Rodas de Terapia Comunitária Integrativa: espaços de cuidado integral e educação emocional

Esse artigo apresenta os fundamentos e o funcionamento das Rodas de Terapia Comunitária Integrativa (TCI), que consistem em uma metodologia simples de cuidado integral e de pouco custo financeiro, fundamentadas sobre cinco pilares: o pensamento sistêmico, a teoria da comunicação, a antropologia cultural, a pedagogia de Paulo Freire e a resiliência. A TCI proporciona um espaço acolhedor, solidário e igualitário de educação emocional e cuidado holístico onde por meio de fala, escuta, olhares, toque, músicas, cheiros, sabores, momentos lúdicos e descontraídos que alimentam o corpo e o espírito, acolhem-se sofrimentos, perturbações e sentimentos para prevenir e curar enfermidades de várias naturezas, partilhar saberes e reconhecer redes de apoio na própria comunidade.

Com regras simples e fáceis de serem aplicadas, as rodas de TCI abrem o espaço com atividades descontraídas e explicações sobre a relevância dessa prática; pessoas falam um pouco sobre o que as perturbam; todos sentem-se acolhidos para falar sobre seus sentimentos (contextualização) e escutar com atenção aos outros sem julgamentos, enquanto o grupo experimenta uma conexão de sentimentos que une e alivia. De forma empática, o grupo se solidariza e se identifica com a fala do outro, então, compartilha suas estratégias de superação (problematização), através de verbalização e alteridade curativas. Em meio a rituais de agregação, os participantes falam palavras ou frases que expressam o que cada um está levando da roda (conotação positiva), num momento em que a fala de um fortalece e comove ao outro, sedimenta aprendizados, decisões e sentimentos saudáveis de autoestima, de senso de pertença e sentido para a vida. Ao invés de reforçar dependências e carências, a roda comemora o empoderamento, as competências e a resiliência que decorrem das dificuldades e dessa troca horizontal de saberes. Esse trabalho justifica-se pela necessidade atual de espaços de cuidado integral e educação emocional, e segue a metodologia da pesquisa bibliográfica, com esclarecimentos e citação de exemplos práticos e resultados documentados que confirmam a eficiência dessa técnica.

Introdução

A Terapia Comunitária Integrativa (TCI) consiste numa prática recém incluída (DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO/2017) na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do Sistema Único de Saúde (SUS). As rodas de partilha são uma ferramenta terapêutica eficiente de inclusão e resgate, adequado ao contexto do SUS, por participar de uma visão e prática político-social transformadora de profissionais e de pacientes no cuidado mental dentro da Atenção Básica em várias regiões brasileiras (FERREIRA FILHA, 2008).

Diante das crises inevitáveis da vida, a roda de partilha ameniza a sensação de abandono e insegurança, reforça a autoestima e a capacidade de superação, integra e reforça o sujeito como autônomo, resiliente, solidário e corresponsável na formação e transformação da realidade; a resiliência que brota dos momentos críticos, previne as manifestações de violência e transtornos físico-mentais decorrentes do sofrimento (BARRETO, 2008, p. 27-32, 128), e participa do resgate da integralidade humana sufocada pelo contexto urbano tecnológico, frio e utilitarista, que diminui a espiritualidade e a humanidade na capacidade de amar, de comover-se e de sentir a dor do arrependimento, conforme apontados por Noé (2004, p. 5-6).

Dentro da PNPIC, a roda de TCI previne de forma acessível, satisfatória, com baixo custo operacional e amplo alcance, as crises relacionadas ao cotidiano de pobreza, abandono, insegurança e baixa autoestima (MORAIS, 2010, p. 21). As etapas da roda e os pilares da TCI corroboram a proposta atual de cuidado integral na saúde pública, com alívio do sofrimento pela partilha de experiências, ressignificação das histórias de vida, promoção de mudanças holísticas, integradoras e humanizadoras nas pessoas e no ambiente de trabalho, com construção de redes de apoio: vínculos saudáveis e afetivos entre profissionais e usuários (MORAIS, 2010, p. 26-38, 84-85, 93, 103-104; FERREIRA FILHA, 2008; ROCHA 2009).

