Saneamento básico

Os jornais noticiam que mais de 40% dos lares brasileiros não têm acesso a saneamento básico. Isso mesmo: em 2013, quase 2014, o “país do futuro” ostenta essa marca medieval.

Como infere a própria expressão, saneamento básico é um dos fatores básicos para uma vida social minimamente salubre, sendo imprescindível para o bem-estar da população.

Mas, no festejado “país de todos”, que empresta dinheiro para organismos internacionais, compra caças de última geração e está prestes a realizar a copa do mundo mais cara de todos os tempos, coisas básicas não costumam ganhar o devido tratamento de nossos esmerados governantes.

Afinal, investir em redes de esgoto subterrâneas ou estações de tratamento é trabalhoso e não tem o mesmo potencial midiático que a instalação de um teleférico em uma favela, por exemplo.

Injetar recursos na manutenção de hospitais e escolas públicos, zelando por sua infraestrutura e recursos humanos, não gera a mesma visibilidade de uma inauguração de um novo hospital ou escola, e repercute menos que a contratação em massa de médicos estrangeiros para salvar os brasileiros que vivem esquecidos nos mais miseráveis rincões do país

Tampouco parece válido, sob tal ponto de vista, elaborar novas políticas públicas para tratar a questão do uso e comercialização de drogas. Mais vale financiar comunidades terapêuticas ligadas à bancada evangélica e abarrotar as prisões com pretos e pobres que não se encaixaram no mercado consumidor ou matar esses “inúteis” à queima-roupa nas favelas e periferias.

Da mesma forma, é mais produtivo, conforme a (fisio)lógica política, construir centros sociais – verdadeiros antros de assistencialismo que fazem perdurar o voto de cabresto em pleno século 21 – que investir em infraestrutura e educar o povo, dotando-o de capacidades para que, de maneira independente, consiga sair da miséria em que se encontra.

Espetáculo

Ainda segundo esse modelo, é natural que as autoridades optem por um projeto que mantém as camadas mais pobres controladas pelo aparelho repressor do Estado. Ao menos até agora, as UPPs – queridinhas da Grande Mídia carioca –, tão somente reproduzem o modus operandi que caracteriza as relações que os governos sempre mantiveram com os socialmente excluídos no país: “Pobre, no Brasil, é assunto de polícia”, relatam os livros de história.

Certamente que a iniciativa tem seus méritos, principalmente se entendida como uma contraposição à absurda – por genocida e ineficaz que é – política de confronto militar em favelas do Rio de Janeiro. No entanto, ao mesmo tempo em que o tráfico e a violência (policial e bandida) perduram nas comunidades pacificadas, outras cidades do estado veem seus índices de violência disparam em decorrência da migração do crime organizado.

Não tem jeito: o Brasil seguirá tapando o sol com a peneira na medida em que a política nacional continuar orientada pela lógica do espetáculo, em prol da visibilidade, audiência e votos. De tal modo, não há como os resultados escaparem à superficialidade.

Campanhas privadas

Mas o buraco é ainda mais embaixo: a questão do financiamento de partidos pela iniciativa privada é, sem dúvida, um dos mais graves vícios da política brasileira. Trata-se do ponto onde políticos começam a se comprometer, já que, em algum momento, terão de legislar em favor de seus “mecenas”.

O caso do Rio de Janeiro é exemplar nesse sentido. A cidade se transformou, na prática, em um balcão de negócios no qual autoridades, empreiteiras e agentes imobiliários ditam os rumos das políticas públicas; em muitos casos, à revelia dos interesses da população.

Se for preciso remover comunidades, desmatar reservas florestais ou demolir viadutos que implicarão um nó na já péssima estrutura viária da cidade para dar lugar a novos empreendimentos, não haverá manifestação pública capaz de impedir sua execução – sob a pena de cassetetes, balas de borracha, gás lacrimogênio e prisões arbitrárias.

Maniqueísmos

O cenário é distópico, mas isso não significa que o capitalismo não deu certo e que será preciso uma revolução comunista para alterar esse panorama. Radicalismos não são a melhor pedida, como nos mostra a história. No final, seja à direita ou esquerda, eles acabam se encontrando com o que trazem de pior – a intolerância, a violência, o autoritarismo e o cerceamento às liberdades individuais.

Não há soluções ou fórmulas prontas, como propõem os manuais de autoajuda ou as cartilhas de seitas religiosas (ou partidárias) fanáticas. Acreditar nisso é extremamente conveniente e tranquilizador, mas não deixa de ser uma fuga da realidade.

As mudanças têm de partir do povo e já seria um passo e tanto se as pessoas abandonassem, na medida do possível, maniqueísmos, moralismos e ideologias que começam e terminam em si mesmas nas discussões sobre o futuro do país.

Portanto, fica o desejo por um 2014 menos individualista e com mais senso de coletividade e pragmatismo.

 

 

  • Durante a cerimônia, a presidente destacou a importância da parceria entre o governo federal, estados e municípios para ampliar a rede de esgoto sanitário e abastecimento de água no país. “Saneamento básico, abastecimento e tratamento de água e esgoto têm, num país como o nosso, uma importância fundamental porque é um setor no qual tradicionalmente não se investiu muito ao longo das décadas passadas”, disse.

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