antigo ao Novo Testamento. O Documento vem tecido de modo a jamais perder de vista seu horizonte – o do Reino de Deus e sua justiça. Impacta, também, por sua força poética, que ora aparece de modo implícito, ora de modo mais visível. Toca, ainda, pelo seu estilo, pela sua linguagem, em que o autor se coloca no lugar dos destinatários (os jovens e todo o Povo de Deus). Fala aos jovens como um pai ou um avô amoroso, como um sábio a interpelar profundamente cada leitor, cada leitora, desde sua alma. Ao compartilhar suas inquietações, suas esperanças, sua enorme confiança nos jovens, o faz com convicção, com enorme capacidade de convencimento, mas sempre de forma leve, com sua reconhecida ternura.

João Pessoa, 18 de Julho de 2019

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