Renunciar – denunciar – anunciar

Para quem acompanha, de perto, a trajetória e o legado de Charles de Foucauld, resulta familiar a profunda interrelação destes três verbos – renunciar-denunciar-anunciar. Muito emblemática, portanto, a escolha temática para um Encontro de membros desta família, bem como de consagrados e consagradas à vida religiosa.

Renunciar – Responder, com generosidade, aos apelos do Espirito Santo, ontem como hoje, implica necessariamente a cada discípulo/discípula de Jesus, disposição de renunciar, com alegria e esperança, a muitas iniciativas e projetos que não condizem com o Projeto do Reino de Deus. O chamamento e a resposta generosa ao mesmo, de buscarmos uma vida em plenitude, já a partir deste mundo, implica escolhas difíceis entre vida e morte, graça e pecado, altruísmo em interesses pessoais… A vida em plenitude assemelha-se à bela paisagem contemplada do alto de uma montanha: só quem se dispõe a escalar-la, consegue desfrutar tal paisagem, afinal “quem quer colher rosas, deve suportar os espinhos.”

No seguimento de Jesus, sofrimento, paixão, morte e outras provações precedem a Ressurreição. Em nosso percurso existencial, são muitas as situações de renuncia, a que devemos estar preparados, com serenidade e confiança, aquela mesma confiança que movia o Apóstolo Paulo a dizer: “Eu conheço Aquele a quem dei a minha adesão.” (Scio Cui Credidi: 2 Tm 1, 12).

Isto é tanto mais freqüente quando se vive – e é o que sucede – num tempo de profundas contradições, desigualdades sociais e agressões contra Mãe Terra e toda a comunidade dos viventes. Aí, somos chamados a testemunhar atitudes de renuncia, inclusive diante da crescente tendência ao consumismo, à idolatria do ter, do poder e do prestígio.

Denunciar – A começar de nós mesmo, é preciso renovar, dia após dia, o compromisso de buscarmos a justiça do reino de Deus, o que acarreta inevitavelmente o combate às mais diversas formas de prisão e de egoísmo, de poder, de contratestemunhos, vale dizer, denunciar. Em conexão com Renunciar e com o Anunciar, não podemos e não devemos prescindir da vigorosa denuncia a toda forma de escravidão, de egoísmo, de morte, de agressão à Mãe Terra , às mais distintas formas de violência contra as mulheres, contra os povos originários, contra as comunidades quilombolas, contra os povos das águas e das florestas, contra as crianças, os jovens do meio popular, as pessoas idosas, e a toda a comunidade dos viventes. Abastecidos e energizados pelo dom da profecia somos chamados, como cidadãos e como cristãos a combater todas as manifestações de escravidão do nosso mundo, a começar de nós mesmos. Com efeito, observando o nosso mundo, percebemos um complexo e vasto leque de males, a incidirem nas relações sociais, econômicas, políticas e culturais do nosso dia-a-dia. No plano econômico, por exemplo, cabe-nos denunciar a crescente concentração de riquezas em mãos de poucos, e em detrimento de crescentes maiorias de nossa gente, gerando níveis insuportáveis de desigualdades sociais, com desastradas consequências, tais como aumento da violência social, da precarização das moradias, do desemprego estrutural e conjuntural, do sub-emprego e das manifestações injustas do trabalho terceirizado, da manutenção e ampliação do latifúndio, do Hidro-Agronegócio, dos estragos e tragédias socio-ambientais provocadas pelas trans nacionais e grandes empresas de mineração, das diferentes formas de envenenamento das fontes, dos rios, das oceanos, das plantações, dos solos, lençóis freáticos, dos animais e dos humanos.

Ainda no plano das denúncias, cabe-nos, sobretudo, identificar, denunciar e combater as causas estruturais desses males sociais e socioambientais, expressas pelo próprio sistema capitalista hegemônico.

Anunciar – Tão densa e tão relevante se mostra esta dimensão do exercício da profecia, que, sem prejuízo da consideração singular das demais, apresenta-se como uma síntese capaz de comportar as precedentes. Com efeito, o simples anunciar – em especial, por gestos – as veredas da justiça, da misericórdia, da solidariedade, da partilha, do perdão,do amor, da paz… implica renúncia, implica denúncia. Na parábola do bom samaritano, por exemplo, episódio relatado em Lc 10, 25-37. Esta passagem do Evangelho nos impacta, de vários modos, a compeçar pela densidade de verbos nela contidos (perto de uma dezena!): ver, aproximar-se, enfaixar (as feridas da vítima do assalto), pôr (sobre elas vinho e óleo), montá-lo no seu animal, conduzi-lo a uma hospedaria, deixá-lo aos cuidados da hospedaria, arcar com os custos…

Trata-se de uma iniciativa propositiva, de enorme carga protagônica. Movido pela com-paixão, traduz com atos concretos seu sentimento de compromisso com a vida. Isto é anunciar por gestos concretos! Assim procedendo, o bom samaraitano, sem o dizer, está praticando renúncia: tal como sucedeu ao sacerdote e aolevita que, indiferentes à dor da vítima do assalto, passaram ao largo do caminho, ele poderia arrumar alguma autojustificativa, e fazer o mesmo… A atitude do samaritano acena, igualmente, para uma postura denúncia – ainda que implícita -, à medida que desmascara a postura de indiferença e de omissão.

Todas estas atitudes – de renúncia, de denúncia, de anúncio, e cada uma ao seu tempo e em seu contexto – seguem fundamentais, frente aos desafios pessoais e coletivos de hoje. Dada, porém, a complexidade de nossa atual realidade social, eclesial e psicológica, a do anúncio parece despontar como mais urgente. Tanto ou mais do que ontem, as posturas propositivas parecem merecer mais credibilidade e mais eficácia. Se olhamos,por exemplo, o atual contexto sócio-político, percebemos a fragilização dos atos de mera denúncia, uma vez que isto se faz de modo tão frequente, que soa abusivo e de pouca credibilidade, fato que nos remete à conhecida afirmação feita pelo Papa Paulo VI, em sua Exortação Apostólica intitulada “Evangelii nuntiandi”: “Os homens de hoje escutam mais as testemunhas do que aos mestres. E, se escutam também estes, é porque eles são testemunhas.” (EN, n. 41).

Ainda no plano político, às forças sociais historicamente comprometidas com a construção de um modelo societal alternativo à barbárie capitalista, já não basta apenas reagir à sucessão de desmontes das políticas públicas, mas são chamadas a se reorganizarem de tal modo, a ousarem iniciativas alternativas ainda que moleculares, como já acontecem em numerosas experiências grávidas de alternatividade, espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, a exemplo das experiências agroecológicas e de convivência com o Semiárido.

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