Sujeitos históricos revolucionários: ousando ensaiar passos de retomada, em novo estilo

Tempos de crises societais mais agudas comportam, não raramente, um fenômeno paradoxal: de um lado, favorecem, em relação às forças sociais historicamente vocacionadas ao quefazer de transformação societal, certa apatia; por outro lado, também servem para o acúmulo de ações alternativas, a virem a lume, a seu tempo.

Tudo está a indicar que vivemos um período assim: entre a apatia e um silencioso acúmulo de sinergias mobilizadoras. Pesquisando situações similares, características de outros tempos, figuras como Max Weber e Ernst Troeltsch, entre outras, forneceram, a este respeito, elementos teóricos a serem tomados em conta. Referiam-se a uma certa alternância – para forças sociais de transformação – de tempos de intenso ímpeto mudancista e tempos de relativa calmaria ou recuo. Assim interpretavam a dialética entre o instituído e o instituinte, como um traço histórico próprio de movimentos sociais.

À semelhança de tudo que é humano, também os sujeitos históricos revolucionários – movimentos sociais, associações, cooperativas e tantas outras organizaçãoe de base de nossas sociedades – também se acham marcadas pelo inacabamento. Sendo, como são, forças sociais transformadoras do status quo, sujeitas ao movimento da história, em seus altos e baixos, em seus períodos de ascenso, de descenso e de reascenso, não têm por que se renderem ao fatalismo, ao atravessarem momentos de pequenas ou de graves turbulências, como lhes sucede, na atualidade. Têm, sim, que seguir adiante! Não sem antes, fazerem sua autocrítica, sob pena de nada lhes adiantar seguir cometendo os mesmos desatinos históricos.

Em outras ocasiões recentes, já nos pronunciamos sobre a necessidade inafastável, para as forças que se pretendam comprometidas com mudanças substantivas, de fazerem autocrítica. Nestas notas, cuidamos de concentrar nossos esforços de reflexão crítico-prospectiva no aceno de experiências vivenciadas molecularmente por algumas organizações de base, em vista de atividades prenhes de alternatividade ao modelo hegemônico vigente. Nesse sentido, começamos por explicitar alguns critérios portadores de traços de alternatividade, que já inspiram e que poderão inspirar ainda mais fundamente os passos de retomada desses sujeitos históricos revolucionários, em novo estilo.

Que valores critérios se apresentam condizentes a uma retomada, em novo estilo, para tais forças grávidas de alternatividade? É fundamentalmente esta a questão que ora alimenta nossa reflexão, que tratamos de distribuir em alguns tópicos, de modo a contemplar as principais dimensões de uma sociabilidade alternativa ao modelo capitalista de produção, de consumo e de gestão societal. Trata-se de definir, coletivamente, quais os valores e critérios que devem inspirar os passos ensaiados, em vista da construção de um horizonte alternativo ao atual modelo hegemônico, de modo a se fazerem presentes nas mais diversas dimensões da realidade social, bem como de seus protagonistas. Destacamos os seguintes valores ou critérios de atuação, no cotidiano das relações dos sujeitos históricos revolucionários:

– Sentimento de pertença cósmico planetário de cada sujeito histórico revolucionário
Trata-se de nos entendermos, ao mesmo tempo, como seres de natureza e de cultura. Irmanados com os humanos e com todos os demais membros da comunidade dos viventes, somos natureza, animais, vegetais, minerais, marcados por características e condições diversificadas e simultaneamente assemelhadas. Por outro lado somos, os humanos, também seres de cultura, vale dizer, conscientes do nosso inacabamento, vocacionados à liberdade, dotados de criatividade, de capacidade, de contemplação, e de fruição do belo, das artes, numa palavra, seres tecelões de unidade, na diversidade, seres promotores de interculturalidade.

