Solidariedade e Terrorismo

PacifistasCIsrael


Carlos Alberto Lungarzo

Anistia Internacional (USA) – 2152711

Fui educada na história judia, uma história de opressão, de carência, de sofrer faxina étnica, de sermos expulsos de uma comunidade após outra. Poderíamos nós estar fazendo estas coisas a outra gente?

Neta Golan, fundadora do Movimento Internacional de Solidariedade

A autora da frase acima não é original, mas é penetrante. De fato, são milhares os judeus de todo o mundo que se preocupam pela transformação da dor e o sofrimento de sua comunidade num instrumento de retribuição e vingança. Dona Hedy Epstein, de 85 anos, sobrevivente do genocídio antijudio dos nazistas, foi impedida em Chipre de embarcar no MV Rachel Corrie, um navio irlandês que, no momento de escrever este artigo, está desacelerando sua marcha rumo a Gaza, para evitar ser pego por surpresa durante a noite.

Apesar de todos os riscos, o cargueiro continua de encontro ao bloqueio contra o qual pode esbarrar no dia sábado 5 de junho. É importante observar que a frotilha da solidariedade continha alguns judeus. Se seu número é pequeno, isso acontece porque também é pequena a coletividade (13 milhões no mundo todo), e porque o terrorismo de estado israelense criou uma “peste emocional” análoga a do nazismo. Mas essa história de solidariedade poucas vezes é narrada.

O Sionismo e o Terrorismo de Estado

O fundador do sionismo moderno, Theodor Herzl (1860-1904) era um civil pacifista. Ele faleceu antes da Declaração Balfour (1917) e, na sua época, cogitavam-se várias soluções diferentes para o povo judeu.

Os sionistas do século 19 pertenciam a diversas correntes e, apesar de influentes, as tendências religiosas não eram hegemônicas. O principal objetivo da reunião da diáspora era a proteção dos judeus contra a perseguição implacável dos países católicos e ortodoxos. O antisemitismo atingiu o clímax nas partes mais modernas do mundo com o escandaloso “caso Dreyfus”, na França de 1894.

Durante décadas, setores diversos do sionismo, incluídos alguns religiosos radicais, repudiaram a ideia de reocupar a região Palestina. Os seculares entendiam a ocupação como uma manifestação de saudosismo e melancolia reacionária, e alguns religiosos a consideravam uma profanação, pois a “Terra Prometida” não poderia ser habitada até a chegada do Messiah.  Os mais esclarecidos compreendiam que seria também um ato de violência contra seus habitantes.

Mas, a procura de um território para um povo (um processo que não acontecia desde o fim das migrações indo-europeias) seguiu várias rotas divergentes.

Os judeus progressistas não sionistas aconselhavam a assimilação aos locais em que viviam, e a transformação da luta contra o antisemitismo numa luta internacional e pan-étnica pela emancipação humana. Esse ponto de vista aparece nos primeiros socialistas, notadamente na chamada “esquerda hegeliana”, com a básica obra de Bruno Bauer A Questão Judia (Die Judenfrage, 1843), e no comunismo, com a réplica a Bauer por Karl Marx, na universalmente famosa Sobre a Questão Judia (Zur Judenfrage, 1844).

Bauer propunha a renúncia do judeu a sua religião, como um caminho para a secularização do estado e sua emancipação, não como judeu, mas como cidadão. Marx considerava isso insuficiente, pois, por exemplo, os Estados Unidos eram um estado secular e não teocrático como a Prússia, mas também aí as pessoas eram discriminadas por sua religião. Como é bem conhecido, Marx afirmava que os judeus não poderiam emancipar-se apenas como cidadãos, mas como membros da Humanidade.  Para tanto, o problema não era afastar-se da religião, mas substituir toda a estrutura social capitalista. Este documento é um dos maiores expoentes do internacionalismo, do antiracismo e do comunismo, como única possibilidade da libertação humana (seja ou não judaica).

Marxistas e anarquistas influíram massivamente no deslocamento de judeus para a esquerda. Os menos radicais propuseram uma forma de sionismo socialista, que construísse vários estados nos países em que os judeus viviam em ghettos. Aliás, outros cogitaram alternativas fora da Palestina, como o Congo e a Argentina.

