Terapia Comunitária Integrativa e Cultura

Originalmente publicado na revista Temas em Educação e Saúde

Um homem da grande cidade foi visitar uma tribo de índio no Amazonas. O índio com sua canoa veio pegá-lo à margem do rio. Enquanto o índio remava sua canoa, o homem falava dos bens materiais que a grande cidade oferecia. Carros automáticos, elevadores, tabletes, celulares, computadores… E perguntava ao indígena: você nunca andou em escada rolante? Nunca pegou um elevador? Nunca viu um computador? Nunca usou um telefone celular? O indígena respondia sempre: não sei o que é isso, e o homem da cidade dizia repetidamente: você perdeu metade de sua vida vivendo nesta mata. De repente um vendaval ameaçou afundar a canoa. O índio então perguntou ao visitante: o senhor sabe nadar? E ele respondeu: não sei. Respondeu o índio: então o senhor vai perder a sua vida inteira.

Esta anedota nos mostra que cada indivíduo, cada etnia, cada povo tem sua maneira de viver, construída ao longo dos anos, em sintonia com o seu meio ambiente. Um indígena, quando nasce às margens dos rios da Amazônia, uma das primeiras coisas que se ensina às crianças é andar na floresta, nadar, pois ela pode a qualquer momento cair nas águas ou se perder na floresta e já saberá sobreviver. Já no deserto de kalarari na África, a primeira coisa que se ensina a uma criança é se vestir de maneira a se proteger do sol escaldante, da quentura e dos perigos da desidratação.

É verdade que quem vive na floresta desconhece a realidade de quem vive na grande cidade. Mas é verdade também que quem vive na grande cidade não tem o conhecimento do que é necessário saber, dos comportamentos, das atitudes, de saberes e crenças dos povos da floresta. Se colocássemos um indígena no centro de uma grande cidade, seria logo atropelado pelos carros, da mesma maneira que se pegássemos uma pessoa da cidade que não conhece a floresta, ela logo se perderia ou se envenenaria comendo algum fruto selvagem venenoso. Pois bem, cada povo vive com seus costumes, com sua cultura, que o protege e facilita sua vida. É a cultura que dá habilidade ao homem para pensar, avaliar, discernir valores e fazer opções.

Cultura é todo produto de um povo construído ao longo da vida em função do ambiente onde vive. A maneira de construir uma casa no Nordeste é diferente daquelas construídas no Sul, nos Estados Unidos, na Suíça; o que se come na Amazônia é bem diferente do que se come na Alemanha, em Porto Alegre, em Minas Gerais. São todos alimentos saborosos, nutritivos. Você já imaginou se impuséssemos a todo mundo comer a mesma coisa, se vestir do mesmo jeito, construir casas do mesmo jeito e ter a mesma religião? Seria como retirar uma aranha de sua teia e colocá-la numa caixa ou nas águas de um rio.

Muitas vezes, porque vivemos na grande cidade, achamos que nossa “cultura” é superior à dos outros. Chamamos de brega, de matuto, de ignorante, de pé rapado, de Jeca; enfim, tentamos desqualificar a cultura do diferente. Humilhamos, discriminamos aquelas pessoas que vivem em universos culturais diferentes do nosso. Ora, não existe hierarquia em cultura, ou seja, não existe uma cultura superior à dos outros. É uma grande ignorância falar de outras regiões, de outros países, fazendo comparações em termos de cultura superior ou inferior.
As crenças, como os alimentos e tradições variam de cada povo, de cada continente. Cada povo tem suas histórias para contar, suas festas para celebrar, seu sistema de valores. O Brasil povoado pelos indígenas tinha sua cultura. Imaginem as atrocidades feitas aos primeiros habitantes do Brasil, quando chegaram os colonizadores portugueses com sua cultura em busca de nossas riquezas para levarem para Portugal. Eles tentaram impor sua cultura e seus valores considerando que se tratava de povo ignorante e que precisavam mudar seus hábitos, sua maneira de viver, e se “aportuguesarem”. Quanta coisa foi destruída, dilapidada. Nossos pajés foram perseguidos, nossa medicina foi desprezada, nossa natureza violentada, destruída. Isso é o que chamamos de colonização. É querer impor ao outro, nossos valores, crenças e nossa visão de mundo. Ora, um ponto de vista é apenas a vista de um ponto.

