REMOVENDO A CINZA, SE RECOBRA A BRASA: IMPRESSÕES DA II SEMANA TEOLÓGICA JOSÉ COMBLIN

Por Alder Júlio Ferreira Calado Diferentes olhares costumam suceder à realização de um evento. Sobre a II Semana Teológica José Comblin, não haverá de ser diferente. Atrevo-me, de minha parte, a compartilhar algumas impressões que tal experiência me inspira, ao calor do encerramento, na noite de ontem, 14 de setembro, em João Pessoa.

Dela saio com a viva impressão de que respondeu, de algum modo, ao palpitante desejo de tantas pessoas que, dentro ou fora dos espaços eclesiásticos, anseiam por uma reflexão crítica sobre os descaminhos em que se acha metida a Igreja Católica Romana pelo seu sistema de organização piramidal. Em meio a sucessivas e graves turbulências nessa travessia, resulta patente e mais forte a necessidade de se exercitar mais densamente o discernimento, a criticidade, como condição e como ponto de partida à retomada da esperança, marcas tão presentes do/no legado de José Comblin.

Com efeito, toda uma sucessão de graves ocorrências há de merecer um posicionamento crítico por parte de seus membros, tanto do mundo dos leigos e leigas, como por parte de outros segmentos que se sentem indignados, mas avaliando-se por vezes impotentes de esboçar uma atitude propositiva mais lúcida e serena, que seja fruto do necessário discernimento. Nesse sentido, contribuíram fecundamente dois momentos articulados de uma mesma iniciativa conjuntamente assumida. Refiro-me 1) à experiência vivida durante o Seminário sobre os 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II (1962-1965), momento vivido, há menos de um mês, em João Pessoa, nos dias 14, 15 e 16 de agosto passado, do qual destacamos a notável contribuição apresentada por Dom José Maria Pires; e 2) a II Semana Teológica José Comblin, mais destinada arecobrar, num esforço prospectivo, o pós-Vaticano II, foco de nossa atenção, nessas linhas.

Antes de considerar o temário trabalhado, julgo pertinente destacar alguns pontos relativos à forma de organizar a II Semana Teológica José Comblin, desde seus preparativos. É de se notar como relevante a combinação dos sujeitos coletivos organizadores: o Grupo Kairós/Nós Também Somos Igreja, o Grupo Igreja dos Pobres, o Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos, da UFPB, Ameríndia, Adital, Livraria Paulinas. Parceiros formados fundamentalmente por Leigos e Leigas. Avalio como positiva a escolha do local da II Semana: além de um espaço público (imune, inclusive, a eventuais injunções ou arbitrariedade de autoridades eclesiásticas), a UFPB também se constitui uma referência apreciada, por ter sido a instituição da qual o homenageado recebeu, em 2003, o título de “Doutor honoris causa”.

Pela leitura do “folder” do evento, percebe-se quanto o temário tem a ver com as intuições-mor de José Comblin: o protagonismo dos leigos e leigas, a centralidade na causa dos pobres (para quem é dirigida a Boa Nova), donde a ação das forças da Igreja na Base, em suas mais distintas expressões: CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), Encontro de Irmãos, Ação dos Cristãos no Meio Rural (ACR), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Ação Católica Operária (ACO), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Pequenas Comunidades de Religiosas Inseridas no Meio Popular (PCIs), Teologia da Libertação (TdL), Teologia da Enxada e seus distintos segmentos, Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), Pastoral de Juventude do Meio Popular (PJMP), Pastoral Operária, Pastoral da Criança, Pastoral Carcerária, Pastoral do Povo da Rua, dentre as principais.

