Terapia Comunitária, epistemologia e método.

Por Maria de Oliveira Ferreira Filha e Rolando Lazarte

Entendemos a Epistemologia (de episteme, saber) como a reflexão sobre os fundamentos da realidade e do conhecimento, as definições básicas a partir das quais transcorre um afazer, neste caso, a Terapia Comunitária. A Terapia Comunitária é mais do que um mero afazer. É um modo de ser, ou muitos modos de ser, entrelaçados, e cabe a cada um dos seus praticantes, terapeutas ou formadores, discernir, a cada momento, o que seja esse viver em rede, esse ser em rede que acabamos descobrindo nesta vida construida entre muitos. Aqui, talvez, esteja a mais forte das mudanças que a Terapia Comunitária introduz nas nossas vidas: Já não sou só, agora vivo em relação, vivo interligado, me descubro, mas não apenas intelectualmente, como um ser comunitário, alguém que não apenas está, mas também é, em relação, em sociedade, em rede. Esta autodescoberta rompe o isolamento, define novas formas de ser e de fazer, se sentir e de pensar, que cada um ira descobrindo na caminhada da vida, na vida na terapia.

Na sociedade capitalista em que vivemos, o outro é construído como ameaça, obstáculo, ou meio. Raramente fraternalmente, mais comumente, competitivamente. Alguém que se opõe aos meus fins, ou alguém que devo ou posso usar para atingir minhas metas. Na Terapia Comunitária, aprendemos, e não só teóricamente, que com o outro, e apenas com os outros, no plural, posso crescer, posso ser, posso me tornar quem sou. Desde o começo, quando demos o primeiro passo para este mundo novo, alguma coisa mudou essencialmente em cada um de nós. Talvez uma solidão, um abandono, uma sensação de estranhamento, de não pertencimento, de andar vagando sem rumo pelo mundo e pela vida, de não ser alguém de jeito nenhum, mas apenas uma folha ao vento, estranho e só, alheio a tudo e a todos, tenha se rompido.

Ao sermos acolhidos, ao nos descobrirmos parte de uma comunidade, a nossa reinserção no mundo e na vida, na sociedade que existe fora e dentro de nós, ocorreu. Esse fato fundamental mudou radicalmente a minha vida, a vida de todos vocês, a vida de cada um que se encontra ou se reencontra nas rodas da terapia.

O problema ou os problemas que me dilaceravam, que faziam de mim um sujeito sem raízes, um pedaço de mim, como diz a canção de Chico Buarque, aquilo de tão horrível e único que me quebrava por dentro, que e fazia ser agressivo ou passivo, obediente ou subserviente, mecânico, técnico, um arremedo de gente e não gente de verdade, se tornou, na verdade, a minha ponte de regresso, uma ponte de volta para mim mesmo, para a vida, para Deus, para a sociedade.

Cada um de nós tem histórias a contar a este respeito. Temos estudado os fundamentos da Terapia Comunitária na formação, nos estudos coletivos e individuais. Temos pensado sobre as noções de homem/mulher (ser humano) implícitas na formação do terapeuta comunitário e na sua ação. Como se concebe, no pensamento de Adalberto Barreto, a realidade social, o mundo, a vida, as relações sociais, o tornar-se homem-mulher no convívio, na relação consigo mesmo e com os demais, com o tempo, o trabalho, as necessidades básicas, a vida, tudo o que existe, a saúde, a doença, a política, o futuro, o passado, as raízes, a morte, a solidariedade.

Cada um de nós registra com clareza, esta caminhada de volta para nós mesmos de retorno da alienação, da fragmentação, da separatividade, do isolamento, do autismo, da coisificação, do viver sem rumo nem direção, da falta de sentido, do desenraizamento, do niilismo, do fatalismo em que vivíamos.

Esta revolução interior que pôs a nossa vida de pé sobre as nossas próprias pernas, que nos fez seres autônomos e responsáveis, reintegrados à trama da existência, com projeção para o aqui e agora desde um passado que nos fez gente, feito de dores, de sonhos, de amargura, de lutas vencidas e perdidas, de utopias pessoas e muito mais do que pessoais, em direção a um futuro que vislumbramos individual e coletivamente, é incessante, não acaba nunca, é para todo o sempre. A Terapia Comunitária apenas nos tornou conscientes, o que não é pouco, da incompletude, do inacabamento, como diz Paulo Freire, de tudo quanto existe. Tudo é um vir a ser, um Heráclito incessante, como diz Borges no seu poema Arte poética.

Nossos sonhos juvenis, de um mundo de amor e de paz, fraterno, com oportunidades iguais para todos, justo, sem fome, com emprego e casa, saúde, bem estar e cultura, educação para todos, está em nossas mãos. Somos parte de um exército de formigas, como dizia Dom Fragoso, construtores constantes de um homem e uma mulher novos, como Cristo e Che Guevara ensinaram. Homens e mulheres numa terra nova, de luz, plenitude, prosperidade para todos e todas sem distinção. Uma terra de vida eterna. Tu és essa terra, essa terra é esta terra, essa terra, esse mundo novo, é aqui mesmo, é aqui. O método estabelece a direção e o sentido. O caminho se faz ao andar, como diz a canção de Joan Manoel Serrat, citando versos de Antônio Machado.

Mais do que técnica, a Terapia Comunitária é um gesto de amor.

É um método de retorno do ser humano a si mesmo como ser social, como diz Marx em A Ideologia alemã. Redescobrir a socialidade total que me constitui. É o fim da sociedade de classes e o começo da verdadeira história da Humanidade. É o fim do antagonismo entre o eu e o tu, como dizia Martin Buber.

Maria de Oliveira Ferreira Filha é doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará, docente da UFPB-Campus I, João Pessoa, e Terapeuta Comunitária

Olá, bom dia! Incrível esta abordagem, revolucionária!!! Muita gente se põe contra a terapia por encara-la como um movimento por demais individualista, mas nesta perspectiva a coisa muda muito de figura. Sempre acreditei no que está dito neste texto, que a mudança pessoal é essencial para que a mudança social ocorra. Gostaria de saber mais sobre o tema, por favor, e contribuir com o que puder para que esta idéia seja divulgada o máximo possível!

Parabéns! Obrigada

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