O Brasil é uma sociedade plural composta de várias etnias indígenas, africanas e de migrantes europeus e asiáticos. Quanta riqueza! Cada povo quando veio trouxe sua cultura alimentar, recreativa, sua maneira de curar as doenças, suas crenças e rituais. É isso que faz a riqueza do Brasil. Querer impor uma só visão do mundo é um ato de colonização e de destruição de saberes milenares, que constituem o patrimônio cultural de nossa nação.

A diversidade cultural é boa para todos. A cultura é um “elemento de referência”, fundamental da identidade pessoal. Quem Sou? Do que sou capaz? Passa pela rede relacional familiar e contextual. A cultura é o arcabouço da identidade. A minha identidade, ser nordestino, ser gaúcho passa por: o que gosto de comer, como ando, em que creio, como falo. Se uso chapéu de couro, como baião de dois, tenho Padre Cícero como meu protetor, é com certeza um nordestino. Se uso galocha, tomo chimarrão, sou um gaúcho.

O choque inevitável do encontro das culturas provoca perdas de saberes, exclusão e muito sofrimento. Vejamos agora quais as repercussões na mente e nas estruturas sociais das pessoas.

Quais os efeitos da globalização e do neoliberalismo nas estruturas sociais e mentais?

Uma sociedade cada vez mais individualista e excludente provoca efeitos psicossociais que comprometem simultaneamente o indivíduo e o vínculo social, e atinge a saúde mental de todos. Uma sociedade que exclui e impede as pessoas de exercerem suas potencialidades naturais e culturais, as torna mais frágeis, vulneráveis e dependentes. Este sentimento de incapacidade, de descrença em seus próprios potenciais, reforçam a marginalização dos indivíduos dentro do corpo social e os conduzem a autoboicotes: a vergonha, o medo de falar de si, de se aceitar. Ora, o maior patrimônio de uma pessoa é a confiança em si. Quando se ataca isso, a pessoa fica confusa, perde a confiança em si, nos outros e no seu futuro, gerando a síndrome da miséria psíquica, entravando o seu futuro. Este contexto tem forte potencialidade para tornar os humanos enlouquecidos pelas angústias e incertezas no que se referem aos vínculos sociais e atingem as bases simbólicas das culturas e das pessoas.

O Cuidar que prejudica

Quando comecei meu trabalho como psiquiatra e psicoterapeuta no Projeto 4 varas, na favela do Pirambu, em Fortaleza, logo me dei conta de que a maioria das pessoas por mim atendida, apresentava muito mais um sofrimento a ser escutado e acolhido do que uma patologia a ser tratada e medicalizada. Esses sofrimentos, inúmeras vezes, tendem a ser qualificados de depressão, de paranoia, fobia social, isolamento e sendo objeto de medicalização. O grande paradoxo é que quanto mais se medicaliza, mais o paciente vai mal.

O cuidar deve levar em consideração a pessoa como um todo e o que se tem em comum como a água, o ar, as florestas. Limitar a atenção apenas à bioquímica dos distúrbios mentais seria uma pobreza imensa e apenas anestesiarmos o sofrimento, agravando a saúde dos pacientes. Não se trata apenas de eliminar o sintoma, mas oferecer à pessoa elementos que suscitem reflexão que visem dar sentido ao seu sofrimento, sempre ligado ao seu contexto histórico, familiar e social. Eliminar um sintoma sem ressignificá-lo é uma irresponsabilidade.

Precisamos ter a consciência de que existe uma vida além da patologia. Precisamos nos lembrar que atrás de um doente há uma pessoa humana, um cidadão, com competências, potencialidades, que precisam ser despertadas e que constituem um recurso indispensável em sua recuperação, na construção de sua identidade.