A TCI também participa da educação humana que, segundo Röhr (2013, 25-34, 43-53), consiste em formação e humanização do sujeito pela integração de suas cinco dimensões – física, sensorial, emocional, mental e espiritual – desde as mais densas às mais sutis, sendo que a espiritual dá sentido e guia as demais. O processo educativo deve incluir o corpo, os cinco sentidos, as emoções, os pensamentos/imaginação/intuição e os valores transcendentes éticos/metafísicos, para beneficiar o desenvolvimento de aprendizagem, criatividade, autoestima, autocuidado, autonomia, responsabilidade, autoconsciência e ética e liberdade.

Essa pesquisa justifica-se pela necessidade atual de espaços públicos acessíveis para acolher perturbações e sentimentos, com o propósito de prevenir e curar enfermidades psicossomáticas e ressignificar sofrimentos cotidianos. Fundamentado em pesquisa bibliográfica, esse artigo tem o objetivo de apresentar os fundamentos e o funcionamento dessa ferramenta – TCI – de cuidado holístico e educação emocional que consiste num espaço solidário e igualitário de fala, escuta, olhar, toque, cheiros, sabores, risos e lágrimas que aliviam, amparam e fortalecem indivíduos em meio a desabafo, partilha de saberes, mútuo reconhecimento e formação de redes de apoio, conforme apresentamos na dissertação de mestrado (PESTANA, 2017).

A metodologia da TCI

Fundamentada em cinco pilares: pensamento sistêmico, teoria da comunicação, antropologia cultural, pedagogia de Paulo Freire e resiliência (BARRETO, 2008, p. 27), a roda de TCI dura uma hora e meia, e segue cinco etapas: acolhimento, apresentação e escolha de tema para partilha, contextualização, problematização, encerramento com rituais de agregação e conotação positiva, em que o terapeuta capacitado não é “salvador da pátria” nem o especialista que tudo resolve de forma vertical, gerando dependências; mas facilita a partilha para trabalhar em grupo, o sofrimento pessoal, valorizar a experiência de cada participante e a formação de uma rede solidária horizontal que contemple a todos (BARRETO, 2008, p. 56-59).

Os efeitos positivos alcançados na roda se estendem para outros contextos e relacionamentos, conforme seguem os objetivos da TCI:

1.Reforçar a dinâmica interna de cada indivíduo, para que este possa descobrir seus valores, suas potencialidades e tornar-se mais autônomo e menos dependente. 2. Reforçar a autoestima individual e coletiva. 3. Redescobrir e reforçar a confiança em cada indivíduo, diante de sua capacidade de evoluir e de se desenvolver como pessoa. 4. Valorizar o papel da família e da rede de relações que ela estabelece com o seu meio. 5. Suscitar, em cada pessoa, família e grupo social, seu sentimento de união e identificação com seus valores culturais. 6. Favorecer o desenvolvimento comunitário, prevenindo e combatendo as situações de desintegração dos indivíduos e das famílias, através da restauração e fortalecimento de laços sociais. 7. Promover e valorizar as instituições e práticas culturais tradicionais que são detentoras do saber fazer e guardiãs da identidade cultural. 8. Tornar possível a comunicação entre as diferentes formas do saber popular e saber científico. 9. Estimular a participação como requisito fundamental para dinamizar as relações sociais, promovendo a conscientização e estimulando o grupo, através do diálogo e da reflexão, a tomar iniciativas e ser agente de sua própria transformação (BARRETO, 2008, p. 39).

Inspirado pela pedagogia de Paulo Freire, a TCI tem o formato em círculo e as regras/sequência favorecem a partilha de experiências e a socialização de saberes, sem a verticalidade imposta por símbolos aparentes de poder e saber, pois, todos se veem e se integram horizontalmente. Cada um ensina enquanto aprende, pois, é protagonista de sua história e contribui na conexão de sentimentos em meio a experiências e origens diversas dos participantes. Conforme chegam à roda, todos são acolhidos pelo co-terapeuta com palavras, atividades de boas-vindas e as regras da TCI: ouça os outros em silêncio, fale somente sobre si; manifeste-se sem julgar, criticar ou aconselhar, partilhe se surgir uma memória espontânea de um ditado ou música (BARRETO, 2008, 63-66, 279-291).

Na etapa de partilha dos temas, qualquer participante pode falar (em poucas palavras) qual é sua preocupação, seu aborrecimento ou até uma grande alegria, mas, nada que seja um grande segredo. Após ouvir as pequenas falas, o grupo escolhe, por votação, um dos temas para ouvir com mais atenção. Nessa parte, o terapeuta facilita a contextualização do tema da pessoa escolhida, a incentiva a falar, enquanto o grupo faz perguntas para compreender a situação e os sentimentos envolvidos, sempre com respeito e escuta. Então, chega o momento da problematização, em que o terapeuta lança um mote ligado aos sentimentos levantados na contextualização, e abre a oportunidade para que pessoas respondam ao mote, compartilhem suas experiências de superação e compartilhem suas pérolas (BARRETO, 2008, 66-82).