O trabalhismo sionista enfatizou os traços leigos e proletários da comunidade judia, entrando em conflito com religiosos e classes abastadas, mas também aprofundou o toque nacionalista. Muito antes de 1977, quando perderam o governo de Israel, os trabalhistas já apoiavam à burguesia israelense em sua política de “terra queimada” com os árabes, mas seria exagerado dizer que eles já eram terroristas de estado. A situação mudou após a invasão ao Líbano, e hoje praticamente todo o establishment político israelense apoia as práticas semi-genocidas, embora haja uma minoria crescente de defensores dos DH na sociedade civil.

Terrorismo de Estado Nuclear

Há um fato que não é totalmente certo, mas é muito provável: talvez o Oriente Médio tivesse sido arrasado por uma ação nuclear israelense, se um homem não tivesse revelado ao mundo, em 1986, os secretos da indústria bélica nuclear em Israel: Mordechai Vanunu (n. 1954), judeu marroquino, filho de um rabino, emigrado a Israel com toda sua família quando estava com 9 anos.

Vanunu foi sempre alvo dos serviços de inteligência por seu espírito independente, por sua participação em manifestações e por sua oposição ao militarismo. Deveu abandonar a universidade, mas, entre 1976 e 1985, esteve empregado como técnico no Centro de Pesquisas Nucleares. Foi dispensado em 1985, quando seus chefes acharam que parecia impressionado pelo programa nuclear.

Em setembro de 1986 viajou a Londres, onde informou The Sunday Times dos planos nucleares agressivos do Estado de Israel, e até forneceu fotos por ele tiradas da planta na qual tinha trabalhado. Apesar da cumplicidade de Israel com a falconete britânica Margareth Thatcher, o Reino Unido estragaria sua reputação se permitisse um sequestro em seu território. O Serviço Secreto britânico “se lavou as mãos”, guardou silêncio, e deixou que os israelenses esperassem uma viagem de Mordechai para Roma, onde foi sequestrado e retornado a Israel. A União Europeia protestou, mas Itália se mostrou condescendente. Afinal, era apenas um negócio entre fascistas de credos diferentes.

Em 05/10/1986, The Sunday Times dedicou sua principal manchete às informações de Vanunu sobre o arsenal nuclear de Israel.

Como Israel não aplica a pena de morte (a única foi a do arquigenocida nazista Adolf Eichmann em 1962), o diretor da Mossad, Shabtai Shavit, cogitou, junto com outros, a possibilidade do assassinato extrajudicial de Vanunu. Entretanto, o próprio racismo israelense salvou a vida de Mordechai: os que tinham o poder de decisão concluíram que não era permitido matar um judeu por aquele procedimento clandestino reservado aos “gentis”.

Foi sentenciado a 18 anos de prisão em 1988, após um julgamento secreto, cujas irregularidades (embora menos gritantes) lembram o caso Battisti. Durante a prisão, esteve 11 anos em total isolamento, mas assim mesmo rejeitou tratamento psiquiátrico. Deu muitas amostras de alta moral, como a de declarar à polícia que o povo judeu não precisava ter um estado próprio, e a de recusar-se a falar em hebraico. Antes disso, quando ainda estava livre, Mordechai mudou seu nome para um nome inglês, deixou o judaísmo pelo anglicanismo, e afastou-se de sua família, que tinha uma bem definida identidade judaica, salvo de um de seus irmãos, progressista como ele. Seus valores éticos estavam acima de qualquer contingência involuntária baseada em sangue ou tradição.

Teoricamente, Vanunu foi liberto em 2004, mas continua sofrendo grandes restrições que o tornam um preso em regime aberto. Sua única liberdade é a de morar fora da prisão e deslocar-se pela cidade, mas não pode mudar de domicílio, nem falar com estrangeiros, nem manter contatos por telefone ou e-mail, nem se aproximar de embaixadas. Aliás, continuamente é hostilizado pelo judiciário e a polícia israelense, que aduzem qualquer motivo para novos cargos.

