Solidariedade

A questão fundiária no Brasil é profundamente problemática, já na sua origem. A coroa portuguesa doou grandes extensões de terra – capitanias hereditárias – a apaniguados, na tentativa de facilitar a exploração da colônia. Apenas uma ou duas se desenvolveram.

Os donatários tinham poder absoluto sobre suas terras, e a primeira providência foi escravizar, expulsar ou matar os habitantes naturais – os indígenas, sobre quem tinham o poder de vida e morte.

Esse modelo de posse da terra gerou um terrível legado ao domínio agrário no Brasil, com sérias ressonâncias na economia e na política. Estão bem vivos em nossa história os registros da república “café com leite”, onde a alternância de governos se fazia sem a menor cerimônia, visando apenas os interesses dos grandes fazendeiros.

É recente a expressão de força do latifúndio, participando efetivamente da derrubada do governo democraticamente eleito João Goulart e, consequente desmantelamento dos movimentos de trabalhadores do campo – as Ligas Camponesas. Foi tão cruel a repressão aos camponeses, que depoimentos de remanescentes das Ligas falam em assassinatos de mais de uma centena de homens do campo, no entorno de Sapé, pela polícia e capangas dos latifundiários, após o Golpe Militar de 1964. O êxodo rural, ou mais precisamente, a expulsão do homem do campo então se acentuou, e as favelas das grandes cidades “incharam”. As consequências nós bem sabemos

Portanto a história da terra e sua posse no Brasil é permeada de violência, como se violência e posse da terra fossem inseparáveis.

Por último veio o agronegócio criando os boias frias, trazendo os transgênicos, os agrotóxicos, e limitando o nosso cultivo agrícola a alguns produtos exportáveis (commodities) como a soja, o milho e mais três ou quatro.

O agronegócio se tornou tão poderoso que sua representação no Congresso Nacional chegaria a duzentos parlamentares.

Agora, no dia 26 de outubro último, a proprietária da Fazenda Salgadinho em Mogeiro-PB, após várias tentativas de expulsão dos moradores (nessa fazenda há várias décadas) para lotear essa propriedade, mandou derrubar cercas a fim de possibilitar a entrada do gado e outros animais, tentando destruir as plantações dos agricultores.

Num gesto de efetivo companheirismo juntaram-se agricultores da Fazenda Salgadinho e de outras e foram reerguer a cerca, sendo então recebidos a bala, ficando seis agricultores feridos, um em estado grave atingido com quatro tiros, outro ficou com a mão inutilizada.

Trabalhadores urbanos, Consulta Popular, MST, JUFRA, Grupo de Articulação, CPT, Memorial das Ligas e Lutas Camponesas, Kairós – Nós Também Somos Igreja, se reuniram e foram a Mogeiro prestar solidariedade aos trabalhadores, mais uma vez atingidos pelas balas dos latifundiários.

Levamos a esperança e a certeza de que a união dos trabalhadores do campo e da cidade será invencível, a ela não haverá latifúndio ou sistema econômico que resista. Continuaremos, de mãos dadas, pelejando pela Reforma Agrária, pela manutenção dos direitos trabalhistas, pela democracia plena, pela ascensão de todos a todas as possibilidades.