Somália: ONU alerta para problema crescente das ‘crianças-soldado’

As Nações Unidas pediram esta semana a suspensão imediata do recrutamento e uso de crianças-soldado na Somália, onde a prática é crescente e afeta crianças de até nove anos de idade. “Ficamos chocados ao saber que o recrutamento e uso de crianças como soldados por grupos armados na Somália está aumentando”, afirmaram a Representante Especial do Secretário-Geral para Crianças e Conflitos Armados, Radhika Coomaraswamy, e o Diretor Executivo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Anthony Lake, em declaração conjunta. “Todas as partes do conflito estão envolvidas. Em alguns casos crianças e jovens de até nove anos de idade estão sendo recrutados”.

Relatórios recentes indicam que as escolas estão sendo utilizadas como centros de recrutamento e que as crianças-soldado são frequentemente espancadas ou executados quando capturadas. “O uso de crianças por forças e grupos armados é um crime de guerra. É preciso parar imediatamente”, afirmaram os representantes, que instaram todas as partes a libertar as crianças e garantir que os responsáveis sejam levados à justiça.

No começo dos anos 1990, mergulhado no caos e sem um poder central, o país foi o primeiro a sofrer uma intervenção oficial da ONU, a partir do envio de um contingente militar de 28 mil homens, com o objetivo de restabelecer a entrada de alimentos e acelerar o processo de desarmamento das facções que se encontravam em luta. Até aquele momento, por conta da guerra civil, 300 mil crianças somalis morreram e 1,5 milhão de habitantes – um quarto da população – havia abandonado o país.

Em 1992 iniciou-se, a partir do sul, uma ação humanitária da ONU, encabeçada por tropas dos Estados Unidos. Embora conseguisse diminuir a fome no país, a operação foi considerada um fracassada. Os estadunidenses deixaram o país em março de 1994. Isolada, a ONU acabou por retirar-se oficialmente em março de 1995. O país enfrentava muitas divisões internas, como a declaração de independência da Somalilândia, ex-colônia britânica, em 1994.
A ONU interveio para a formação de um governo, sem ter êxito.

Situação humanitária na Somália tem se agravado e demanda atenção da comunidade internacional, alertou a ONU esta semana. Foto: UNHCR/E.Hockstein

Situação humanitária na Somália tem se agravado e demanda atenção da comunidade internacional, alertou a ONU esta semana. Foto: UNHCR/E.Hockstein

Em março de 1993, um grupo de chefes militares, de membros de conselhos de anciãos e de cidadãos notáveis acordou a criação de um governo provisório durante as conversações promovidas pela Organização em Adis Adeba. O acordo previa a instituição de um Conselho de Transição Nacional, investido da autoridade nacional máxima. Sem prazo para a instituição do Conselho, violentos combates ocorreram entre forças da ONU e do líder Mohamed Farah Aidid, considerado pelos EUA uma ameaça à paz.

A ONU decidiu encerrar, neste momento, a intervenção, mas nunca deixou o país. Foi o caso do estabelecimento de um programa de ajuda aos refugiados em 1997, a partir das inundações neste ano que deixaram 230 mil somalis isolados nas regiões meridionais. Os Estados Unidos, por sua vez, também não abandonaram seu viés intervencionista, mas desta vez especulando que a Somália poderia abrigar, em 2001, terroristas da organização terrorista Al Qaeda.

Crise humanitária ainda é uma das piores do mundo

Atualmente, a Somália continua a ser atingida por combates entre as forças governamentais e rebeldes islâmicos. A região do Chifre da África, como é conhecida a península somali, continua abrigando uma das piores crises humanitárias do mundo, com 1,4 milhão de pessoas internamente deslocadas (IDPs), cerca de 570 mil refugiados e cerca de três milhões de pessoas dependentes da ajuda humanitária. “O uso de crianças como soldados é uma tragédia para a Somália no presente. A menos que sejam tomadas medidas urgentes, também pode ameaçar a estabilidade futura do país”, alertaram. “As crianças e os jovens são a maioria da população somali e merecem uma infância livre do terror do conflito armado”.

Os dois representantes da ONU manifestaram a disposição e prontidão em ajudar na recuperação dos direitos das crianças somalis e reintegração em suas comunidades. “Apelamos também à comunidade internacional – principalmente aqueles que apoiam as partes em conflito – que condene e use sua influência para pôr um fim a esta prática”.

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