Anistia Internacional protestou pelo tratamento a que foi e é submetido, mas Israel acusou sempre nossa organização de antisemitismo, e dessa vez não foi diferente. Entre 1988 e 2004, foi indicado todos os anos para o prêmio Nobel da Paz. Difícil imaginar alguém que mereça mais um prêmio à Paz, mas a Fundação Nobel se faz de distraída. Afinal, esse prêmio está bastante deturpado e foi dado a grandes genocidas como Henry Kissinger.

Mas, em 1987, ele já tinha recebido o prêmio Nobel alternativo, que foi inventado na Suécia para compensar a parcialidade do prêmio oficial. Além disso, foi nomeado Doutor Honoris Causa pela universidade Norueguesa de Tromsø. Também, em 2005 recebeu o Prêmio da Paz do Povo Norueguês, uma distinção substitutiva para os que são discriminados pela imprevisível fundação. A solidariedade mais forte recebida por Mordechai vem da Escócia, onde foi nomeado (em ausência) reitor da universidade de Glasgow.

O apoio que Mordechai Vanunu recebe é ínfimo, se comparado com o serviço prestado à humanidade. Com efeito, apesar da empáfia dos terroristas israelenses, eles teriam dificuldades atualmente para realizar um ataque nuclear surpresa de baixo impacto. É claro que a divulgação da existência do arsenal nuclear israelense não pode proteger de um bombardeio aberto e sistemático, mas esse tipo de ação teria um preço político mais alto.

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O Movimento Internacional de Solidariedade

O Movimento Internacional de Solidariedade (International Solidarity Movement, ISM) foi fundado em 2001 por cinco pessoas entre as quais há palestinos e judeus, com o objetivo de luta contra o terrorismo israelense por meio da pressão pacífica. Estas pessoas são:

  1. Ghassan Andoni (n. 1956), um ativista palestino cristão e professor de física, indicado para o prêmio Nobel da Paz em 2006.
  2. Neta Golan, uma ativista israelense, que mora em Ramallah e tem dois filhos pequenos com um palestino.
  3. Huwaida Arraf, militante pró-palestina, filha de mãe palestina católica, nascida em Detroit (EEUU). É formada em estudos Árabes e Judaicos, e jurista especializada em crimes de guerra. Está casada com Adam Shapiro. Ela estava no Challenger 1, o maior navio da frota de solidariedade a Gaza.
  4. George N. Rishmawi, ativista palestinos, fundador de vários movimentos pacifistas e de integração entre os povos.
  5. Adam Shapiro, nascido numa família judia de New York em 1972, formado em ciência política e mestre em estudos árabes. Ele disse que não se considera judeu, porque o judaísmo é mais próximo de ser religião que de ser etnia. E acrescenta: “Eu não tenho religião nenhuma”. Ficou célebre por sua incrível coragem ao visitar Yasser Arafat em seu edifício (2002), quando estava cercando pelas tropas israelenses. É o marido de Huwaida.

O ISM convoca civis de todo o planeta, para participar de atos não violentos de protestas contra agressão militar israelense na Faixa de gaza e na Cisjordânia, e tem publicitado sua ação nos países ocidentais, especialmente nos Estados Unidos, ganhando o apoio de setores progressistas ou independentes da comunidade judia. O grupo é um caso relevante de militância dinâmica em DH, uma variedade menos comum que a denúncia e o trabalho jurídico. Entretanto, nunca utiliza a violência, se limitando a repelir ataques com resistência ativa ou passiva, sem uso de armas, o que coloca em risco permanente a integridade física e as vidas dos ativistas.

O ISM foi um dos movimentos organizadores da Frotilha da Liberdade, agredida em 31 de maio pelo ato de assalto, agressão e sequestro marítimo israelense em águas internacionais. [Não se apresse: a palavra frotilha não está em portunhol; é um termo técnico marítimo tomado do espanhol “flotilla”, porém legitimamente incorporado ao português.]

