Sei lá se sai alguma coisa dessa geração

Acompanhar a política contemporânea neste momento especial não está sendo fácil. Esqueçamos a política partidária. Estou falando de cotidiano mesmo. De práticas políticas.

A elite do país — intelectual, cultural, política, social, qualquer que seja — simplesmente não conhece a fundo sua própria História, fenômeno recorrente em muitos países com muito menos recursos educacionais que os nossos. Confunde datas, ignora a formação cultural, a formação social, os grandes acontecimentos, os pequenos acontecimentos, os heróis, os movimentos de massa. O que já foi tentado. Os últimos 20 anos, ou 40. Economia. Sociedade. Como os trabalhadores conquistaram o que conquistaram. Vargas é um filme na televisão e a abolição acabou, disseram, pelas mãos dos brancos generosos. Sem generalizações, claro, mas o quadro é desolador.

O “debate” fica, então, assim: fulano roubou isso, sicrano roubou mais, mas fulano roubou primeiro, só que fez menos pelo povo. Mas fulano roubou mesmo? O site bobo-ponto-com jura que é verdade, o espertinho-ponto-org desmentiu com contundentes declarações. É só minha opinião, todo mundo tem a sua e viva a expressão liberal da verdade única de cada célula viva nessa planeta. Nem mesmo a história recente do país é lembrada.

É violento? Fascista. Não vai reagir? Frouxo. Roubou fulano? Fora fulano. Roubou pouco? Enjaula. É apenas uma criança de seis anos? Que bom, menos um bandido no futuro. Matou? Mata também. Qual o debate? Nenhum. E todos. E ninguém mais se organiza, apenas opina sobre tudo e sobre todos. Não há mais grandes causas, apenas circunstâncias. Que mudam com o vento, sem direção nem ação direta. Acabou a ação direta. Agora é tudo “culturalista”, uma hashtag.

O individualismo está cantando vitória num país onde a elite patriarcal centrada no senhor de engenho deixou seu vivo legado. A indignação de julho de 2013, e depois, o que foi? Uma catarse, talvez, engolida pelos conservadores à direita ou à esquerda, na mídia ou no parlamento. O que sobrou daí? Um bom emprego, casa própria e o troco da cerveja?

Quem se organiza e mobiliza setores reais da sociedade está isolado. Inclusive no parlamento, na mídia. É a era do quem grita mais alto. A violência policial é horrível, mas quantos sabem o número da lei da desmilitarização? E, que ousadia!, alguma linha sobre ela? A saúde privatizada (e precarizada pelas mãos do lucro a qualquer custo), mas quem conhece a bandeira do movimento sanitarista? Quem já, sem interesse imediato, os apoiou? As crianças são o futuro do Brasil, mas quem se importa com a inércia do programa “Brasil Carinhoso” em sua comunidade, bairro, cidade? O antirracismo e o feminismo é um quadro cult na parede. Lavemos as mãos.

Sei lá se sai alguma coisa dessa geração hiperconectada que conhece mais sobre o histórico dos modelos de smartphones do que o das revoluções populares no Brasil. Aparentemente a tecnologia é hoje mais importante do que a História da nossa cidadania duramente conquistada — incluindo a lenta e sofrida separação entre Igreja e Estado –, e cada dia mais abandonada a uma representação política alheia ao povo e rendido ao Deus Mercado. A juventude foi negociada: vai levar pra viagem ou consumir aqui mesmo? Consumir aqui mesmo. Agora. Porque amanhã já tá velho.