Soltando as amarras da falta do perdão…

Reflexões e ressonâncias a partir da leitura de RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento, Campinas: Unicamp, 2007

A relação de alteridade saudável entre seres humanos é horizontal; a falta a verticaliza: rebaixa o ofensor à uma posição de dívida e culpa diante do ofendido que, em posição de superioridade, detém o poder de cobrar, acusar e relembrar a falta, vez após vez, eternamente.

A confissão da falta e a responsabilização pelas consequências por parte do agente produz pontes de integração que eliminam o abismo entre a inocência e a culpa, ligam o ofensor à ofensa, mas o colocam num espaço de solidão, combate, pensamentos reflexivos, fracasso, sofrimento, medo e morte.

Como lidar com a falta, uma vez que ela é uma ausência de algo positivo que deveria ocorrer? Se ela é a infração de limites e normas, que regras alcançariam os seus efeitos ilimitados? Não há justificações, desculpações ou sanções bastantes para apagar a ligação do agente com sua falha.

Somente o perdão desvincula o sujeito de sua falta, por considerá-lo capaz de algo além do erro cometido, e desfaz o aprisionamento da dívida e da culpa que paralisam a capacidade de seguir adiante com novas iniciativas e ações. Por essa causa, a presença da falta pressupõe a existência do perdão, o qual pode resgatar o devedor desse espaço sombrio e restituir a relação saudável.

Diante do perdão, a pessoa agredida decide dar conta, ela mesma, dos efeitos negativos que a ação do ofensor lhe trouxe, independentemente de quando e se o ofensor estiver disposto a fazer algo. Afinal, ela também se reconhece imperfeita, frágil, passível de erros, competências e dons que ora agraciam pessoas, ora também necessitam de perdão de outros.

Esse reconhecimento mútuo dá presença ao outro, substitui a luta e a competição, por uma reciprocidade que apazigua e alivia a tensão conflituosa entre os extremos da generosidade e da obrigação. Somente nesse movimento empático é que os julgamentos dão lugar à solidariedade, à compaixão, ao amor, ao perdão, que conduzem à liberdade e ao bem-estar mais profundo de todos. Trata-se de um acontecimento milagroso na memória associado a um esquecimento feliz, bem diferente daquele “apagamento” artificial, forçado e adoecedor.

Embora o ressentimento e a vingança tragam um certo prazer pelo poder de prender o ofensor às suas falhas e culpas, o perdão é uma ação de grandeza indescritível, que desce das maiores alturas para liberar a celebração humana do amor, da sabedoria e da alegria que ressignificam o passado, transformam o presente, reconfiguram o epílogo feliz de uma história inacabada, e restauram a esperança para o futuro.

Nesse relacionamento, não há exclusão, desprezo, ou quaisquer outros tipos de exercício de poder, confronto, hierarquização verticalizantes. Pelo contrário, o perdão possibilita lidar com as infrações de normas e violação de limites, sem excluir alguém da convivência horizontal que humaniza.

Há quem questione sobre o perigo da banalização do perdão decorrente dos usos e abusos da memória nessa atualidade virtual, pós-moderna e de “pós-verdade”, repleta de comemorações hipócritas promovidas pelas mídias sociais, onde a culpabilidade e o arrependimento são facilmente “perdoados” através de cenas e ritos estereotipados que mascaram a verdadeira história das pessoas.

Os excessos e as carências nos rituais de comemorações, representam um atentado à memória humana quando consistem em intimidações sutis e violentas, associadas à pressão social e à sedução lisonjeira de celebrar e lembrar somente o que é do interesse de um indivíduo, de uma empresa, do mercado consumista ou uma autoridade política, que coisificam a memória das pessoas em prol de seus interesses.

O perdão permite transformações e uma cura profunda nas memórias, tornando-as felizes; ao contrário do que ocorre quando a mesma é impedida (medicalizada), obrigada (ética e politicamente) ou manipulada (através de práticas sociais), resultando em intenções inconscientes recalcadas, melancolia saudosista crônica e na repetição obsessiva-compulsiva do passado, observável em atos falhos, confusões e desajeitamentos constantes.

Para que o perdão seja puro, um alerta: ele deve ser um acontecimento excepcional, extraordinário, inesperado, impossível, incondicional, voluntário, generoso, desinteressado e espontâneo na trajetória histórica cotidiana; portanto, não pode ser normal, obrigado, tampouco instrumentalizado, mesmo que o alvo seja nobre.

Seja no processo de luto, traumas e sofrimentos, não se apaga com violência uma lembrança, pois, isso só faz com que o passado perdure de forma negativa no presente. Pelo contrário, estimula-se a coragem de lembrar da dor ou da injustiça, não para alimentar ressentimentos de tristeza, cólera e vingança, mas para integrá-la.

Nesse processo, a memória torna-se reconciliada e apaziguada, o sujeito reconhece e cria novos caminhos num horizonte mais amplo, onde brotam milagrosamente alegres e leves o amor, a gratidão e o perdão… como algo transcendente, sempre presente e disponível para inundar a vida de quem quer que seja…

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Mey Pestana é cirurgiã-dentista (FOUSP/1983), Especialista em Aconselhamento e Psicologia Pastoral (EST/2011), Bacharel em Teologia (SBN-FACETEN/2013), Terapeuta Comunitária Integrativa (ABRATECOM/2013), Mestre em Ciências das Religiões (PPGCR-UFPB/2017). Brasileira, caçula de quatro filhos de família imigrante da Indonésia (1960). Casada há 33 anos com Álvaro Cesar Pestana, mãe de Lucas (32) e Gabriela (26). Palestrante e facilitadora de rodas de TCI em Seminários e encontros femininos em todo o país. Aprecia a fé, a arte, boas leituras e amizades.

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