Sim, a revolução machuca mesmo

Na última semana, cerca de 200 pessoas que protestavam contra a CPI dos ônibus no Rio de Janeiro fecharam a Av. Rio Branco, uma das principais vias do centro da cidade.

O acontecimento, que acabou prejudicando o já caótico trânsito da capital fluminense, foi o estopim para que alguns colunistas de jornais voltassem a clamar pelo fim dos protestos que vêm ocorrendo desde junho, sugerindo que a paciência da opinião pública já está próxima de seu fim.

Eles criticam o fato de que, apesar de esvaziados, os movimentos de rua seguem gerando danos à cidade, seja ao patrimônio público/privado, seja inibindo o direito de ir e vir da população.

A revolta com esse último caso foi tamanha que a Polícia Militar chegou a sugerir a criação de um espaço específico – uma espécie de “manifestódromo” – para as pessoas protestarem (uma ideia estapafúrdia, que fere, inclusive, o chamado “direito de reunião”, previsto pela constituição).

É claro que ninguém quer ver a cidade depredada ou parada. Mas recriminar as últimas manifestações por tais razões, reduzindo-as à questão da violência e desordem, é, a meu ver, assumir uma posição conservadora, comodista e individualista pelos motivos que seguem:

Em primeiro lugar, cabe destacar que o protesto relacionado à CPI dos ônibus é absolutamente legítimo. Afinal, a comissão corre sério risco de acabar em “pizza”, já que seu presidente, Chiquinho Brazão, e seu relator, Professor Uóston, são da base aliada do prefeito Eduardo Paes. Com um detalhe: Brazão é acusado de ter ligações com milícias atuantes na cidade.

Segundo: aqueles que reclamam dos prejuízos à ordem pública motivados pelos protestos parecem se esquecer de que, no Brasil, políticos são praticamente inatingíveis: não vão presos por nada, não pagam multas ou, se por milagre, são condenados a pagá-las, desdenham da população, fazendo questão de lembrar a todos o quão abastados são e de como “estão se lixando para a opinião pública”.

Como se não bastasse, andam por aí cercados de seguranças, em carros blindados ou em helicópteros, já que, como lembrou nosso prestigioso governador Sérgio Cabral, “o trânsito carioca é muito violento” (por isso ele ia de helicóptero de seu apartamento no Leblon para Laranjeiras, enquanto nós, otários, nos arrebentamos, por horas e horas, no asfalto).

Assim, de que outro modo, senão fazendo muito barulho e “parando” a cidade, poderíamos fazer os políticos nos escutarem?

Sabemos que os partidos trabalham com basicamente uma finalidade: manter-se no poder e atender aos interesses daqueles que os financiam, isto é, grandes empresários. Portanto, pela lógica, se a cidade para, negócios são prejudicados, e seus responsáveis passam exigir providências das autoridades, que, por sua vez, se veem forçadas a atender, ao menos em parte, aos pleitos da população.

Outro exemplo: o pessoal acampado na porta do governador Sérgio Cabral. Estou certo de que, agora, ele pensará duas vezes antes de aparecer na TV com a postura irredutível de sempre, fazendo pouco de reivindicações da sociedade. Há menos de um mês, por sinal, Cabral deu uma coletiva na TV quase chorando, dizendo que tem filho pequeno em casa e blá blá blá whiskas sachê…

Não adianta: não se promovem mudanças sem desordem, sem estragos. Sempre vai doer em alguém.

Cabe lembrar que uma das revoluções mais festejadas de todos os tempos, a Revolução Francesa (1789) – que mudou o rumo das sociedades ocidentais –, foi também uma das mais violentas.

São outros tempos e (assim espero) não será necessário o mesmo grau de selvageria para mudar as coisas. Mas não será sentado no sofá ou reclamando dos poucos que se dispõem a largar tudo para protestar de fato que veremos o Brasil se transformar.

 

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