Rememoração retroprospectiva de um movimento popular a caminho de sus 50 anos

Ontem como hoje, os movimentos sociais populares continuam sendo o principal segmento da sociedade civil responsável, juntamente com outras organizações de base, pelas mudanças sociais mais relevantes.

Trata-se de um amplo leque de movimentos sociais, caracterizados por suas respectivas bandeiras de luta. São movimentos sociais, sindicais e populares (sem esquecer dos sindicatos patronais…) do campo e da cidade, protagonistas de uma extensa diversidade de lutas sociais que, didaticamente, podemos classificar por meio de certas categorias:

Classe:

Nesta categoria, cuidamos de distinguir entre organizações e movimentos da sociedade civil que atuam em direção oposta: os que lutam para preservar e ampliar seus interesses de classe dominante, de um lado; e, de outro, aqueles movimentos sociais, sindicais e populares, que lutam para mudar as relações hegemônicas vigentes. Tomamos o cuidado, todavia, de distinguir, mesmo no âmbito dos que também se chamam movimentos populares, entre os que se empenham em defender e promover apenas suas respectivas bandeiras de luta (terra, moradia, aumento salarial, etc.) e os que, também fazendo isto, priorizam os interesses da Classe Trabalhadora, entendida como composta por todos-os-que-vivem-do-seu-trabalho”. Neste sentido, nem todo movimento popular se caracteriza como um movimento classista.

Espacialidade: aqui situamos os movimentos sociais populares do campo e o das cidades, a lidarem, cada qual, com suas bandeiras específicas;

Gênero: são movimentos diversos a propugnarem pela igualdade nas relações sociais de gênero. A despeito do registro da existência de alguns grupos ou movimentos protagonizados por homens, trata-se, em sua enorme maioria de movimentos sociais femininos e feministas, a lutarem contra uma tendência crescente de crimes e violências contra a condição feminina, oscilando de feminicídios a estupros, agressões múltiplas, discriminações, flagrantes desigualdades sociais (nas relações de trabalho, na percepção salarial, nas estatísticas de desemprego…);

Etnia: aqui nos voltamos para aqueles movimentos sociais populares protagonistas de causas de natureza étnica: desde os povos originários vitimas das formas mais perversas de colonização e de neocolonialismo, a desrespeitarem gravemente seus direitos mais elementares (sua cultura, seus territórios, suas crenças, seu tipo de organização…) às comunidades quilombolas, vítimas como os povos originários, de semelhantes mazelas históricas, ainda passando por outros povos tradicionais, das florestas, das águas, pescadores, ribeirinhos, etc.

Geração: alcançam os vários segmentos populares, a partir de suas características etárias, tais como o Movimento das Crianças e Adolescentes (MAC), os vários movimentos estudantis, outros mais protagonistas do mundo das artes e da Cultura, e até alguns segmentos de pessoas idosas.

Além destas categorias, devem ser lembrados muitos movimentos populares que se organizam a partir de motivações específicas, ligadas às mais diversas Políticas Públicas.

Dentre tantos movimentos populares, aqui tratamos, de passagem, apenas de um deles: O quase cinquentenário Movimento das Comunidades Populares (MCP), organizado em vários Estados e Regiões do Brasil, e, durante essas décadas, assumindo distintos nomes, conforme a conjuntura sócio-política apresentada.

O MCP é sucedâneo da JAC (Juventude Agraria Católica), uma das cinco expressões da chamada Ação Católica Especializada, voltada para a ação cidadã de jovens cristãos católicos, ligados ora ao meio estudantil (JEC), ora mais associados à Classe Média (JIC), ora ao meio universitário, (JUC) que, em resistência à Ditadura Civil-Militar, acabou desembocando na formação da Ação Popular, juntamente com outros segmentos de esquerda), ora ao meio operário (JOC, que constituiu a expressão mais relevante da Ação Católica Especializada), ora protagonistas da causa camponesa (JAC).

É na JAC que tem origem o MCP. Tendo em vista a crescente onda de violência e repressão movidas contra as organizações de resistência popular, os vários segmentos da Ação Católica Especializada passaram a ser vítimas de crescente perseguição, inclusive de desbaratamento por parte da Ditadura, razão pela qual seus sobreviventes passam a atuar pela sigla MER (Movimento de Evangelização Rural). Estamos nos anos 70. Tempos tenebrosos, de uma correlação de forças profundamente desigual. As organizações de resistência à Ditadura Civil-Militar, em seu período mais violento, enfrentam desafios acima de suas forças: passam a ser, uma após outra, dizimadas, sob vários aspectos. É aí que começam a ganhar força os espaços eclesiais, graças, não apenas a uma geração de bispos profetas (Dom Helder, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Ivo Lorscheiter, Dom Antônio Batista Fragoso, Dom José Maria Pires – para destacar apenas estes, de um elenco mais amplo), mas também à atuação cidadã de alguns segmentos eclesiais progressistas (as CEBs, o CIMI, a CPT, a ACR, o MER, a CPO, as Comissões de Justiça e Paz, as PCIs, os CDDHs, o CEBI, entre outros, e teologicamente bem fundamentados na Teologia da Libertação (sobre tais segmentos, já tivemos oportunidade de refletir, algumas vezes (cf. textos de alder calado). Graças aos compromissos assumidos, desde o Pacto das Catacumbas (1965), e fortalecidos pela Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín (1968), esses segmentos eclesiais passaram a ser o principal vetor de resistência ao regime ditatorial, permitindo o acolhimento em seus núcleos de muitos sobreviventes à perseguição crescente movida pelo regime imperante.