A metodologia do ISM combina tácticas de resistência pacífica (ativa e passiva), apoio pessoal e fornecimento de bens aos palestinos, desacato às leis terroristas, incluído o desafio aos uniformados, e propaganda, agitação e vigilância. Por exemplo:

  1. Proteção Corporal. Alguns dos membros do ISM preferem não utilizar o termo mais comum “uso de escudos humanos”, porque esta expressão foi cunhada para se referir aos palestinos que os israelenses capturam como proteção e obrigam a marchar na frente quando atacam bairros de Gaza e Cisjordânia.
  2. Acompanhamento de Palestinos. O objetivo é dividir com eles as agressões dos colonos, militares e policiais israelenses; ajudá-los a ordenar-se de maneira eficiente para evitar maltrato e humilhações nas filas de controle; arrumar testemunhas e colaboradores nos casos de ataque violento de colonos contra camponeses que realizam a safra, e atividades do gênero.
  3. Remoção de obstáculos. As tropas israelenses e seus colaboradores obstruem ao máximo as passagens pela Cisjordânia, para transformar vilas e pequenas cidades em núcleos isolados, que possam ser atacados facilmente. O ISM trabalha constantemente removendo esses obstáculos à medida que os israelenses os colocam.
  4. Bloqueios Defensivos. O ISM coloca obstáculos que impeçam ou dificultem a passagem de tanques, carriers e máquinas de terraplanagem.
  5. Desobediência Sistemática de Regras Repressivas. Os ativistas do ISM ignoram o toque de recolher nas áreas palestinas. Movendo-se através dessas áreas, podem tomar conhecimento das ações militares dos israelenses, que durante a duração do toque extrema a repressão contra cidadãos palestinos. Também, aproveitam esse período para levar ajuda humanitária aos lares palestinos, e oferecem custódia ao pessoal sanitário que é frequentemente interceptado por israelenses.
  6. Interferência nas Atividades Repressivas. O ISM cria empecilhos, quando possível, às tarefas de construção do muro da Cisjordânia. Também executam atos de vulneração das obras realizadas, tentando tornar menos eficientes o sistema de “apartheid” israelense.
  7. Violação da “Sacralidade” de Zonas Militares. Uma prática típica de militares (não apenas de governos terroristas, mas em geral) é a de transformar zonas civis pacíficas em zonas militarizadas, submetendo seus habitantes a tratamento discricionário, bem no estilo militar. De fato, esta “dessacralização” não é um fim em si mesmo do ISM, mas um processo prévio que permite executar todas as tarefas. De fato, todas as zonas ocupadas podem ser militarizadas a qualquer momento, e fazer ativismo humanitário nessas regiões exige confronto com os militares.

As ações do ISM supõem riscos, mas as tropas israelenses evitam aplicar-lhes os métodos sumários usados com os Palestinos. Vários dos militantes (não conheço a proporção exata) são judeus, e a ideia de matar outros judeus é sempre constrangedora para as tropas israelenses. Isto é uma peculiaridade do estado de Israel, e tem a ver com a unidade étnica que, supostamente, mantém a integridade do estado. Outro motivo é que os membros do ISM, embora ignorados pela mídia, são bem conhecidos na comunidade humanitária e uma “faxina” contra eles poderia produzir uma reação.

Apesar disso, houve uma exceção: uma jovem americana de 23 anos, Rachel Corrie, em cuja homenagem foi dado seu nome ao MV irlandês da Frota da Liberdade.

O Assassinato de Rachel Corrie

Rachel Corrie (1979 –2003) foi uma estudante americana, filiada ao ISM que, no ano 2003, durante a Segunda Onda de Resistência da Faixa de Gaza (Intifada), utilizou defesa corporal contra uma esquadra de operários israelenses comandados por militares, para deter a demolição da moradia de palestinos.

Rachel se interpôs entre a casa e uma máquina de terraplanagem que não deteve sua marcha e acabou a matando por esmagamento. Apesar do desprezo e mal-estar contra o ISM, os israelenses fizeram uma rápida perícia, com o resultado imaginável: atribuíram a morte a um acidente. Por sua vez, várias testemunhas afirmaram que o motorista percebeu claramente a presença de Rachel, e até gritou ela para sair de seu caminho. Afirmam, também, que quando a menina se recusou, o motorista reiniciou a marcha acelerando o motor, e não parou até atravessar o corpo.

A seção dos EEUU de Anistia Internacional, junto com a família, numerosos amigos, e a opinião pública progressista, exigiu de Israel uma investigação rápida, objetiva e independente, mas houve apenas uma repetição dos resultados da “investigação” oficial.