Já na abertura dos trabalhos, no acolhimento e boas-vindas aos presentes, apresentados por Aparecida Paes Barreto (Cida), precedida por Ricardo Brindeiro, a animar o ambiente, com seu violão e sua música, sendo ambos membros do Grupo Kairós/Nós Também Somos Igreja, Cida tratou de

– situar o sentido da iniciativa de cuja organização atuam em parceria os seguintes grupos e entidades: Kairós/Nós Também Somos Igreja, Grupo Igreja dos Pobres, Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos/UFPB, ADITAL, Ameríndia, Livraria Paulinas;

– rememorar aspectos-chave da I Semana de Teologia Pe. José Comblin;

– relembrar a programação da Semana;

– convidar os componentes da Mesa da primeira noite da Semana: Eduardo Hoornaert (historiador, escritor, co-fundador da CEHILA); Mônica Muggler (missionária, animadora das escolas de formação missionária) e Luciano Batista de Souza (pastor da Primeira Igreja Batista de Souza – PB, teólogo e educador);

– resumir dados biográficos de cada expositor/expositora, aos quais passou a palavra.

Eduardo Hoornaert, em seu texto intitulado “O Pós-concílio no Nordeste: a contribuição da teologia da enxada na perspectiva da missão e da libertação” (ver íntegra do seu texto e outros, em www.teologianordeste.net ), em sua exposição distribuída em oito pontos, decidiu sublinhar a dimensão de educador de/em José Comblin, destacando a força heurística do seu método, a partir das intuições colhidas no livro por ele organizado Teologia da Enxada (Petrópolis: Vozes, 1997).

Cuidou de assegurar voz aos protagonistas dos relatórios e da experiência da Teologia da Enxada (os nove seminaristas que compuseram os dois primeiros núcleos daquela experiência, um radicado em Salgado de São Félix – PB, enquanto o outro, em Tacaimbó – PE. Ao ler trechos de seus relatos, ia mostrando os desafios daquela proposta alternativa aos estudos seminarísticos clássicos muito apoiados numa metodologia escolástica. Diferentemente, os protagonistas da Teologia da Enxada, sob a orientação de Comblin, partiam da realidade concreta do povo dos pobres, de seu cotidiano vivido (casa, família, trabalho, festa, corpo, religião, santos, etc.). Seu plano de estudos previa todo um ano de observação e reflexão desse universo popular, perto do qual eles viviam. O segundo ano era dedicado ao estudo da vida, da paixão, da morte, da ressurreição de Jesus, do Reino de Deus, tendo como inquietação principal examinar semelhanças e diferenças entre a vida de Jesus e seus seguidores e a vida dos pobres daqueles lugares. Outro ano era dedicado à Moral (justiça, sexualidade, relações humanas e sociais). Também o tema eclesiologia estava previsto, mas nada consta no livro examinado.

O método é o que faz a grande diferença da proposta pedagógica de Comblin. Método para cuja elaboração ele vai valer-se, por um lado, do conhecido fundador da JOC (Juventude Operária Católcia) Pe. Joseph Cardijn, sacerdote belga que Comblin conhecera desde o Seminário de Malinas, famoso pela sua proposta do método da Ação Católica, o Ver-Julgar-Agir. Por outra parte, Caomblin também recorre a Paulo Freire, em suas conhecidas “palavras geradoras”.

Com tal metodologia, Comblin enxerga muito além do Vaticano II, do qual parte, mas já reconhecendo seus limites, como atesta em recente artigo comemorativo dos 50 anos de sua abertura. Instiga-nos sempre a ir além, através desse método de atenta observação dos fatos da realidade, do confrontá-la com o Evangelho e da busca de pistas de enfrentamento e superação dos desafios.