As consequências da medicalização do sofrimento nos conduz a um maltrato ao paciente, pois damos uma resposta desvinculada da realidade e da necessidade do paciente, além de gerar iatrogenias, acrescentando novas doenças, gerando novas dependências.

Para sermos terapeutas, cuidadores de seres humanos, não podemos nos limitar a uma única abordagem (biológica, psíquica, social, espiritual, quântica), pois estaremos reduzindo a grandeza do homem a apenas uma de suas partes. Poder contar com os recursos da medicina, psicologia, sociologia, filosofia e teologia, para citar alguns, amplia o nosso potencial de ação, atenção, cuidado e promoção da saúde.

Qualquer fanatismo, seja ele biológico, psicológico, psiquiátrico, sociológico, filosófico ou religioso, é um empecilho ao desenvolvimento de ações promotoras de vida. Precisamos superar os preconceitos que nos tornam míopes, limitam nossa visão e restringem nossas condutas pessoais e profissionais.

Quando nós desenvolvemos um trabalho de cuidar dos outros, temos que aposentar o velho colonizador e o velho missionário, que querem fazer com que os outros mudem seus valores, suas crenças e vejam o mundo sob o nosso ponto de vista. Querer mudar os outros é uma violência, mesmo quando queremos impor nosso amor. Precisamos respeitar o outro com sua maneira de ser e de crer.

Como cuidadores, abrimos portas, mas quem decide sair ou entrar é o outro. O cuidador precisa acolher sua impotência como fazendo parte da sua condição de ser humano limitado. Eu não posso ser o protagonista da história e das decisões do outro.

Todos nós temos formas diferentes de acolher o outro e despertar nele aquilo que ele já tem. Por que essa ideia é importante? Porque se eu digo: você tem problema, eu vou querer ser o salvador, aquele que tem respostas, remédios, e, assim, vou criando uma situação de colonizacão, de dependência, onde de um lado estão os que não sabem, os ignorantes, e do outro lado aqueles que sabem. Se na minha relação de ajuda, de cuidado, quero impor meu ponto de vista, meus valores, minhas crenças, minha cultura, eu nego a alteridade, o outro diferente de mim e empobreço o rico arsenal terapêutico cultural.

Somos uma pluralidade étnica afro-indígena-europeu-asiática. Esta pluralidade é uma riqueza para toda a sociedade brasileira. Querer impor apenas uma maneira de ver e cuidar seria de uma pobreza imensa. Talvez o espírito predador do colonizador ainda precise ser trabalhado, quando pretendemos acolher o sofrimento do outro.

O campo do cuidado, do acolhimento do sofrimento, é cheio de armadilhas predadoras e por isso exige cautela. Existem sempre algumas pessoas que ficam à procura de um mestre, de um guru. Estão sempre procurando fora e esquecem de buscar respostas dentro de si mesmas, graças à riqueza cultural que herdamos de nossos antepassados. Estas são presas fáceis de seus salvadores.

Existem também aqueles que se dizem iluminados e oferecem respostas para tudo. Suas ideologias são totalitárias e excludentes de outras abordagens. E muitas vezes, sob o pretexto de querer ajudar, acolher, terminam por querer reforçar em sua clientela, seu poder tirânico. O bom cuidador é discreto e acredita que o outro pode superar os desafios da relação consigo mesmo, com o outro, com a natureza.

Na maioria das vezes, a relação de ajuda é baseada numa relação vertical onde há um especialista que doa e um indivíduo que recebe. Ora, esta atitude priva o profissional da extraordinária riqueza do saber adquirido pela experiência de vida de cada um, sobretudo daquela pessoa que vive grande dificuldade.

Paulo Freire (*), no campo da educação, nos lembra que toda aprendizagem é uma construção comum e que não se pode realmente aprender se não aprendemos alguma coisa com o outro. Nossa experiência com a Terapia Comunitária Integrativa nos mostra que ocorre a mesma coisa na relação de ajuda. Na arte de cuidar como na arte de educar existe uma circularidade. Eu ensino e eu aprendo com o outro. Ensinar e aprender é um processo de mão dupla.