A etapa final consiste num círculo de pessoas abraçadas, num balanço corporal suave e sincronizado, onde cada pessoa que queira, verbaliza em uma palavra ou frase o que está levando da roda. Com conotações positivas, autoestima, identidade e senso de pertença alimentados, todos os participantes cantam junto alguma música conhecida e então, despedem-se com abraços calorosos, gratos e alegres devido a agradável, includente, lúdica, reflexiva, ética, afetiva e curativa roda que foi desenvolvida em meio a músicas, ditos proverbiais, desabafos, reflexões, lágrimas e risos sinceros (BARRETO, 2008, 82-86).

Também, Grandesso (2003) enfatiza a resiliência capacita as pessoas a lidarem com dificuldades e sobreviverem, especialmente, em situações de desigualdade social, preconceitos, pobreza, falta de saúde e de educação, geradores de grandes sofrimentos, sobretudo, em mulheres com depressão e vítimas de violência, famílias de pacientes psiquiátricos, idosos, doentes crônicos, moradores de favelas, funcionários de instituições de saúde e educação. Essa metodologia simples, barata e adaptável para atender grandes contingentes em uma única sessão e em qualquer lugar, tem ajudado a legitimar, valorizar e transformar sujeitos, graças ao ambiente acolhedor, afetivo, empático e respeitoso de uma partilha facilitada por um ou mais terapeutas capacitados e sensíveis em escutar e construir motes que provoquem a fala terapêutica do grupo.

Dada a importância da resiliência, empresas e instituições têm adotado as rodas de TCI para reconhecer e desenvolvê-la nos indivíduos e, com isso, melhorar o ambiente de trabalho. Numa pesquisa que inclui depoimentos de sete mulheres usuárias da TCI e moradoras de aglomerados subnormais, questionou-se como a TCI contribuía para desenvolver resiliência. Perguntou-se a elas de onde vinha a força para enfrentar sofrimentos e quais eram suas características resilientes mais frequentes. Como resposta, obteve-se que elas falavam e escutavam umas às outras, ou seja, compartilhavam e socializavam fontes de forças que as ajudavam na capacidade de lidar com situações difíceis e ficarem mais resistentes; era assim que todas emergiam transformadas positivamente e como sujeitos de mudanças na desigualdade (sociais, econômicas e culturais), discriminação, subalternidade, desvalorização e exclusão ligadas a todo tipo de dominação e opressão, inclusive a masculina (BRAGA, 2009).

Mais resilientes, os participantes da roda alcançam mais sucesso no ambiente de trabalho, pois, transformam pressões e adversidades em competência, sobrevivem a crises, desafios e ambientes insanos, sem perder o equilíbrio emocional ou adoecer fisicamente, mas, recuperando-se rapidamente; nesse caso, as dificuldades passam a ser vistas como oportunidades para superar, agir e crescer em flexibilidade, criatividade, fortalecimento, responsabilidade, interatividade, eficiência e satisfação para pessoas e projetos envolvidos (BARRIM; MASSARUTTI, 2011).

Conforme a Teoria da Comunicação que também embasa a TCI (BARRETO, 2012, p. 15, 221-232), “Quando a boca cala, os órgãos falam. Quando a boca fala, os órgãos saram”, ou seja, ao falar com a boca sobre algum incômodo, o corpo é poupado de comunicar-se por meio de doenças, dores e mal-estares; isso não significa que o problema se resolverá, mas que as somatizações serão menores. Além disso, a força que o sentimento negativo reprimido tem para causar males orgânicos e psíquicos, diminui quando a pessoa verbaliza e se sente acolhida na partilha horizontal, recíproca e criativa, facilitada pelo terapeuta que valoriza e socializa os saberes científicos ou populares com bom senso, humildade e incentivo ao diálogo, conforme propõe a pedagogia freiriana (BARRETO, 2008, p. 29-31, 279-291). Ao término da roda, todos levam consigo reflexões positivas e pérolas de competência e resiliência descobertas em meio aos escombros das carências e dos sofrimentos compartilhados, junto com sentimentos de gratidão, autoconfiança e novas estratégias de superação (BARRETO 2008, p. 82-83).