Quanto às exposições de Mônica Muggler e Luciano Batista de Souza, seja-me permitido, por enquanto, apenas oferecer alguns poucos elementos ou uma breve notícia. A Missionária Mônica, a partir de sua experiência missionária no Nordeste, há mais de 26 anos, e acompanhamento da trajetória do Pe. José Comblin, nesse período, sublinhou traços bem característicos do jeito de ser do Pe. José, sua simplicidade, sua fidelidade à causa do Evangelho na defesa dos pobres, sua coragem profética, seu trabalho incansável pelas estradas do Nordeste, inclusive acompanhando as Escolas Missionárias, sua densa contribuição a diferentes povos na América Latina, inclusive à causa indígena no Equador, na companhia de Dom Leonidas Proaño, o bispo da causa indígena, que vivia pobremente e a quem tanto Comblin admirava. Também deu notícias da organização das Escolas Missionárias, inclusive da mais recente, fundada em Nazaré da Mata, bem como do livro póstumo de Pe. José, que ela organizou e que deve sair em outubro, versando sobre o Espírito Santo na tradição evangélica. O Pastor Luciano, por sua vez, rememorou seu encontro, primeiro, com obras de Comblin, e só depois tendo-o conhecido e passando a freqüentar encontros regulares do Grupo que se reunia mensalmente na casa do Pe. José. Sublinhou a importância de sua contribuição à Teologia da Libertação e, especialmente à Teologia da Enxada. Destacou, também, a importância do método na pedagogia combliniana, e suas afinidades notáveis com a pedagogia freireana.

A partir da memória dessas experiências, mas com propósito prospectivo, trataram os participantes – seja nas palestras, seja nas oficinas ou nos debates em plenária – de trabalhar diferentes ângulos dessa experiência. Na noite de abertura, por exemplo, a tônica das palestras girou em torno da reconhecida contribuição de José Comblin às iniciativas de organização, de formação e de mobilização dessas forças da Igreja na Base, na qual também se acham inseridas as diferentes atividades da Teologia da Enxada (o Centro de Formação Missionária (CFM), a Associação dos Missionários e Missionárias do Campo (AMC), a Associação dos Missionários e Missionárias do Nordeste (AMINE). O Grupo de Missionárias do Meio Popular, a Associação da Árvore, a Fraternidade do Discípulo Amado, as várias Escolas de Formação Missionária, espalhadas pelo Nordeste… Nessa Oficina, com a animação especial de participantes como o Pastor Paulo César, da Igreja dos Bultrins, em Olinda – PE, do Prof. Gilbraz, da UNICAP, e do Prof. Artur Peregrino, foram tomados como foco especial de reflexão duas experiências (dentre tantas) da Igreja na Base, no Nordeste: a experiência de evangelização dos anos 60 e 70, em Olinda e Recife, mais conhecida como Encontro de Irmãos, e a experiência iniciada em 1986 até hoje, conhecida como Grupo dos Peregrinos e Peregrinas do Nordeste. Sobre cada uma delas, tanto durante a Oficina, como durante a Plenária, foram apresentados elementos de denso alcance eclesial, não só como memória, também como esforço prospectivo, a exemplo do que se disse acerca do Grupo de Peregrinos e Peregrinas do Nordeste, do antigo MER, hoje Movimento das Comunidades Populares (MEP).

Outra Oficina foi dedicada à reflexão compartilhada de experiências concretas de hoje, dessa/nessa Igreja na Base, tendo sido destacado o trabalho pastoral feito, em Fortaleza, com os moradores e moradoras da rua, o Povo da Rua, tratado como Povo de Deus. Feita a apresentação dos participantes da Oficina, coube a Fernanda, a João e a Júnior animarem a reflexão. Fernanda e João começaram projetando imagens com cenas do Povo da Rua, enquanto Fernanda nos perguntava o que cada um, cada uma de nós tinha na mente, quando se fala de moradores de rua. Aí houve um desfile de expressões, predominando a palavra “medo”; outras pessoas acrescentaram outras expressões: “desenraizamento”, “perda de identidade”, etc. Passou-se, então, a ver os estereótipos de que são alvo as pessoas que vivem e trabalham nas ruas e praças de nossas cidades, hoje alcançando uma estimativa perto de 50 mil, só nas maiores cidades do país. Pessoas que, por um leque de razões, decidem viver na rua: perda de vínculos familiares e comunitários, precarização extrema da qualidade de vida, sedução/aliciamento pelo mundo das drogas, pequenos furtos como estratégia de sobrevivência, forma de lidar com situações de perseguição, etc., etc. Por vezes, tal a precariedade dos laços familiares, que alguns preferem viver na e da rua, a seguir agüentando a opressão doméstica. Nessa experiência, não se deve reduzir tudo à negatividade. Há também os momentos de cooperação, de partilha, de confraternização, de celebração, de convívio íntimo entre pessoas hetero ou homossexuais. À compreensão de sua situação concreta e do trabalho de aproximação e serviço gratuito a essas pessoas, também importa atentar para as raízes sociais e políticas dessa situação, ao lhes serem negados direitos e políticas sociais específicas. Noutro momento, coube a Francisco Aquino Júnior, teólogo da libertação, cujo livro foi também lançado à noite do segundo dia, trazer uma fecunda reflexão bíblica acerca dessa experiência, sublinhando, pois, o olhar teológico, mas atento, ao mesmo tempo, a outras dimensões a que a teologia deve estar atenta.