Quando damos, cuidamos, sem a consciência dos benefícios anteriormente referidos, o gesto de dar, torna a quem o faz “provedor”, “credor” e a quem recebe “devedor”. “Dar” cria uma relação de dependência, torna-se semente de futuros desentendimentos. Neste caso, como provedor me equivoquei: com a ajuda criei uma ilusão inconsciente de que o beneficiado me deve algo. Duas frases revelam esse equívoco: “gosto de fulano porque ele reconhece o que faço por ele” (tem consciência da dívida) e “quanta ingratidão… fiz isso por ele e ele foi ingrato” (não reconhece a dívida).

Ao devedor restam duas opções: ser prisioneiro do “provedor” ou rebelar-se contra ele. Vejamos: Nesta fase em que é prisioneiro, o provedor torna-se um “anjo da guarda”, ele é santificado e passa a ser visto como o salvador, o provedor de todas as suas carências. A expectativa é imensa! Foi plantada a semente da revolta que logo eclodirá. Reconhecer que sua vida depende de alguém gera aniquilamento, reduz a autoestima e o faz sentir-se objeto passivo.

Resta-lhe rebelar-se contra o “provedor”. Uma vez que meu “salvador” não pode corresponder às minhas expectativas, preencher minhas carências, ele é diabolizado. Invertem-se os papéis. O “devedor” passa a acusar, a negar todo benefício recebido, por ser esta a única maneira de fugir do sentimento de aniquilação e dependência, fruto de um relacionamento baseado no equívoco de que alguém o vai salvar. Só assim pode sentir-se sujeito livre. Quem de nos já não viveu esta experiência de ser acusado violentamente pela pessoa a quem mais ajudou? De ver seu protegido tornar-se num inimigo cruel?

Toda superproteção é um ato de descrença na capacidade do outro. Muitas vezes a superproteção mascara um medo da solidão, do abandono de quem protege.

O dar que nos liberta

Afim de evitar que todo gesto de doação, de cuidado, se transforme em conflitos de relação, urge, preventivamente, associar ao gesto de dar, de cuidar, oferecer ao beneficiado uma carta de alforria. Ou seja, liberar o outro deste sentimento de dívida para com o cuidador, dizendo: “Você não me deve nada. O que faço por você é o que já fizeram por mim. Espero que você faça o mesmo, quando encontrar alguém nas mesmas condições…”. Desta forma, o cuidador terá um inimigo a menos.

Não podemos esquecer a circularidade no cuidar. Cuidando do outro eu estou cuidando de mim mesmo. O fato de hoje poder estender a mão, não me faz superior ao outro, não me dá o direito de transformá-lo em adepto ou fiel seguidor de meu método, do meu credo. No cuidado há respeito à alteridade. Aceitar a diferença que nos faz únicos. Esta é uma arte que temos que aprimorar cada vez que cuidamos. Damos hoje o que recebemos ontem e o que recebo hoje poderei dar amanhã. Esta é uma regra inerente ao ser humano. Nascemos todos com esta falha, com esta carência que nos faz ir na direção do outro. Hoje cuidamos, amanhã seremos cuidados. É isso que gera uma dinâmica que responde à precariedade de todo ser humano.

A consciência do encontro com o outro torna-se a chave que nos abre ao conhecimento de si mesmo. O outro torna-se fiel colaborador do nosso processo evolutivo. Não existe EU sem TU e muito menos TU sem EU. Aí está o segredo de nosso crescimento como pessoa e profissional: a consciência que nascemos “precários”. A arte do cuidar é sempre prazerosa para o cuidador, quando ele faz do cuidar do outro a grande chance de cuidar de si e de crescer juntos.