A TCI também estimula a habilidade para pensar, agir e discernir valores no dia-a-dia, pois, fundamentado na Antropologia Cultural, respeita as raízes culturais como elemento de referência fundamental na construção da identidade individual e grupal, que reforça o senso de pertença, e dá condições de resistência à dominação/exclusão social. No caso do Brasil, há uma mescla inicial de índios, brancos e negros, seguida da imigração de toda parte do mundo, com suas tradições religiosas e hábitos culturais (crenças, espiritualidades, culinária, mitos, ritos, práticas artísticas). Cada grupo cultural trouxe seu modelo de vida social e teve que aprender a adaptar-se e conviver com as diferenças, para participar na construção de uma sociedade tolerante na sua pluralidade. (BARRETO, 2008, p. 29, 236-278).

Barreto (2008, p. 177-218) observa a relevância do Pensamento Sistêmico nos contextos humanos. A memória, as experiências corpóreas e culturais são fatores que definem pensamentos, emoções e comportamentos de uma pessoa, da família, da comunidade ou de um grupo cultural (CSORDAS, 2008). Traumas, violências, perdas, doenças e pecados do passado têm efeitos deletérios sobre a alma humana, mas, à medida em que são reconhecidos, narrados, confessados e integrados conscientemente, passam a permanecer no passado e a interferir com menos força no presente (DONARD, 2010). A TCI oferece um espaço seguro e acolhedor para essa expressão e releitura de sofrimentos, que possibilita a cura de memórias e a abertura de novas perspectivas para o futuro.

Resultados

Através de relatos, atesta-se a efetividade das rodas em aguçar o senso de propósito na vida através da partilha de falas e experiências, resultando em empoderamento – um processo fundamental de fortalecimento afetivo, cognitivo e condutual dos sujeitos nos espaços de participação sociopolítica, que afeta três níveis: psicológica/individual que leva à emancipação, autoestima, autonomia e liberdade do indivíduo para agir como sujeito e deixar de ser vítima; grupal/organizacional o qual viabiliza respeito recíproco, apoio mútuo, senso de pertença e partilha interna de conhecimentos e soluções que até superam aos dos especialistas; e por fim, estrutural/política que favorece o engajamento, a corresponsabilização e a participação social na perspectiva da cidadania. Assim, os sujeitos individuais e coletivos assumem a direção da própria vida com autodeterminação, consciência crítica, competência e criatividade para lutar, interferir e participar sem dependências ou sentimentos de impotência diante dos movimentos sociais e políticos, diminuindo a força manipulativa dos poderes dominantes e opressores de uma sociedade (KLEBA; WENDAUSEN, 2009, p. 733-743).

A aplicação prática dessa metodologia será exemplificada por duas rodas de TCI registradas (ABRATECOM, 2012 e 2013) dentre as mais de setenta rodas que facilitamos durante a capacitação. Apresentaremos a narrativa sem citar nomes, de forma que quem esteve lá, pode lembrar dos detalhes, mas quem não foi, tem a oportunidade de participar da roda através dessa leitura. A roda de TCI não faz “pacto de silêncio” e nem induz a “fofocas”, pois, ao valorizar a identificação, a expressão verbal de sentimentos e a escuta solidária, “faz desaparecer o clima de desconfiança e intriga que reinava quando esta informação era veiculada, sob a lei de segredo e em clima de desarmonia” (BARRETO, 2008, p. 54-55).

As rodas que efetuamos nas dependências do Seminário EBNESR (Escola Bíblica Nacional para Equipar os Servos do Rei) em Boa Viagem/PE, acolhiam os frequentadores da instituição e o público em geral; os temas apresentados giravam em torno de conflitos familiares (problemas de comunicação, opressão e repressão nas relações), emprego (e desemprego) e crises pessoais (depressão, medo, culpa, insegurança, rejeição, falta de sentido na vida, solidão, autoestima e impotência diante das dificuldades); as estratégias de superação partilhadas e as conotações positivas envolviam empoderamento pessoal, vínculos horizontais de amizade e apoio já existentes e criados a partir daquela roda; além de fé, gratidão e esperança alimentadas pela prática de orações, leituras bíblicas e participação em reuniões eclesiásticas.