– Sujeitos históricos revoluconários também marcados pela memória histórica, pela sede de aprender, pelos sonhos e utopias –Seres de natureza de de cultura, buscamos na memória histórica nossas raízes mais fundas, repletas de lutas, conquisas, invenções, revesis, esperança… Ao nos Debruçarmos sobre o percurso histórico de povos e lugares e tempos mais diversos, colocomonos aí como seres aprendentes, sempre em busca de tercer as várias dimensões do tempo (passado-presente-futuro), buscando nesta diversidade fios de unidade, que nos façam, ao mesmo tempo, diversos e unos, irmanados com a Mãe Natureza e com os nossos ancestrais. Ao mesmo tempo também somos seres de desejo, de sonhos, de utopias, razão por que nos sentimos vocacionados à liberdade, vale dizer seres criativos e inventivos, impulsionados pela busca do lemo, das artes, do “inédito viável” (Paulo Freire).

– A sociabilidade que almejamos ir construindo pressupõe protagonistas – mulheres e homens – livres, autônomos, que priorizem a vida comunitária, promovendo, ao mesmo tempo, a dimensão pessoal de cada protagonista, assegurando-lhe condições favoráveis de desenvolvimento de suas mais diversas potencialidades, com o que poderá melhor contribuir com as distintas comunidades, de que é parte viva. Tais aquisições, porém, não se dão espontaneisticamente nem por acaso. Antes, são expressão e resultado da dinâmica interação dos processos organizativo, formativo e de luta. Eis o útero social em que se forjam as condições de Liberdade, horizonte maior, para o qual se orientam tais sujeitos históricos revolucionários, também por vias de liberdade, e só por estas vias: em vão se pretende alcançar horizonte de Liberdade, a não ser por caminhos também de Liberdade.

Sujeitos revolucionários não se improvisam. Nascem da articulação permanente entre os processos organizativo, formativo e mobilizador. No processo formativo, por exemplo, tais sujeitos passam por uma formação contínua, protagonizada pelas forças sociais ou pelas organizações de base que tratam de assegurar, ao longo da vida de seus militantes, condições educativas, na perspectiva da Classe Trabalhadora. Nos diversos espaços formativos, são trabalhados cuidadosamente, no conteúdo e na metodologia, temas e questões tais como: A memória histórica, biografias de revolucionários e revolucionárias de referência, critérios de análise de conjuntura, estudo e discussão de temas e desafios relevantes da atualidade, principais obras dos clássicos, relações sociais de gênero, de etnia, de espacialidade, de geração, subjetividade, relações cósmicas, ecologicas, mística, evolucionária….

De que modo tais valores e critérios se materializam (ou devem) materiarlizar-se nas relações cotidianas dos sujeitos revolucionário? Eis o que buscamos explicitar, a seguir nas várias dimensões da realidade.

1) Na esfera da produção – Começamos por perguntas do tipo: O quê produzir? Para quê (m) produzir? Quem e como se ocupará desta produção? Trata-se de apenas de alguns dos questionamentos que nos devem ocupar, nesta esfera da realidade.

Tomando em consideração os critérios e valores acima referidos, os sujeitos históricos, dispostos a retomarem, em novo estilo, passos em vista de uma sociabilidade alternativa ao modelo vigente, cuidam de ficar atentos, em primeiro lugar, ao sentido de sua convivência, em harmonia, não apenas com os humanos, mas igualmentem com toda a comunidade dos viventes.

Tal consciência ilumina as decisões também no plano da produção. O sentido desta, por exemplo, nada tem a ver com a avidez de acumulação de riquezas e bens, a serem apropriados e utilizados por poucos, em prejuízo das maioria de humanos e da Mãe-Natureza. Tanto coletivamente quanto no plano pessoal, o (con)viver bem (“Bien Vivi”)“ não depende de acumulação ou de concentração de riquezas e de bens, mas orienta-se a satisfazer as necessidades materiais do (co)existir. Nâo se precisa de supérfluos, tão pouco de esbanjamentos, ou desperdícios.