A Oficina 3 (“Desafios para o Cristianismo: a contribuição de José Comblin) foi realizada à tarde do segundo dia, animada pelo Prof. Eduardo Hoornaert, e compartilhada pelos demais participantes, em especial pelo Pastor Paulo César e pelo Prof. Gilbraz. Coube a Eduardo fazer a síntese dos oito artigos que compõem a coletânea do mesmo nome da Oficina, por ela organizada. Tratou, pois, de resumir as contribuições de Carlos Mesters (feita por meio de uma carta, onde sublinha sua leitura de Comblin); de Pablo Richard (uma leitura da produção teológica de Pe. José; de Ivone Gebara, para quem o fato de Comblin não ter trilhado propriamente os caminhos do feminismo, deu prova de notável sensibilidade, por ocasião da onda de criminalização do aborto, usada como estratégia reacionária contra a candidatura de Dilma, divulgado um texto crítico de grande coragem profética; de Marcelo Barros, que destacou, em Comblin, elementos inspiradores de uma espiritualidade bolivariana; de François Houtart, trazendo reflexão crítica quanto aos desafios ecológicos; de Sebastião Armando, assumindo caminho semelhante ao trilhado, na mesma coletânea, por Richard, quanto à temática abordada; de Luiz Carlos Susin, sublinando as afinidades de método entre José Comblin e Paulo Freire;de Jung Mo Sung, abordando a diversidade de contribuição das gerações, partindo da abordagem combliniana entre o provisório e o definitivo. Por discrição e humildade, Eduardo não mencionou seu próprio texto introdutório à coletânea, onde frisa em Comblin as marcas de criticidade e compromisso.

Tendo em vista que o Pastor Paulo César e o Prof. Gilbraz não poderiam permanecer no Encontro, graças a compromissos previamente agendados, foi sugerido e acolhido que eles pudessem contar com um espaço para dizer dizer uma palavra. Paulo César, ao recordar os abençoados contatos com o Pe. Comblin, em diferentes ocasiões, lembrou que os debates predominantes sobre a obra de Comblin evocavam fundamentalmente situações do mundo rural, e bem menos os desafios urbanos, sobre os quais também ele se debruçou. Em sua dissertação, Paulo César decidiu optar pelo exame em Comblin de suas intuições relativas ao universo urbano. Debate tanto mais necessário e urgente, quando se sabe do acelerado ritmo de urbanização de nossa sociedade. Fazendo coro com tais inquietações, Gilbraz também manifestou o desejo de melhor articular os estudos e pesquisas sobre Comblin, lembrando da iniciativa recente de recolher cópias do vasto material exposto no Memorial José Comblin, em Solânea, material a ser juntado aos milhares de livros que Comblin doou à Universidade Católcia de Pernambuco. Daí a necessidade de se pensar num trabalho conjunto entre os vários grupos que, em alguns Estados do Nordeste, se têm dedicado ao estudo da obra de Comblin.