Destacamos um rapaz de trinta anos de idade, alto, vistoso e adornado por longas madeixas rastafáris, grandes alargadores nas orelhas e tatuagens em várias partes visíveis do corpo; ele relatou que já havia percorrido vários espaços médicos, exotéricos, místicos, filosóficos e alternativos em busca de cuidados e respostas para seus anseios existenciais. Em 8 de agosto de 2012, o moço encontrou na roda um local de acolhimento emocional, esperança e força tais, que seu depoimento levou todos os participantes à comoção e às lágrimas. A maioria dos frequentadores era do curso de Teologia, e apesar daquela presença e tema extraordinários, o clima de empatia e solidariedade predominavam. Com o término, o rapaz compartilhou que se surpreendeu consigo mesmo em ver-se falando ininterruptamente para um grupo de “estranhos” e, sair com “um pouco de esperança”.

Sob o olhar do “paradigma da corporeidade” (CSORDAS, 2008), toda a experiência registrada no corpo daquele jovem foi ressignificado quando suas palavras encontraram ouvidos atentos, lágrimas de olhares empáticos e abraços de corações solidários; então, seu corpo tatuado e adornado com símbolos de emancipação e exclusão, registrou novas experiências de aconchego daquele colo includente que ressignificou sua identidade e senso de pertença. Ele decidiu estudar Teologia para conhecer melhor aquele Jesus ao qual creu presenciar naquela alteridade (RICOEUR, 2006; 2007).

Esse relato destaca o que Csordas (2008, p. 33-49, 65-70, 115, 137-139, 191) afirmou sobre os procedimentos para a cura integral (toque físico, oração, diálogo e cura de memórias), onde a “presença curativa de Jesus” na forma da imagem de Jesus que olha e age com compaixão, tem efeito transformador na própria pessoa e nas outras que interagem com ela, uma vez que redirecionam a atenção do enfermo para ações e experiências que potencializam a construção de seu ser como sujeito saudável, íntegro e santo, facilitando-lhe a liberação de perdão, a libertação de vícios, o fortalecimento do organismo e a prevenção de doenças.

Até então, diagnosticado com transtorno mental, sem vontade de viver e incapacitado para trabalhar, ele foi visto, um ano após, com brilho nos olhos, trabalhando em uma agência fotográfica, relatando com alegria e gratidão que encontrara sentido para a vida e para a fé em Deus; ele ainda estava sob tratamento da depressão, mas já não precisava tomar vários dos remédios antigos; onde quer que fosse, levava no corpo as marcas do amor e do encontro mítico com o sagrado (ELIADE, 1994; 2010) que inaugurou novos ritos e deu sentido para a sua vida.

Dentre as rodas facilitadas na casa das mulheres no Hospital Barão de Lucena (hospedagem hospitalar para mães de bebês recém-nascidos em estado grave e internados na Unidade de Terapia Intensiva), observou-se intenso estresse nas mulheres (a maioria bem jovem e inexperiente) por terem que lidar com uma situação de tamanhos sofrimento, desespero, angústia, impotência, luta, solidão e cansaço; colocando-as muito próximas à realidade da morte e da sensação de enlouquecimento, conforme o depoimento de algumas delas. Em geral, muitas relataram que buscavam forças em Deus por meio de orações, leitura da Bíblia, e também, que encontravam certo amparo na empatia do cuidado mútuo naquele ambiente.

Em 3 de outubro de 2012, destacou-se a partilha de uma mãe que se autodescrevia como dependente de álcool, egoísta, rebelde, rejeitada pelos pais, irritada com o fato de estar confinada naquele hospital; até que num dado momento, provocada pela escuta atenta de todas e especialmente, pela habilidade maiêutica da terapeuta (capacitada em facilitar reflexões e expressão verbal nas pessoas), deu-se conta da saudade, do valor da família, do amor que sentia por seus outros filhos deixados em casa e do desejo de largar o seu vício.

Surpresa consigo mesma, permitiu-se ouvir o desabafo de outras mães e percebeu os problemas semelhantes e até piores aos seus. Era como se um facho de luz invadisse aquela sala sombria, e iluminasse aquela jovem; era como se escamas invisíveis se desprendessem dos seus olhos e da sua mente transbordante de emoções positivas, criatividade, esperança, perdão e memórias espontâneas (RICOEUR, 2007); sinais esses, de cura profunda (CSORDAS, 2008, p. 165-167, 192-193). Num clima de alegria, paz, gratidão, leveza e esperança, todas as mães cumprimentavam-se e despediam-se com abraços, palavras, lágrimas e sorrisos.

