Talentoso ou arrogante. Você decide.

“Eu matei minha mãe” é claramente um filme de principiante. Xavier Nolan, um canadense de 16 anos, resolveu escrever, dirigir e estrear como protagonista de seu próprio filme. Tendo ouvido bons comentários de sua participação no Festival de Cannes, eu esperava um filme interessante, com um olhar fresco de um jovem inspirado.

Entretanto, os primeiros vinte minutos de filme me provaram o contrário, jogando qualquer expectativa positiva para o ralo. Foi realmente difícil me manter sentada na poltrona da sala do Estação durante esse prólogo tão indulgente de um adolescente mimado e insuportável que trata sua mãe sem nenhum cuidado ou respeito e que ainda se acha melhor e mais talentoso do que os outros.

Xavier - Hupert

Um dos piores momentos é uma cena em que num acesso de raiva, Hubert tira do armário e joga no chão, quebrando toda a louça da casa, em câmera lenta e com um fundo musical instrumental, numa de suas muitas menções a cinematografia de Wong Kar Wai. Um dos comentários de um amigo que estava assistindo comigo foi “Pô, os filmes da UFF são melhores que isso!”.

Quando eu estava prestes a sair do cinema, porém, o roteiro foi nos apresentando outras características dos personagens, assim como do protagonista, que vemos ser, por trás de toda a pompa e a atitude arrogante, um adolescente confuso e inseguro que não possui todas as respostas.

Apesar do filme conter várias falhas rítmicas, vários buracos ou mudanças de tom estéticos, este realmente surpreende. Depois que passamos a ver mais sinceridade e vulnerabilidade no personagem de Hubert, percebemos que este é um filme bastante genuíno que fala de um momento pelo qual a maioria de nós já passamos na vida, o momento em que odiamos nossas mães. Como o personagem mesmo diz em uma de suas filmagens preto e branco narcisistas, complementando bem as características de seu personagem emo, pode ter durado um ano, um mês ou apenas alguns segundos, mas muito provavelmente já aconteceu com você.

Algumas das cinematografias que percebemos claramente terem inspirado o rapaz são as de Gus Van Sant, Wong Kar Wai e o filme “O fabuloso destino de Amélie Poulain”, de Jean Pierre Jeunet. A forma de retratar a homossexualidade, assim como a maneira de filmar a si mesmo e os outros rapazes; os momentos em câmera lenta com trilha sonora parecida com a de “Amor a flor da pele” (muitos dos quais a câmera segue as costas dos personagens) e ainda outros em que o piano acelerado delineia a emoção de Hubert sozinho no fundo de um ônibus ou andando em sua bicicleta são alguns exemplos.

Não vejo como problema Xavier se inspirar em tais diretores para seu primeiro filme, contanto que consiga se desembaraçar nos próximos e criar uma identidade pessoal.

Gosto da sinceridade e da complexidade do personagem, dele não querer se mostrar como vítima todo tempo, nem como bonzinho. Ele assume suas falhas e mesmo eu tendo percebido-o como um rapaz fresco e mimado, pude me identificar.

Tirando alguns enquadramentos terríveis, a maioria é aceitável e outros até mesmo bem bacanas, apesar de videoclípticos, como a cena da pintura da parede.

Há bastante naturalidade dos atores, o que demonstra um roteiro bem desenvolvido nessa área e uma boa relação entre estes e o diretor.

Uma história simples, contada do ponto de vista de um adolescente cheio de questionamentos e perturbações, no ápice de suas contradições morais e hormonais que consegue criar um clima semelhante na narrativa. Um filme um pouco pretensioso, mas que se pensado como é, ou seja, o primeiro filme de um adolescente talentoso, pode gerar boas discussões no final.