Sobre a hipocrisia

Há uma passagem em “A Insustentável Leveza do Ser”, célebre obra de Milán Kundera, na qual o autor diz o seguinte:

“É curioso, as pessoas usam palavras grosseiras o dia inteiro mas, quando ouvem no rádio alguém conhecido – e a quem admiram –  pronunciando a palavra “merda” em cada frase, sentem-se decepcionadas.”

Vale contextualizar a frase transcrita: a história de Kundera se dá em Praga, República Tcheca, na década de 60, quando a Rússia invadira o país e passara a exercer forte controle político-ideológico. Um dos protagonistas, Tomás, após ouvir no rádio um diálogo entre um famoso romancista e um professor, em que o primeiro havia falado alguns palavrões, fica indignado com o fato de que uma conversa ocorrida dentro de casa não só fora gravada pelo serviço secreto russo como divulgada por um meio de comunicação de massa.

Reside aí explicitamente uma crítica do autor à hipocrisia (social), que é um dos elementos centrais nas discussões filosóficas empreendidas no livro a partir dos conflitos de relacionamento entre casais e amantes. Mas, fundamentalmente, o livro discorre acerca da blindagem social a que todos as pessoas estão submetidas (ou, pelo menos, todas aquelas que vivem numa sociedade).

Comportamentos, atitudes, posturas e até identidades são adotadas pelas pessoas de acordo com a ocasião: seja antes, durante e após o sexo, seja nas relações de trabalho e família. E isso – é bom avisar de antemão – não pode ser tachado de dissimulação ou pura hipocrisia, pois as convenções sociais e outros protocolos que regem padrões de comportamento não estão aí por acaso: são modelos que organizam as relações humanas, contribuindo para a vida em sociedade ao gerar, por exemplo, uma economia da comunicação.

Porém, há duas observações que devem ser feitas quanto a esses modelos de conduta: primeiro, que sua naturalização – quando o discurso hegemônico lhes retira do campo da cultura e os insere num plano biológico, ou os fundamenta de acordo com preceitos religiosos – configura sempre um risco à liberdade humana, ao impor limites à diferença, isto é, a tudo aquilo que transgride condutas pré-estabelecidas, sendo julgado, a priori, como um comportamento marginal e reprovável.

A segunda observação retoma a questão da hipocrisia. Na sociedade humana, atitudes, posturas e comportamentos foram, com frequência, pré-julgados, avaliados e/ou condenados por autoridades, grupos sociais, elites, etnias ou doutrinas religiosas. Embora isso seja inevitável, já que, na vida social, não é possível que cada um faça o que quer e à sua maneira, é importante atentar para o fato de que aqueles que julgam, avaliam e condenam também são seres humanos, estando sujeitos, portanto, às mesmas “falhas” de conduta que criticam veementemente.

Sem entrar no mérito de que há falhas e falhas, algumas mais graves, outras nem tanto, chamo atenção aqui para uma questão central: dificilmente um indivíduo passa a vida inteira sem transgredir normas sociais – sejam elas leis, questões de bom senso ou pura etiqueta. E, não raro, muitos daqueles que vivem a pregar por aí o que deve ou não ser feito, às vezes, de maneira intolerante e totalitária, são os que, por trás das cortinas do teatro social, agem de forma “reprovável”. Padres que abusam de criança, rabinos que roubam produtos em lojas e políticos – estes sempre engravatados com seu terno Armani e com fala pomposa – que desviam milhões para sua conta bancária são exemplos já bem conhecidos.

Com perdão do clichê, vale, portanto, recorrer a um velho ditado, o qual, por sinal, originou-se de uma passagem bíblica: “que atire a primeira pedra aquele que não tiver teto de vidro”.

Mas ter teto de vidro não é vergonha alguma: somos animais dotados de subjetividade e sexualidade. Viver num plano cartesiano, em total acordo com regras é um desafio à própria natureza humana. Soma-se a isso o fato de o homem ocidental ser regido por uma moral cristã que lhe infunde um sentimento de culpa há séculos; sentimento este que ainda tem claras implicações sociais, como o lugar e conduta que a mulher deve ter socialmente.

Nelson Rodrigues dizia que se todos conhecessem as fantasias sexuais de cada um, ninguém se falaria na rua. Pode-se, porém, ir ainda mais longe: bastaria, talvez, que cada um soubesse o que todos fazem em sua intimidade; ou que todos lessem os pensamentos dos outros. Insustentável… Ou seja, o ser humano, a despeito de suas virtudes e qualidades, carrega consigo segredos “sujos”, não necessariamente antiéticos ou que beiram a ilegalidade, mas simplesmente impossíveis de serem tolerados ou compartilhados socialmente.

No universo totalitário em que se passa o romance de Kundera, a hipocrisia era institucionalizada: no Kitsch comunista, que tanto afetava Sabina, só podiam existir sorrisos, aplausos e um (pseudo) sentimento de satisfação pessoal e coletiva.  Como poderia assim responder à realidade, cuja imperfeição (ou conceito de imperfeição) lhe é inerente? Seria possível falar em ideal sem que existisse aquilo que o homem categorizou como imperfeito? Quem disse que a felicidade não se alcança por meio dos erros, ou por atos imprevisíveis?

Hipócritas de plantão: deixem as pessoas escreverem reto por linhas tortas.

Cometer erros é inevitável.
Evitável é propagar idéias e posturas que são paulatinamente descumpridas por seus arautos.
Vide:
a) Lula propagando socialismo e enchendo as suas contas e a de seus filhos de dinheiro.
b) Fidel usando agasalho da Nike e pregando o fim do capitalismo.
c) Sociólogos, professores e pseudo-intelectuais defenderem com unhas e dentes o socialismo mas assistirem “will & grace”, “os simpsons”, “mtv” e terem arrepios de pensarem em dar seus salários para os outros. Viva la revolución! Desde que ninguém tire dinheiro de mim.

Isso é hipocrisia.

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