Sem diálogo

Não há desculpas para a forma como o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, reagiu, no final do mês passado, ao ser insultado por um cidadão em um restaurante da cidade. Na ocasião, segundo testemunhas, o dirigente carioca desferiu dois socos no músico Bernardo Botikay após uma discussão.

Mas, se por um lado, o comportamento de Paes foi inaceitável – principalmente em se tratando de um prefeito –, por outro, pode-se dizer que a atitude de Botikay não foi das mais apropriadas: sua abordagem foi agressiva (ainda que em termos verbais) e um tanto quanto fora de hora, uma vez que o prefeito estava em um momento de lazer, com sua família.

Há, contudo, uma questão difícil de ser objetivamente equacionada no que se refere a essa suposta quebra de protocolo por parte do músico. Afinal, a atual gestão da capital fluminense não prima exatamente pelo diálogo com a população, haja vista o histórico recente de iniciativas autorizadas pela prefeitura do Rio à revelia da vontade dos moradores, ou mesmo sem o seu devido conhecimento.

É difícil imaginar, por exemplo, que o empreendimento imobiliário que começa ser construído na área da praia da Reserva, na Barra da Tijuca, ou que a demolição do velódromo construído para o Pan de 2007 sejam projetos bem quistos pelos cariocas – à exceção de alguns poucos envolvidos nessas obras.

Assim, se mesmo com protestos e manifestações públicas de repúdio a tais ações, o prefeito Eduardo Paes não deu ouvidos à população, privilegiando o interesse do capital especulativo/ imobiliário, o que resta ao cidadão carioca para efetivamente ter sua opinião levada em consideração? Como manter um diálogo real, e não de fachada, com os dirigentes da cidade?

Certamente que há uma série de vias legais e institucionais para isso, mas a sensação que predomina atualmente, principalmente entre os mais jovens, é a de impotência em função da descrença na política e ao crescente abismo que separa essa esfera da vida social, do dia-a-dia da população – aspectos que se intensificam quando não se respeitam as reivindicações dos eleitores.

Botikay pode ter errado na maneira como interpelou o prefeito, mas seu descontrole é compreensível e perdoável, o que não pode ser dito do destempero de Eduardo Paes. Mesmo ocupando o cargo que ocupa e apesar de cercado de seguranças, ele perdeu não só o controle, como a razão na referida situação, em um triste indicativo de que o diálogo de fato não é seu forte.

Eduardo Paes é tão destemperado quanto Collor, e isso é i-n-a-c-e-i-t-á-v-e-l. Afinal homens públicos tem que ter controle nas mais adversas situações. O Músico Bernardo Botikay, tb excedeu-se. Lembrando: DEMOCRACIA NÃO É BADERNA, tem que se portar nesse regime, com responsabilidade.Explicita seus direitos, sim, mas tb tem DEVERES.

  • Ótima reflexão, fico pensando se o prefeito de fato não responde a outras tentativas de diálogo da mesma forma, metaforicamente ou não.

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