Reunião

Mais uma reunião transcorrera. Dizer “mais uma” poderia até parecer pejorativo, pois, embora por vezes muito parecidas umas com as outras, são bastante diferentes entre si. Admirara-se, então e agora, com o quanto tinha cultivado uma amizade profunda com aqueles amigos. O ritual de irem se encontrando de manhã, às quintas-feiras, há já tantos anos. As leituras, as risadas, as reflexões.

Pedaços das vidas de cada um, de cada uma, pois várias das presenças eram e são femininas. E nestes encontros simples, mas muito marcantes, aquela presença amorosa pairando, envolvendo tudo. Retalhos de vidas costuradas, ou costura de retalhos, às vezes tropeçava na gramática. Pouco importava. Deixava que as letras fossem se alinhando. Lembrava de tantas outras jornadas anteriores.

Os vídeos assistidos juntos. De la servitude moderne, na sala da PG do CE da UFPB. O encontro com Eduardo Hoornaert. As reuniões em casa de Comblin, em Bayeux. A evocação de Dom Helder Câmara, na capela de São Vicente de Paul. A palestra de Torres Queiruga. As celebrações na sala 22. As biografias de cada um, de cada uma, formavam como um ninho.

E nesta já lenta descida rumo ao Natal, as recordações das particularidades de cada um, de cada uma. As palavras mais usadas. Os livros lidos. Os cânticos, as orações. A unidade. Uma como que catedral invisível envolvendo esses peregrinos e peregrinas tão simples e profundos. Solidariedade. Qual poderia ser a palavra que os definiria? Não saberia. Qualquer uma seria pequena e de alguma forma arbitrária.

Sabia serem todos e todas, discípulos de Jesus. Um ser humano iluminado que mora em e entre nós. O Reino de Deus. O Reino dos Céus. Via mais uma vez os rostos, lembrava do som das vozes. Os sorrisos, as piadas. Deixaria que a lembrança fosse se diluindo na tarde, até que chegasse a noite, e esses seres todos compondo um rosário, estariam a lhe envolver, pela escuridão afora.