À noite do segundo dia, tivemos a palestra do teólogo Agenor Brighenti, da PUC/PR, versando sobre “A Teologia da Libertação, numa perspectiva ameríndia”. O Prof. Agenor, recorrendo a um rico material visual, cuidou de sintetizar os principais momentos mais emblemáticos da TdL, na América Latina e no Brasil, buscando situar as contribuições exponenciais, de Comblin a Gutiérrez, de Hugo Assmann a Juan Luis Segundo, passando por Jon Sobrino, por Carlos Mesters, por Leonardo Boff e outros. Trouxe à tona momentos tensos na trajetória da TdL, sobretudo em sua difícil relação com Roma, a partir do pontificado João Paulo II. Sublinhou a vigência da TdL, não obstante o atual quadro sócio-eclesiástico de distanciamento dos temas ligados às inquietações-chave do Concílio Vaticano II, e sobretudo da Conferência de Medellín e Puebla. Contexto adeverso, em que têm grassado expressões católicas neopentecostais, inclusive por meio da mídia católica oficial. Em meio a tal conjuntura adversa, lembra a ousadia do Congresso Continental, a realizar-se em São Leopoldo – RS, justamente para comemorar quatro décadas de Teologia da Libertação, na América Latina e Caribe, trazendo à baila uma pluralidade temática trabalhada pela Teologia da Libertação, inclusive o estilo da teologia testemunhal protagonizada pelos povos ameríndios. Nesse sentido, também, se expressou o Pe. Ermanno Allegri, diretor de ADITAL, compartilhando belas experiências de teologia testemunhal em andamento em diferentes lugares do nosso continente: do México ao Chile, passando pela América Central (Guatemala) e pelos Andes (Colômbia). Experiências que ele acompanhou, recentemente, graças à participação em recentes encontros precedendo ao Congresso continental de Teologia, a realizar-se em outubro vindouro. A fala do Pe. Josenildo Francisco de Lima ateve-se mais diretamente aos desafios colocados pela atual conjuntura eclesiástica, de tentativa de desmonte das fecundas experiências da Igreja na Base. Citou o enorme esforço das CEBs, que ele acompanha mais de perto, assessorando encontros regionais. Lembrou, igualmente, a pertinência de iniciativas como a “Pfarrer Initiative”, assinada por algumas centenas de padres da Áustria e outros países europeus.

No dia 14, estava prevista a plenária das oficinas, que ocorreu na parte da manhã, e sobre o que alguns elementos já foram repassados, acima. Na sexta-feira, à tarde, deu-se uma roda de diálogo entre alguns jovens teólogos, com o objetivo de compartilhar suas intuições e suas produções teológicas. Como encaminhamento mais forte, propôs-se a realização periódica de encontros específicos de jovens teólogos, seja de forma presencial, seja também por via eletrônica. Além disso, enfatizou-se a importância de se contar com o “site” www.teologianordeste.net (respectivo “mail: [email protected] ), página coordenada pelo Pe. Hermínio Canova e por Carmelo, ambos participantes da II Semana.

À noite do último dia, tivemos a palestra do Prof. Luiz Carlos Susin, seguida das reflexões do Prof. Francisco Aquino Júnior e da Irmã Maria Conceição, das Cônegas de Santo Agostinho. O Irmão João Batista Magalhães, que não pôde participar desta Semana, por conta de pequeno acidente do qual se recupera, foi lembrado na ocasião. Em sua fala, o Prof. Susin propôs e discorreu, tomando como referência a teloggia e o legado do Pe. José Comblin, cinco pontos de reflexão, a partir do tema que lhe foi proposto: “Por uma teologia testemunhal a serviço da humanidade”. Começou abordando a teologia como elaboração acadêmica acerca da fé do Povo de Deus. Sempre remetendo-se ao Pe. José, com quem atuou em distintos fóruns teológicos, no Brasil e fora do Brasil, recordou uma atitude de Comblin, inicialmente, alertando os teólgos a que cuidassem em aproximar-se do mundo acadêmico como meio de uma interlocução mais aberta com a modernidade, inclusive dela se beneficiando em vista do rigo do método acadêmico, o que lhe parecia, nesse primeiro momento, como um antídoto à tendência de uma elaboração teológica com tendência a vícios endogênicas. Mas, nos últimos tempos, ele inverteu seu conselho: agora, era preciso tomar certa distância por conta da tendência ao modismo acadêmico e, sobretudo, aos riscos de se apartar a elaboração teológica da vida do povo dos pobres.

