Respondendo por si

Em “O Existencialismo é um Humanismo”, Jean-Paul Sartre adota tom irônico ao explicar o porquê da generalizada refutação quanto à ideia de que homens e mulheres são integralmente responsáveis por seus atos, e suas ações, o que melhor os definem.

“(…) podemos compreender porque nossa doutrina [existencialismo] causa horror a um certo número de pessoas. Porque, muitas vezes, não têm senão uma única maneira de suportar a sua miséria, isto é, pensar ‘as circunstâncias foram contra mim, eu valia muito mais do que aquilo que fui; é certo que não tive um grande amor, ou uma grande amizade, mas foi porque não encontrei um homem ou uma mulher que fossem dignos disso, não escrevi livros muito bons, mas foi porque não tive tempo livre para o fazer; não tive filhos a quem me dedicasse, mas foi porque não encontrei o homem com quem pudesse realizar minha vida. Permaneceram, portanto, em mim e inteiramente viáveis, inúmeras disposições, inclinações, possibilidades que me dão um valor que da simples série dos meus atos não se pode deduzir’”.

É, de boas intenções, o inferno está cheio.  Mas o que de mais valioso se pode extrair dessa passagem é, talvez, a ideia de que a liberdade tem mesmo um preço, que engloba, entre outros aspectos, a intensificação da angústia, latente a qualquer sistema dotado de subjetividade. O vazio e a falta de sentidos, referências e posições ideológicas, morais e éticas claras – convincentemente balizadas em verdades intransponíveis – que a sensação de liberdade pode gerar, leva, por vezes, a estágios de profunda depressão ou de desespero. “A autonomia do homem tornou-se a tirania das possibilidades”, já anunciava Hannah Arendt, no século passado.

Na tentativa de encontrar um norte, alvejando-se algum tipo de conforto, buscam-se, com alguma freqüência, manuais de auto-ajuda, palavras de fé (inclusive aquelas que retiram do seguidor qualquer culpa relativa aos pecados que cometeu) ou mesmo o ombro amigo daqueles que partilham das mesmas angústias ou enfrentam problemas semelhantes – daí o aparecimento e consolidação de comunidades étnicas, minoritárias, classistas, etc., apesar dos agressivos movimentos resultantes de forças globalizadoras.

Em todos os casos citados, evidencia-se a dificuldade do ser humano de seguir sua vida em paz, tendo consciência de que o caminho que está traçando – se é que se pode falar em termos lineares – é de exclusiva responsabilidade sua e suscetível a rupturas e desvios tão variados como imprevisíveis. Com efeito, é daí que se origina boa parte da força do discurso religioso, o qual, ao posicionar um ou mais deuses olhando pela humanidade, constroi um cenário menos solitário e indefinido, enfim, menos cruel que a realidade de um mundo fadado à implacável dinâmica da natureza.

Fundamentalistas ou não, movimentos religiosos ou outras formas de instituições e organizações doutrinárias também se fortalecem ao produzirem verdades absolutamente interessantes e reconfortantes a seus adeptos e potenciais seguidores, ou simplesmente ao compactuar com o senso-comum (erroneamente confundido com bom-senso) ou visões de mundo tradicionais e perigosamente (porque geralmente associadas a relações de poder) reacionárias – adquirindo, nesse ponto, um viés relativamente perverso.

Mitos, forças metafísicas e concepções teleológicas são alucinógenos que, se bem dosados, podem bem servir à vida em sociedade. No entanto, fé à parte, é indispensável que as pessoas respondam por seus erros e acertos no(s) simulacro(s) de realidade em que vivem, tendo em vista que (ainda) dependem, basicamente, de oxigênio, água, alimentos e de seus iguais para viver, independentemente da possibilidade de intervenções divinas.Existencialismo