Presupostos do cuidar na Terapia Comunitária Integrativa

A arte de cuidar é receber quando se dá. É acolher sem querer mudar o outro. Esta atitude de humildade é fundamental na perspectiva de não fazer da ajuda ao outro uma relação de dominação. Já dissemos que um ponto de vista é apenas a vista de um ponto. Querer impor meu ponto de vista com meus valores ao outro, é querer colonizá-lo, dominá-lo, me tornando o protagonista da vida do outro. Quando eu proponho minha ajuda, eu me torno o protagonista, torno-me guia condutor e termino por conduzir a pessoa em um território onde prevalece a dominação, a colonização do outro através de conselhos, julgamento de valores, interpretações, gerando dependência que esteriliza a vida.

Os cuidadores populares

A escola da vida tem formado grandes especialistas na arte do cuidar. São homens e mulheres que na sua grande maioria não têm nenhuma formação acadêmica, mas sabem lidar com esta alquimia de transformar sofrimento em sensibilidade, em energia reparadora, possibilitando a construção de uma nova ordem social, o renascer das cinzas. Por isso são cuidadores = cuidam-das-dores. Aprenderam a transformar feridas em pérolas, sofrimento em crescimento. As dores de ontem, transformaram-se em fonte de competência saneadora. O gemido de outrora se tornou voz interior que os vocaciona para uma ação solidária voltada, sobretudo, para aplacar aquilo que já se vivenciou.

Em nossa experiência de articulação do saber popular com o saber científico no Projeto 4 varas, em Fortaleza, é muito importante que o cuidador comunitário tenha consciência do seu papel quando desenvolve atividades de cuidado junto à comunidade. O seu trabalho difere de um profissional como o psicólogo, o médico ou psiquiatra. Enquanto os profissionais de saúde fazem diagnóstico, fazem tratamento das doenças, prescrevem remédios, fazendo interpretações e análises, o cuidador comunitário deve respeitar os limites da sua atuação.

O cuidador comunitário, com seu trabalho, situa-se no campo da promoção da saúde, da prevenção, e de eventuais encaminhamentos para os profissionais da área da saúde, como os psiquiatras e psicólogos. Estes sim são capacitados para tratar as doenças através de psicoterapias ou prescrições medicamentosas. O mesmo acontece com os profissionais de saúde, quando percebem que se trata de sofrimento, encaminham para a oca de saúde comunitária, para serem acolhidos pelos terapeutas comunitários através de massagens antiestresse, das rodas de terapia comunitária integrativa, dinâmicas de resgate da autoestima, chás de plantas medicinais, aplicação de Reiki, etc.

O trabalho coletivo do cuidador deve limitar-se a acolher a dor da alma, o sofrimento, com os recursos da cultura local. Acolher o sofrimento é uma ação cidadã e qualquer pessoa pode acolher o sofrimento do outro, entretanto, tratar doenças é prerrogativa dos profissionais de saúde. Agindo de outra forma poderiam ser acusados do exercício ilícito da medicina, o que geraria conflitos entre os dois modelos vigentes. Ambos os modelos são diferentes e complementares, tendo cada um seu lugar, o que é bastante salutar para todos nós.

São inúmeras e diferentes as formas de acolher e cuidar do outro para despertar nele suas capacidades e potencialidades criativas, que constituem um recurso indispensável na recuperação.

Uma das ideias básicas de nosso trabalho é que a primeira escola é a minha família e meu primeiro mestre a criança que fui. Geralmente atribuímos nossas competências a livros que lemos, a workshops que realizamos e jamais a algo que vivemos e superamos. Só nos empoderamos quando compreendemos e aceitamos ser sujeito ativo, aprendendo com nossa história. Neste sentido, a carência gera competência. Geralmente damos melhor aquilo que não recebemos. Ex.: Eu posso amar porque recebi muito amor, mas posso amar porque sofri a dor do abandono, da rejeição. Tenho trabalhado exaustivamente nestes últimos 30 anos, procurando compreender este processo resiliente que possibilita a tantos tirar leite de pedra e transformar as feridas em pérolas. A realidade é uma universidade. A academia não tem a hegemonia da produção do conhecimento. Ela produz um conhecimento indispensável, mas a experiência de vida produz também competências. Não se trata de opor uma à outra, mas sim de articulá-las de maneira complementar.

