Tentativa de humor anárquico leva a crueldade

Fui assistir Alô Alô Teresinha com minha mãe. A sessão estava cheia e a platéia equilibrada entre jovens e pessoas mais idosas. Alguns foram para reviver sua infância ou adolescência (Eu via Chacrinha toda semana! – disse minha mãe) e dar risadas, e outros, como eu, estávamos curiosos para saber um pouco mais sobre esse mito, se assim posso dizer, da telecomunicação brasileira.

Não sei sobre os outros, mas eu posso dizer que saí completamente frustrada do cinema. Um pouco, eufemisticamente falando, indignada também.

O filme começa com cenas do programa e depois passa para entrevistas atuais com pessoas que fizeram parte daquele universo: cantores, chacretes, ex-calouros, etc. Alguns comentam sua participação no programa, outros lembram histórias e muitos falam sobre como estão agora. As entrevistas costumam ser nas suas casas ou locais de trabalho, ou seja, em seus espaços íntimos.

De repente, o foco começa a se direcionar das características e dos efeitos diretos do programa, envolvendo fofocas e lembranças, a um lado mais pessoal e atual dos entrevistados.

Até o ponto em que as chacretes comentam quem pegou quem, quem era mais requisitada, etc, há um senso de escrachismo com o qual acho que o próprio Chacrinha se identificaria. Entretanto, esse humor degringola para uma outra direção e perde a noção do que é engraçado e o que é maldoso.

A montagem é totalmente co-responsável desse efeito. Cenas como a do ex-calouro que, após dizer que “Roberto Carlos é uma bosta”, é colocado entre extratos dele mesmo cantando terrivelmente e do próprio Roberto no programa ou, segundo eu, uma das piores cenas do filme, quando uma chacrete está comentando sobre sua relação impossível com o homem que ama, intercalada pelo peso dramático de outro ex-calouro cantando no ônibus, cercado de desconhecidos que só fazem olhá-lo com cara estranha. Personagens têm seus discursos colocados em questão e oposição pela montagem constantemente, incluindo a mulher do falecido Abelardo Barbosa.

Não há nenhuma inocência da parte dos realizadores do filme. Se eles tinham carinho ou não, pessoalmente, por seus personagens, isso foi deixado de lado para aflorar a pateticidade cômica dos mesmos.

alo alo

O poder daquele que capta e monta as imagens é enorme e os entrevistados foram deixados aos leões. Confiaram na câmera e foram expostos ao ridículo. O que vemos são pessoas esquecidas sedentas por cinco minutos a mais de fama. E a forma com a qual isso acontece chega a ser degradante às vezes. Eles não são acolhidos pela câmera e nem por grande parte do público.

Por mais que muitos deles estejam bem e não se envergonhem daquilo que estão fazendo ou dizendo, temos que ser realistas e lembrar que não há linguagem fora do discurso. Vivemos numa sociedade com preconceitos e idéias delineadas sobre o que faz rir do outro. Houve uma estrutura pensada para este documentário e a linha de pensamento foi uma constante sugestão para que o público risse dos personagens. Muitos no cinema realmente riram, mas outros ficaram tristes, não só pela forma como o filme manipula esses sentimentos, como pela irresponsabilidade em relação às cenas que possuíam.

Mostrar a mulher vestida com o maiô original de vinte anos atrás ou uma outra semivestida de índia dançando no chafariz da praça, um homem gago cantando sozinho de um lado pro outro num quintal, fazer dois homens gagos repetirem uma frase com legenda embaixo, uma ex chacrete cantando e tocando mal como forma de trabalho hoje em dia, etc. Essas são algumas das cenas que me fizeram torcer para que o filme acabasse logo.

Talvez algumas dessas não fossem levadas tão a sério ou pudessem ser pensadas de forma mais leve e realmente apenas cômicas, mas da forma que foram montadas e estruturadas no conjunto de cenas em que se encontravam, outra conclusão além de humor negro, é impossível de ser tirada.

Muitos ali, dos ex calouros, são pessoas pobres e ingênuas que vêem nesse filme a chance de finalmente serem reconhecidos. As chacretes vêem também como se os refletores estivessem novamente sob elas. E diferentemente do programa do Chacrinha, em que todos esperavam ser humilhados de certa forma, zoados pela platéia ou buzinados pelo próprio Chacrinha, esse filme não propõe isso de antemão. Chega com uma atitude perante os entrevistados e utiliza as imagens de outra forma, completamente oposta. Se aquelas pessoas não tinham noção de que o que estavam fazendo poderia chegar ao ridículo, o documentarista não exita em ficar quieto e talvez até motivá-los para conseguir mais material pro filme.

Uma característica talvez louvável foi o fato de que praticamente todos estavam em pé de igualdade. Ex-calouros, cantores que hoje são famosos e chacretes, todos estavam propícios ao ridículo. Foram filmados e montados da mesma forma que todos, cantavam desamparados andando em planos gerais, em pé em suas salas de estar, sem tempo de afinar a voz ou lembrar das letras das canções e baby Consuelo teve até direito a uma filmagem não oficial dela dando um sermão pelo celular quando a câmera estava no chão, aparentemente desligada. Mas mesmo sendo interessante tal nivelamento, não significa um mérito do documentário. Apenas que ninguém se salva.

Corrigindo, certamente há um pouco mais de carinho pela sinceridade ingênua, emoção carregada de lágrimas e alegria de representar o troféu abacaxi de certos calouros, em comparação a depoimentos raivosos de entrevistados como Nelson Ned, Agnaldo Timóteo e Wanderley Cardoso chutando seu cachorro porque está atrapalhando-o ao cantar.

Mas esse carinho é tão pouco e fica tão perdido no meio da confusão que o mal estar recomeça.

Além da forma, outro elemento que me causou tristeza foi o conteúdo: não só observar retratos esquecidos como um certo desespero dos mesmos por atenção e a forma com que alguns arrumaram para lidar com a falta. Muitos aderiram à religião de forma ferrenha, outros vivem do resquício que aqueles anos de fama lhes deram e outros gostam de reviver o passado através de competições para a novAlô, Alô, Terezinha!a chacrete, etc.

O filme nos revela o poder que esse programa tinha sob cantores, como meio de propaganda e plataforma para novos talentos, assim como a influência em indivíduos, que assistiram ou participaram do programa. A capacidade de abrangência de Chacrinha era realmente impressionante.

Fala também sobre essa triste aberração que a mídia cria, personagens sedentos por atenção que fazem quase qualquer coisa para conseguí-la.

Não é um bom documentário, e para mim, é um filme cruel. Sei que a intenção do diretor não era essa, mas repito, infelizmente sua intenção de sensibilizar a audiência e humanizar seus entrevistados derrapou muito no começo e terminou simplesmente expondo-os ao ridículo.