AIUSA, através de Christine Bustany, diretora jurídica de nossa ONG para Oriente Médio, exigiu também que as máquinas de terraplanagem [bulldozers] sejam consideradas armas de guerra, pois, de fato, estão sendo usadas como tais, e que os EEUU suspendam sua transferência ao Estado de Israel.

Por sinal, um dos navios da Flotilha da Liberdade foi batizado MV Rachel Corrie, (V) e, no momento de escrever este texto, avança a uma velocidade entre 8 e 9 nós, com uma pequena passagem de malaios e irlandeses na rota de Gaza, decidido a furar o bloqueio. Sua desaceleração foi calculada para não chegar ao local de abordagem israelense durante a noite “Estamos mais firmes em nossos esforços, em homenagem aos nossos amigos assassinados e feridos” -dizem os tripulantes.

A Marinha Israelense promete atacar este navio, mas os ativistas se propõem não apresentar resistência ativa, e confrontar as tropas invasoras, se houver, ficando sentados no convés. Mairead Maguire, vencedora do Nobel da Paz, em 1976, e Denis Halliday, um ex-funcionário graduado da ONU, um dos diretores mais influentes no passado, também viajam no navio.

Um vídeo sobre Rachel Corrie e o cargo que leva seu nome pode ser visto em meu site.

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Conclusões

Depois do assalta e chacina do dia 31 de maio, o bloqueio de Gaza deverá sofrer alguma modificação. Até os falcões do governo racista e militarista estão considerando alguns subterfúgios para tornar o lento genocídio palestino menos visível. Obviamente, isso deverá conduzir também a uma menor crueldade no tratamento dos habitantes de Gaza.

Entretanto, novas iniciativas como esta devem ser adotadas. Os ativistas humanitários não querem ser heróis nem mártires, mas apenas pessoas solidárias que sabem que morrer é um risco de qualquer forma de vida animal, e que, já que a morte é inevitável, devemos ser sensatos no momento de avaliar quando é o momento de se arriscar a vida. E este momento é um desses, como o foi a luta dos pacifistas indianos, a resistência antinazista e a colaboração das Brigadas Internacionais contra o criminoso levantamento espanhol de 1936.

Não temos a mentalidade militar de que as vidas humanas são como munição ou vitualha: não importa perder 20 vidas se ganhamos uma batalha política. Isso é repulsivo e arrepia nossa condição, não apenas humana, mas também biológica. Os membros de missões humanitárias não querem morrer nem matar. Repudiam os valores infames do militarismo, o nacionalismo, o racismo e o providencialismo. Querem viver o mais possível, mas que nossas vida sejam preservadas não depende apenas de nós.

Era esperável a reação tímida dos governos, salvo o da Turquia, porque as relações internacionais nada têm a ver com os proclamados valores de paz, justiça e Direitos Humanos, mas têm tudo a ver com negócios e trocas de favores. Entretanto, o pouco que está sendo feito é melhor que nada.

O governo brasileiro, segundo pude inferir de informações ainda não muito claras, chamou seu embaixador em Tel Aviv. Mas essa atitude deveria ser completada pela quebra definitiva de relações com Israel. Países pequenos e com maiores problemas que o Brasil, como Venezuela e Bolívia, já fizeram isso durante o massacre aéreo de 2008-2009.

Essa medida, pacífica e moralizante, será melhor que ajudar a desenvolver sua energia nuclear ao governo dos Aiatolás, cujo fundamentalismo antisemita está alicerçado na mesma crença na superioridade nacional que o fundamentalismo cristão ou judeu. Aliás, o projeto de destruição do Estado de Israel é absurdo, porque, após várias décadas, existe uma identidade israelense em gerações que não tem nenhuma responsabilidade na partilha dos anos 40. Acreditar isso é aplicar punição coletiva, na mesma forma em que o partido Likud a aplica contra os palestinos.

Nosso MRE tem as boas (e proveitosas) intenções de sermos “amigos de todos”, como diz o ministro Amorim, com sua habitual elegância. Mas nem sempre isso é possível.