Como ser terapeuta comunitário num universo cultural plural?

Precisamos estar atentos para não reproduzirmos uma nova colonização, onde humilhamos e excluímos as diferenças. Vejamos quais são os valores da TCI que orientam a prática de cuidado:

1 – Ser Acolhedor

Se acolher, se aceitar como se é, estar aberto às diferenças, aos valores tradicionais, modernos e familiares, estar atento à linguagem corporal e às emoções de cada um. Acolher minha história, a história dos outros, acolher as ressonâncias emocionais, inerentes ao cuidar, como matéria-prima para meu próprio crescimento. Acolher as dores da alma. Acolher o imprevisto, o inesperado, as emoções positivas e negativas. Acolher a criança interior que está dentro de cada um. Ser sempre uma presença acolhedora, autêntica, convival, sorridente, simples e disponível. Acolher e partilhar músicas, saberes, aromas e sabores de café, chás e bolos…

2 – Ser simples

Resgatar a simplicidade de linguagem, de postura e se livrar do lugar do especialista que sabe, para aceitar aprender com o outro. A complicação é um instrumento de poder, que deseja impor sua superioridade afirmando que seu saber é tão complexo que o outro deve se submeter a si. A simplicidade nos permite abandonar, se livrar do poder sobre os outros para poder ser com os outros. A simplicidade nos permite resgatar o essencial, menos papel em torno do bombom. Precisamos encontrar em cada um de nós a criança interior, resgatar a sabedoria tradicional de nossos antepassados. Teorizar pouco e sempre a partir da experiência vivenciada. Na formação para ser terapeuta comunitário, a aprendizagem não consiste em acrescentar complexidade aos conhecimentos, mas ao contrário, desnudar-se. Partilhar muito mais o que se vive do que impor aos outros o que se sabe. A TCI não é mais uma técnica, mas acolher o sofrimento com os recursos da cultura em toda simplicidade.

3 – Valorizar as emoções, que nos une como humanos

Ela é o ponto de partida para a construção das identificações que vai construindo as redes de apoio social. Valorizar o corpo como o lócus que nos permite viver nossas emoções. Trata-se de identificar, de nomear a sensação presente no corpo. Uma vez que estas sensações são identificadas, elas podem ser pensadas, gerando consciência e possibilitando as mudanças. É pelas emoções que nos unimos, descobrimos que somos todos iguais e vivenciamos nossa humanidade independentemente de toda diferença aparente externa. O corpo é o ponto de partida que nos leva à reflexão para se chegar ao autoconhecimento e a descoberta de si pelos nossos 5 sentidos: audição, visão, olfato, tato, sabor. O corpo revela um modo de funcionamento. As dinâmicas corporais utilizadas na formação do terapeuta comunitário são fundamentais para se trabalhar as ressonâncias da escuta ativa. O terapeuta comunitário deve aprender a decodificar as mensagens inconscientes veiculadas pelo corpo, procurando integrar teoria, prática e o corpo.

4 – Ousar transgredir

Audacioso é, sobretudo, se permitir descobrir a si mesmo, mostrar suas emoções e desta forma permitir ao outro fazer o mesmo. Na TCI, o animador pode falar também de seus sofrimentos. Para chegar lá deve superar a vergonha de falar em público, a culpabilidade, o medo de ser julgado. Ousar ser ele mesmo. A responsabilidade do animador/facilitador é de garantir um ambiente acolhedor que deixe as pessoas à vontade para se permitir ousar desvelar o que está silenciado. Ser o guardião das regras durante toda a roda, que garante um clima de confiança e segurança de poder ousar ao falar, sem serem julgados. Ousar dizer EU. Ousar acolher amorosamente sem ter medo do ridículo. Aceitar os silêncios, a impotência, tocar e ser tocado, as canções. Ousar seu próprio estilo de animar, seguir sua intuição, se dar o direito de criar, inovar, desobedecer, transgredir positivamente, de fazer apelo a sua engenhosidade, sem deformar a proposta da TCI.