Essa situação reforça a importância do perdão nas relações de alteridade (RICOEUR, 2007, p. 71-512), onde o indivíduo deixa de ser vítima para ser sujeito da própria vida: ele reconhece e encara as culpas e as consequências dos erros (seus próprios e os alheios), mas liberta a si e aos outros das faltas para que todos possam seguir em frente livres dos desejos por vingança, das culpas, dos ressentimentos, das repetições compulsivas e dos sofrimentos decorrentes, transformando suas lembranças numa memória feliz e saudável. O perdão horizontaliza as relações verticalizadas pelas falta, culpa, dívida e dependências.

Alinhados ao pensamento sistêmico, a análise desses dois casos de roda da TCI, nos permite tatear a compreensão de outras histórias, além de perceber que quando há cura de uma pessoa, cura-se uma comunidade inteira, assim como acontece com uma parte do corpo em relação ao ser integral, e às relações sociais, familiares e religiosas. Parafraseando Rehfeld (1988, p. 17) que afirma que as partes ajudam a interpretar uma à outra e ao todo coerente de uma unidade literária, é o que ocorre numa roda de TCI: todos os presentes comemoram as curas, pois, a solução de um é também, a resolução de todos.

Pela nossa experiência em rodas com adolescentes, idosos, mulheres e homens adultos em diversas situações e locais, conforme registradas nas fichas em arquivo, os comentários que mais chamavam à atenção eram: “eu não gosto de terapia, mas essa eu gostei”, “a gente não imagina os problemas que outras pessoas têm”, “sinto um grande alívio”, “como foi bom conversar e ouvir”, “vou fazer umas coisas que ouvi aqui”, “sinto união e amizade aqui”, “nunca pensei que minha história ia ajudar outras”, “de repente, eu estava falando coisas que ajudavam as outras, com coisas que eu nem sabia que estava sentindo”, “fico pensando no que vou falar e assim, organizo minhas ideias e a minha mente”. Muitas pessoas chegam tímidas e sem querer falar nada, no entanto, vão falando e se sentindo bem.

Conclusão

Num misto de gestos, palavras, escuta, risos, lágrimas, poesia e música, colhem-se pérolas preciosas a partir das carências, dores e dificuldades íntimas das pessoas que vêm à roda de TCI. A alegria contagiante, o alívio pelo desabafo, o desvendamento de horizontes e a surpresa por descobrir que muitas pessoas também passaram e passam por algo semelhante, faz com que quem pensa que está só, percebe que pode contar com uma rede de apoio. Presenciamos muitos pequenos milagres acontecendo ali mesmo, na roda: indivíduos que chegavam encurvados, desfigurados e abatidos pelo peso de seus sofrimentos e culpas, relatavam que saíam leves, renovados, fortalecidos e transformados.

Urge promover espaços terapêuticos para desenvolver espiritualidade, resiliência, fé, autoestima, empoderamento, esperança, amor, solidariedade, alegria, crescimento, paz e equilíbrio. Essa missão humana de cura individual e coletiva em sua integralidade é de todos e todas nós, onde cada pessoa cuida de cada parte do seu ser e se percebe parte do todo que compõe a humanidade, e assim, compartilha seus dons e suas ações a favor da educação emocional de todos e todas.

Referências

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A autora é Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões – PPGCR/UFPB, Especialista em Aconselhamento e Psicologia Pastoral – EST, Bacharel em Teologia – FACETEN, Cirurgiã-Dentista – FOUSP, Terapeuta Comunitária Integrativa – ABRATECOM, Capacitada em Prevenção do Uso de Drogas – UFSC/SENAD, Participante do Grupo de Pesquisa: Religiões, Identidades e Diálogos – UNICAP. Contato: meypestana@gmail.com

Fonte: Anais IV CONEDU

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Mey Pestana é cirurgiã-dentista (FOUSP/1983), Especialista em Aconselhamento e Psicologia Pastoral (EST/2011), Bacharel em Teologia (SBN-FACETEN/2013), Terapeuta Comunitária Integrativa (ABRATECOM/2013), Mestre em Ciências das Religiões (PPGCR-UFPB/2017). Brasileira, caçula de quatro filhos de família imigrante da Indonésia (1960). Casada há 33 anos com Álvaro Cesar Pestana, mãe de Lucas (32) e Gabriela (26). Palestrante e facilitadora de rodas de TCI em Seminários e encontros femininos em todo o país. Aprecia a fé, a arte, boas leituras e amizades.

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