Nessa direção, é fundamental decidir-se coletivamente o quê é importante produzir, levando-se em consideração as reais necessidades materiais de cada um e do conjunto dos humanos e dos demais viventes, bem como a dignidade do Planeta (nada de produção que implique degradação das condições da Natureza – das fontes de água, dos rios, dos mares e oceanos, das florestas, do subsolo, etc., por conta do excesso ou das formas de exploração adotadas em funão do lucro… Também, nada de produção que implique a desfiguração dos humanos, a exemplo do trabalho escravo e das incontáveis e graves manifestações do trabalho precarizado, de que é impactante expressão o filme-documentário “Da servidão moderna”, cf.:

No caso da formação econômica do Brasil e de outras sociedades colonizadas, a precarização do trabalho é algo inerente, por exemplo, à lógica da monocultura. Não é por acaso, que a monocultura demande uma estrutura escravagista ou algo parecido. A lógica do monocultivo manifesta-se multiplamente danosa, seja em relação à Mãe-Natureza, seja em relação especificamente aos humanos.

Eis por que só temos a felicitar as numerosas iniciativas de multicultivo, de cuidado com o solo, com a vegetação nativa, de convivência com o Semiárido, respeitando-se os manejos a agroecologia – experiências que se têm multiplicado, mas que ainda representam um enorme desafio, a compará-la com o hidro-agronegócio…

Outro ponto a merecer atenção especial tem a ver com a relação cidade-campo. Não raramente, se constata um enorme fosso entre a vida da cidade e a vida do campo, quando, de fato, é a sua interrelação qu se deve destacar, afinal, “Se a roça não planta, a cidade não janta”; “Se destruírem a roça, a cidade não almoça”… Mas, tal interrelação vai muito além de um patamar estritamente econômico, de modo a alcançar outras esferas do (co)existir, inclusive a dimensão estética e do Sagrado…

Nas mais distintas experiências de produção, seja nas atividades extrativas, na agricultura; seja nas atividades de produção artesanal; seja nas atividades de transformação industrial; seja na área da troca, na área da oferta de serviços, seja ainda no terreno do consumo, uma condição sempre relevante com que se preocupar, prende-se a fazer valer, na ampla diversidade de atividades produtivas, critérios equânimes de distribuição de riquezas e bens, de modo a evitar-se o império das odiosas desigualdades sociais e suas nefastas consequências para o Planeta e para toda a comunidade dos viventes.

2) Na esfera política – Para sujeitos históricos que se pretendam revolucionários, resulta urgente e primordial a tarefa de testemunharem, também no campo da Política, atitudes e ações alternativas ao modelo vigente, sem pretenderem, primeiro, “desbancar” o velho Príncipe, para só então, implantarem o “milagroso” modelo alternativo. Trágico equívoco seria cometido, e não pela primeira vez… Ou bem ensaiam, coletiva e pessoalmente, desde já, passos de alternatividade ao modelo combatido, ou virariam letra morta seus planos miraculosos, de mudarem, de repente, “água em vinho”… A este filme, aliás, já assistimos…

No espectro organizativo, por exemplo, consoante os critérios acima mencionados, os sujeitos históricos revolucionários parte dos “de baixo”, arrancam desde a base, fazem sua ação revolucionária brotar de pequenas comunidades – coletivos, círculos de cultura, conselhos populares, célula ou que outros nomes tenham. Coletivos fundados e mantidos duradouramente, espalhados por locais de trabalho, de moradia, de estudos, etc., ciosos de sua autonomia relativa, em que todos os participantes têm voz, vez e voto assegurados, enquanto protagonistas do processo. Para aí são trazidos e compartilhados as mais diversas questões relativas à conjuntura, às atividades programadas, à avaliação, e tomadas decisões. Não se tratando de orgãos estanques isolados, tratam de se conectar com as demais instâncias, por meio de delegados e delegadas eleitos. Funcionam com periodicidade semanal ou quinzenal, elegendo-se uma coordenação por um prazo determinado, findo o qual tais coordenadores voltam para a base, enquanto membros da base são eleitos para coordenação do período seguinte. Trata-se de mecanismos (a delegação e alternância de cargos e funções) de considerável potencial revolucionário. A estes mecanismos, associa-se ainda seu investimento no autofinanciamento, isto é, na iniciativa de manter suas atividades, sem depender do Mercado ou do Estado, mas dos tostões arrecadados de seus próprios membros, de acordo com suas possibilidades.

