Sem tempo para recesso

Por João Paulo Cunha

O ano do golpe. O título de 2016, que envergonha o país, deixa marcas de sangue na história brasileira. O impedimento da presidenta eleita sem fundamento legal, em processo conduzido por pessoas sem o menor patrimônio moral, atendendo a uma demanda personalista irresponsável do senador Aécio Neves, inverteu os sinais da ética e pôs os canalhas no poder. As consequências não tardaram.

Objetivo maior de todo o processo, o assalto ao Estado democrático chegou amparado pelo aparato judiciário-policial e pela imprensa hegemônica, com sua construção de uma ideologia que anula a solidariedade em nome da escatologia. Um evangelismo que se titubeia entre laicismo do chamado empreendedorismo (uma metáfora para o “salve-se quem puder e quem não se salvar é incompetente”) e na escatologia do preconceito e da discriminação, com seu poder esgarçador no tecido social e nas conquistas de civilização.

Logo se viu instaurar um projeto antipopular, que fez do falso mantra da austeridade o álibi para a retirada de direitos e submissão ao capital financeiro. O Brasil retrocedeu nas conquistas democráticas, perdeu terreno na luta contra as desigualdades, instaurou um ambiente de violência contra as manifestações populares. Jogou bombas em estudantes, atacou com força policial e tiros a escola do MST, encurralou passeatas com táticas fascistas, discriminou manifestantes pela cor de suas roupas

E não parou por aí: retomou a sanha entreguista em relação ao capital financeiro, instaurou uma atmosfera venal nas negociações parlamentares, atacou direitos sociais. Está claro que esse programa jamais teria aprovação nas urnas, o que aponta para a necessidade de se retomar as eleições diretas como único caminho possível de restauração da institucionalidade. No entanto, independentemente desse caminho necessário, segue urgente o fortalecimento de todas as formas de mobilização contra os retrocessos já operados no campo político, econômico e social.

Há um conjunto de prejuízos impressionante para tão poucos meses de governo não eleito. Um sentido de urgência que só explica pelo misto do gozo em ter o poder nas mãos, ainda mais pelo acesso marcado pela ilegitimidade, e o temor que ele lhe seja arrancado pela reação popular. O golpe não era o fim, mas a estratégia para a reversão da direção do Estado brasileiro, anulando nada menos que o próprio espírito da Constituição Federal de 1988. A disputa que se observa no condomínio do poder, com suas habituais traições, mostra a voracidade do apetite dos vários artífices da reação.

O congelamento dos gastos em saúde e educação, a cruel proposta de reforma previdenciária, o retrocesso na condução da política de exploração do petróleo, a liberalidade em se desfazer do patrimônio das teles em favor de empresas privadas e estrangeiras, a ameaça de desregulamentação das relações trabalhistas, a destruição do potencial estratégico do BNDES. O desmantelamento das políticas sociais, o aparelhamento da Justiça tocado a troca de favores e benesses salariais, o recrudescimento policialesco do Estado. O arbítrio chancelado pela Justiça. A impunidade seletiva.

Resistência

Assim como o assalto ao poder se deu por vias que se somam em sua eficácia, a resistência, sobretudo das esquerdas, precisa se alimentar no mesmo espírito de ocupação de todos os campos. No âmbito institucional e político, reforçando o combate no parlamento e fortalecendo as bases de apoio dos diversos grupos que disputam a hegemonia das políticas de Estado. Na esfera pública, reacendendo a chama dos movimentos populares, ocupando as raias da sociedade e da cultura, com criatividade, ousadia e alianças ampliadas com todos os setores.

Por fim, no campo mais estrito do confronto, preparar mobilizações, protestos, passeatas e ocupações, chegando, se necessário, às estratégias de desobediência civil.

O momento é de organizar a luta, fortalecer as frentes, articular a oposição, irrigar a sociedade de espírito libertário, operar a guerrilha da contrainformação. Lutar com palavras e atitudes. Avançar ainda além se necessário.

Enquanto os projetos usurpadores, durante o recesso parlamentar, crescem no fermento da defesa de classe operada pela mídia, pelos patéticos desinformados paneleiros e ideólogos da burguesia nacional e internacional, é chegada a hora de azedar essa receita. O ano do golpe termina com seu rastro de destruição e ameaças. O ano da recuperação da resistência popular está apenas começando. Não vai ter recesso, vai ter luta.

Fonte: Brasil de Fato
https://www.brasildefato.com.br/2016/12/26/artigo-or-sem-tempo-para-recesso/

Share

Comentários

comentários