Sobre a Síria

Apesar de ser um regime militar de base alauíta, a Síria, desde 1970 é uma ditadura laica (não que antes não o fosse).

Ela se apóia, além dos militares,no seu serviço de segurança e nas burguesias comerciais sunitas, e em menor escala, cristãs greco-ortodoxas, de Alepo e Damasco (que eram cidades rivais) e curdas (o país jé teve um ditador curdo assassinado no Brasil em 1964).

Não podemos esquecer de uma pequena minoria judia de Alepo, que forneceu grande número de migrantes para Sidon, no Líbano, dos quais o mais conhecido mundialmente é o clã Safra.

O regime jamais promoveu qualquer forma de sectarismo. Nestes aspectos, o regime de Bassar al-Assad é muito semelhante ao de Saddam Hussein, que governou o Iraque de 1969 a 2003. Saddam foi acusado, no entanto, de dirigir uma ditadura “sunita” que oprimia os “xiitas”, tese absurda que até a “esquerda” engoliu, dando o aval para o genocídio promovido pelo Irã e EUA a partir de 2003.

(Há, sim, ainda há “esquerdistas” que continuam a afirmar que os “cristãos maronitas” oprimem a maioria muçulmana … 28 anos após a Guerra das Montanhas).

Países sectários e racistas são o Líbano, Israel, Irã e Arábia Saudita (excluindo a Europa e a América Saxônica, but of course).

O Líbano é peculiar porque nem “xiitas” e nem “sunitas” querem ver um ou outro no poder, então preferem que os maronitas permaneçam na presidência, dando continuidade à política sectária. Os maronitas mandam tanto que dois presidentes (o cargo é provativo dos maronitas) foram assassinados, sem que seus responsáveis fossem presos, e um outro foi boicotado internacionalmente sem qualquer constrangimento dentro do Líbano.

Mas, o Líbano não é ameaça alguma ao mundo árabe, talvez seja uma ameaça apenas aos próprios libaneses.

O mesmo não se pode dizer de Arábia Saudita, Irã e Israel, uma espécie de eixo desestabilizador do mundo árabe, por incitarem o sectarismo confessional e atentarem contra o pluralismo étnico dos países árabes (neste sentido, converegem com a política dos EUA).

Arábia Saudita promove o banho de sangue no Bahrein. Os sauditas não perdoam os EUA pela queda de Mubarak no Egito. O massacre também se estende ao Yemen. Mas as manifestações continuam no Marrocos, assim como a guerra civil na Líbia, atacada pela OTAN.

É muito provável que o regime wahhabita (e aliados) esteja por trás das manifestações contra o regime de Bassar Assad na Síria, por intermédio do Líbano, com a figura de Said Hariri ( o clã Hariri financiou um grupo salafista no norte do Líbano, há 4 anos atrás, esmagado pelo exército libanês). Nem todos os manifestantes sírios são salafistas, muitos estão realmente cansados de 40 anos de ditadura sem reaverem as Colinas do Golã, sem paz formal com Israel e sem Alexandreta, com poucos ganhos sociais e econômicos.

A Síria também passou a adotar reformas neo-liberais no início da década de 2000 com resultados pouco alentadores, fazendo apenas a renda se concentrar numa minoria, uma burguesia comercial (de origem sunita) agora financeira.

Devido à sua posição geográfica, a Síria sempre sofre pressão por todos os lados. O país passou por tremendas pressões geopolíticas nos últimos 12 anos: como o governo W. Bush, francamente hostil a Damasco, a invasão anglo-americano-irianiana do Iraque em 2003, as resoluções da ONU exigindo a retirada de tropas sírias do Líbano em 2004, os ataques de Israel em 2003 e em 2007, a invasão israelense ao Líbano em 2006, os massacres israelenses contra os palestinos na Faixa de Gaza desde 2000. Uma pressão espetacular que o pai de Bassar, o temível Hafez também havia sofrido na década de 1980.

Há quem diga que Israel apoie a atual ditadura dos Assad. É possível, mas, Israel nada fará para estabilizar a Síria, pois segue uma política externa que aposta no “quanto pior melhor”. Israel jamais escondeu o desejo de ver o mundo árabe estilhaçado em pequenos Estados étnico-confessionais, à sua imagem e semelhança. O que explica sua aliança tácita com o Irã dos aiatolás. O que explica também os assassinatos que cometeu contra Bachir Gemayel e Rafic Hariri para destruir o Líbano e também contra Abbas al-Mussawi e Imad Mughnieh, líderes do Hizbollah.

O Irã, por sua vez, promove o regime sectário no Iraque, após patrocinar a limpeza étnica e o genocídio de mais de 1 milhão de iraquianos com apoio dos EUA.

A contra-revolução prossegue, num banho de sangue, numa forma dos EUA e aliados locais compensarem a perda do brigadeiro-ditador Mubarak, líder do Egito desde 1981, pilar do poder americano na região.

Esperemos que as revoltas populares não resvalem para o sectarismo, seja na Síria ou em qualquer parte. Estas revoltas não podem servirem de justificativa para a destruição dos países árabes.

Esperemos que a esquerda aprenda que apoiar regimes ou grupos sectários, em nome da luta contra o imperialismo, é o melhor caminho para as salas de tortura ou o cemitério. Não esqueçamos o regime de Khomeini, ainda hoje no poder e ainda hoje adorado pelos “anti-imperialistas”.

Leia também: El tablero de ajedrez sirio

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Mestrando em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) e Especialista em História das Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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