3) – Na esfera cultural – Nos processos organizativos, formativo e de luta, os sujeitos históricos revolucionários vão se forjando, no enfrentamento dos desafios do cotidiano, para o que resta determinante a articulação adequada das atividades mais diversas, cumpridas nas distintas esferas da vida. No caso da esfera cultural, mais diretamente, cuidam de lapidar sua condição de seres humanos, por meio do exercício de distintas atividades. Aprendem, dia após dia, a superar a falsa dicotomia estabelecida pela ideologia dominante, entre trabalho manual e trabalho intelectual. Temos de trabalhar com as mãos (e com a cabeça) nas tarefas caseiras, preparando a comida, cuidando da limpeza, trabalhando na roça, na oficina, praticando exercícios físicos. Aprendem a contemplar a natureza, por meio da qual também vão aprendendo a contemplar o belo, inclusive exercitando-se nas mais distintas linguagens artísticas. Em um de seus escritos de juventude, Marx aludia a uma das crueldades infligidas pelo Capitalismo: a de inviabilizar a parcelas expressivas de trabalhadores a oportunidade de contemplação artística – de contemplar um quadro, a de fruir um prato de fina culinária… Não importa qual seja a forma de linguaem artística – poesia, literatura, desenho, pintura, escultura, arquitetura, cinema, fotografia, dança, música… -, o ser humano não se humaniza sem recorrer também às artes, pela produção, pela contemplação, pela fruição.
Ainda no campo cultural, vale ressaltar a importância das atividades voltadas ao aprimoramento contínuo da capacidade perceptiva, de modo a que o ser humano seja capaz de ver melhor o que antes não percebia, ou percebia mal; o de escutar coisas novas, o de ler, interpretar e extrair ensinamentos concretos dos sinais dos tempos. Por meio do aprimoramento constante dos sentidos, da observação, e registro dos acontecimentos, os sujeitos históricos revolucionários também vão tendo condições crescentes de, não apenas lerem a realiade, mas também de reescrevê-la.

Considerações complementares

Diante de velhos desafios ainda largamente remanescentes, aos quais se agregam tantos outros de novo tipo, em vão, espera-se de nossos melhores clássicos, que dêem conta do enfrentamento de questões como a necessidade e urgência de um novo tipo de militância, cuja formação adequada já não se deve restringir à formação política, mas, antes, ensaiar passos em direção a uma formação integral – da qual fazem parte, além da Política (apenas uma dimensão do ser humano), outras tantas dimensões, capazes de testemunhar um compromisso pessoal e coletivo de ir mudando a realidade, a partir de passos novos, coerentes com o sonho que almejam. Compromisso a ser cotidianamente renovado, pessoal e coletivamente, pelo exercício da místia revolucionária, de modo a refletir-se nos processos organizativo, formativo e de luta.

No que se refere especificamente ao processo de mobilização ou de luta, na próxima sexta-feira, dia 30/06, está prevista uma greve geral, instrumento necessário e oportuno para se fazer frente ao desmonte acintoso de políticas públicas essenciais. Com efeito, não bastassem as escandalosas falcatruas em que está metido o presidente Michel Temer, em escancarado conluio com o que há de mais asqueroso do meio empresarial, eis que se acha em curso um brutal desmonte dos direitos sociais (trabalhistas, previdenciários e outros) dos trabalhadores brasileiros, protagonizado pelos aliados de Temer, no Congresso e fora dele. Diante de tão grave ameaça à já frágil democracia brasileira, impõe-se aos sujeitos históricos revolucionários manifestarem públicamente, quantas vezes isto for necessário, não apenas sua indignação e sua revolta, como sobretudo irem forjando caminhos de superação, para além da pauta oficial.

João Pessoa, 28 de junho de 2017

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Alder Júlio Ferreira Calado, sociólogo e educador popular.

Seções: Cidadania, Sociologia.