Um outro ponto tem a ver com o cuidado que se deve ter, na elaboração teológica, em se exercitar a criticidade, inclusive aos valores mais cultuados na Academia. Criticidade que deve tomar como horizonte os valores do Evangelho, nem sempre apreciados pelo mundo acadêmico nem pelas instâncias eclesiásticas. Para se fazer Teologia da Libertação, há de se cuidar, primeiro, de se aproximar de uma condição de liberdade, em que o teólogo, a teóloga cuide sempre de manter um pé firme na Palavra d Deus, seu porto seguro, e outro nos embates sócio-conjunturais, dentro ou fora dos espaços eclesiais. Não se faz Teologia da Libertação, sem essa busca incessante de se sentir primeiro alguém livre, a partir do que se pode entregar ao esforço de libertação.

Na sequência, tivemos a contribuição sempre instigante, inspirada e inspiradora do jovem teólgoo Francisco Aquino Júnior. Ressaltou uma dupla herança teológica em Comblin: a vertente da modernidade (criticidade, autonomia, razão…) e vertente da paixão pela causa dos pobres. A despeito de sua crítica sistemática às tramas do sistema, tal crítica perde força nele, quando se trata de apreciar as contradições dos pobres. Parece mais suave quando se trata de observar as inconsistências dos pobres, por ex., ao venerarem Pe. Cícero, independentemente dos laços deste com os coronéis da época. A fala da Irmão Conceição foi proposta, como ela enfatiza, já de início, a partir do coração. Trata de rememorar os laços afetivos entre Comblin e sua Congregação, desde a chegada ao Brasil, daquele. Sublinha sua fidelidade ao Evangelho, sua simpliciade, sua coerência, sua forma amável de lidar com as pessoas, sem abdicar da sinceridade.

Diante dessas reflexões, que impressões mais fortes recolho dessa II Semana Teológica José Comblin? Eis alguns pontos:

Quanto ao sentido da iniciativa – Creio haver consenso entre os participantes, no tocante ao acerto da realização e vivência de um espaço autônomo de reflexão compartilhada em torno do aporte de José Comblin à Teologia da Libertação. Aporte que nos instiga a ir além do mero exercício da memória (saudosismo), sem compromisso prospectivo atualizado. Não é à-toa – lembrava Susin, a propósito de Comblin – tratar-se de alguém reverenciado pelos seus pares como um dos patriarcas da Teologia da Libertação. Sentimento fundado em diferentes traços de Comblin:

– Necessidade de reforçar nossa articulação – Um mero exercício de memória saudosista tende a limitar-nos a um encontro meramente celebrativo: pode acontecer periodicamente, mas sem compromisso inovador, marca maior do legado de Comblin. Isto nos incita a cuidarmos mais e melhor de construir espaços de articulação e de produção de coisas novas, alternativas ao “espírito do tempo”, tendo a tradição evangélica como referência.

– Ousar, com lucidez e serenidade, dar passos inéditos – Já não se trata de ficar à espeara de que as coisas aconteçam espontaneamente, ao acaso, sem nos darmos ao trabalho de buscá-las, fazendo a nossa parte. Se outros e outras têm dado sua notável contribuição (por ex. as freiras dos Estados Unidos, organizadas na LCWR ou mesmo a “Pfarrer Initiative”), por que ficamos inertes? Não se trata de imitar ninguém, mas de ousarmos atitudes heurísticas, pela força do Espírito transformador.

João Pessoa, 15 de setembro de 2012.