5 – Gerar dúvidas em nossas certezas, através de perguntas que fazem pensar

Toda certeza é uma prisão. Cada pessoa vem à roda prisioneiro de uma leitura, achando-se vítima, culpado. Compete ao terapeuta comunitário, através de perguntas, semear a dúvida na certeza. Perguntas que abram perspectivas das diferentes opções de encarar a realidade. Um ponto de vista é apenas a vista de um ponto. Precisamos valorizar a consciência crítica, ou seja, várias respostas a uma questão, e não a consciência ingênua que consiste em dar uma única resposta a uma questão. O terapeuta comunitário deve se esforçar para ser um especialista em fazer perguntas que geram dúvidas, num clima de confiança e serenidade. A melhor pergunta é aquela que gera uma reação na pessoa. Toda aprendizagem é uma maneira de balançar as certezas. As partilhas das experiências de vida e dos recursos culturais dos participantes ajudam a rever nossa visão de mundo, nossos modelos.

6 – Circularidade e horizontalidade nas relações

A cultura de uma pessoa não é mais importante do que a de outra. É apenas diferente. Não existe um saber, uma cultura superior à do outro, mas um saber a compartilhar, todos somos aprendizes. O que existe é um saber coletivo, plural, diferente. Na TCI, aqueles que geralmente falam, devem silenciar para permitir quem nunca fala possa falar. A horizontalidade é dar a palavra, fazer perguntas e escutar aqueles que geralmente escutam. Trata-se de falar de si, de suas emoções, de sua experiência. A horizontalidade é uma questão de humildade. É ter consciência de suas competências e de seus limites, aceitando a competência dos outros como complementares. É dar sem esperar nada em troca e receber sem se sentir em dívida.

7 – Ver o outro como um recurso

Afim de que cada um possa se beneficiar dos recursos de todos, precisamos deixar espaço para o silêncio, valorizar a presença dos participantes. Acolher as diferenças como presentes e a alteridade como um espelho que suscita ressonâncias que favorecem a consciência de si. Aprender com o outro e se permitir ser interpelado pelo inesperado, pelo imprevisto. Ficar aberto ao enamoramento. O encontro com o outro é uma viagem à descoberta de um continente desconhecido. O outro, por sua singularidade e suas diferenças, é fator de mudanças, de crescimento e de resiliência. Não existem pequenas ou grandes diferenças e sim diferenças que geram e provocam diferenças.

8 – Usar o humor com amor

O humor é um recurso cultural indispensável no trabalho de grupo. Ele estimula o neo-córtex a refletir e permite resignificar, transformar o trágico em lúdico. Daí porque devemos explorar este recurso cultural de grande valor, que poderá tornar as rodas espaços de lazer e facilitadoras de aprendizagem.

Assim, SER terapeuta na TCI é ser um terapeuta plural que aprende a acolher a nossa humanidade frágil, que valoriza a convivência baseada na partilha e na solidariedade.

A TCI está sendo apresentada e reconhecida mundialmente como uma pequena Luz que clareia, uma escuta que valoriza, um espaço que desperta e nutre a esperança!

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(*) Paulo Freire Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.

O autor é Doutor em Psiquiatria pela Universidade René Descartes (Paris) e Doutor em Antropologia pela Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais de (Paris), entre outros títulos. Criou uma metodologia: a Terapia Comunitária Integrativa, um programa de atenção primaria na área de saúde mental que utiliza a competência das pessoas e promove a construção de redes sociais. Atualmente também é professor do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). Autor dos livros: Terapia Comunitária Integrativa passo a passo. (Fortaleza: Gráfica LCR, 2005); Quando a Boca Fala, os Órgãos falam… Desvendando Sintomas. Fortaleza: Gráfica LCR, 2012.

Fonte:

BARRETO, Adalberto. Prefácio. Revista Temas em Educação e Saúde, Araraquara, v. 12, n.2, p. 133-144, jul-dez. 2016. ISSN: 1517-7947.

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