Sobre O Globo de 20 de junho

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Neste último sábado, dia 20 de junho, foi às bancas uma edição do jornal O Globo com a manchete “Lula: quem desmatou a Amazônia não é bandido”. Devemos admitir, claro, que é absolutamente correto que, nos tempos de hoje, questões ambientais tenham grande destaque na pauta jornalística, especialmente quando a mídia, enquanto mediadora da esfera pública, procura pressionar o governo a adotar políticas ecologicamente corretas. O que não deve ser tolerado, entretanto, é que empresas de comunicação usem dessa incumbência para polemizar algo que não é em nada “polemizável”.

Não sou petista – e muito menos lulista. Por outro lado, sou um daqueles que se esforça ao máximo para ser ecologicamente correto. A questão, no entanto, não tem nada a ver com uma coisa ou outra.

O que me incomoda – e o que me motiva a escrever – é o interesse do jornal em descontextualizar a fala do Presidente, distorcendo suas óbvias intenções (ou as intenções daqueles que prepararam seu discurso, se for o caso). Afinal, não é preciso muito para perceber que Lula não é nenhum ser execrável sem consciência ambiental só por ter dito que “ninguém pode dizer que alguém é bandido porque desmatou. (…) Temos que dizer às pessoas que, se houve um momento em que a gente podia desmatar, agora desmatar joga contra a gente, vai nos prejudicar no futuro”.

 Apesar do subtítulo da manchete (“Para Presidente, desbravadores da região agiram pelo desenvolvimento do país”) e do desenrolar da matéria darem a Lula um ar de protetor dos “bandidos” que desmataram a Amazônia, é preciso perceber que o que ele quis relatar foi simplesmente a mudança de um pensamento e de uma atitude culturais. Seria correto, afinal, dizermos que os precursores das revoluções industriais foram bandidos por terem poluído o quanto poluíram? Certamente não.

O que precisamos ter em mente é que houve, recentemente, uma mudança simbólica coletiva de preocupação com o meio ambiente e com os recursos naturais. É certo que foi (e ainda é) uma mudança forçada por tantos desastres naturais, mas é também do Homem precisar errar para aprender (ou não). E é a partir daí que surgem as noções de marketing verde, do consumidor consciente, da Amazônia como patrimônio mundial, da importância dos combustíveis menos poluentes, do incentivo aos meios de transporte públicos e alternativos.

É por isso, então, que precisamos entender que o “bandido-desmatador” é apenas uma construção social. Pensando em Foucault, podemos dizer que é uma nova classificação que vai, portanto, afetar seus classificados. Ninguém, hoje, quer se enquadrar como poluidor e todos vão, assim, tentar se afastar desse modelo de comportamento, buscando uma tal normalidade. Precisamos sim relativizar para compreender que os bandidos de hoje foram, afinal, os heróis desbravadores de ontem.

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