O MER constitui, por conseguinte, um desses segmentos de resistência que, pela sua radicalidade, veio a enfrentar, não raramente, algumas dificuldades em seu relacionamento com a hierarquia. Por esta razão e por outros fatores conjunturais, o MER houve por bem assumir outros nomes, conforme a tendência da conjuntura. De MER passou um tempo assumindo-se como uma corrente sindical de trabalhadores independentes (CTI), enquanto tempos depois, optou por atuar como um movimento de comissões de lutas (MCL), até desaguar, nos anos 2000, assumindo-se como Movimento das Comunidades Populares.

Relevante assinalar, na cinquentenária trajetória do MCP, alguns traços que tem conseguido guardar, através de distintas conjunturas:

– mantém-se enraizado nos mais diversos ambientes e lutas populares, no campo e na cidade. Marca decisiva para qualquer organização que se pretenda comprometida com as causas libertárias de construção de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal, mantendo-se leal, não apenas ao rumo aonde busca chegar, como também às veredas compatíveis com tal rumo;

– tem buscado manter-se autônomo, quer em relação ao Mercado, quer em relação às instâncias governamentais;

– sua meta de autonomia não se esgota em decisões formais: trata de optar por caminhos concretos que viabilizem seu desiderato: seja pelas vias da automanutenção, viabilizada pelos tostões em caixa-comum, para financiar suas atividades;

– mantendo, a duras custas, seu periódico formativo e informativo, “Jornal A Voz das Comunidades”, fazendo questão de fazê-lo chegar às mãos de seus membros, não apenas como instrumento informativo, mas sobretudo como ferramenta de formação contínua;

– fomentando atividades de visitas, reuniões, encontros, atos de mobilização, nos distintos setores em que se acha organizado (de modo a abranger, entre outros, Juventude, Cultura, Saúde, Moradia, experiências agroecológicas, Artes, trabalhos coletivos, mutirões, etc., etc.);

– tem mantido a realização de seus Encontros (municipais, estaduais, nacionais), durante os quais cuida de examinar a conjuntura e daí extrair um plano de lutas, com ampla participação de seus membros…

Sob esse clima, é que se deu a realização do mais recente Encontro do MCP, na Paraíba, realizado em sua sede, em Santa Rita – PB, no Alto das Populares, sobre o qual cuido, a seguir, de fornecer uma breve notícia.

Tratou-se de um Encontro de confraternização de antigos e novos militantes, inclusive em vista da visita de antigos militantes do MER, vindos de outros Estados, principalmente da Paraíba, desde o Alto Sertão (Carrapateira, Cajazeiras, Uiraúna, Patos…), do Agreste (Itabaiana, Mogeiro), do Brejo (Alagoa Grande), de Mamanguape, da Área Metropolitana de João Pessoa (João Pessoa, Santa Rita, Bayeux).

Carinhosamente preparado o ambiente pelos anfitriões, a partir das oito horas do dia 22 de outubro próximo passado, foram chegando os participantes, e cumprimentando-se alegremente, em volta de uma mesa, servindo-se de um apetitoso café da manhã. Por volta das 9 horas, ouve-se o chamado de Tiago, a quem fora delegada a tarefa de expressar as boas-vindas aos participantes, bem como de introduzi-los à programação do Encontro. Tiago pergunta aos presentes com que motivações vieram ao Encontro, foram convidados para que objetivos. Sucede-se uma roda de intervenções, já com a indicação de que cada qual cuide de apresentar-se: nome, vindo de onde, de que Estado, de que região, de que Assentamento, comunidade, sindicato, fazendo que atividades, etc.

Vivenciada esta fase, e reavivada a programação do dia, passou-se à exibição de um vídeo que, por meio de uma ampla sucessão de fotos (tomadas em distintas etapas de MCP), por meio de músicas características do movimento, e por meio de faixas ou escritos, tratou-se de rememorar o MCP, em suas distintas etapas. Este procedimento propiciou aos participantes um estímulo especial de reencontro com seu movimento. A partir daí, nova roda de intervenções, em que antigos e novos militantes, a partir de sua atuação específica no MCP, passaram a destacar momentos mais impactantes de sua vivência, de sua relação com o movimento.

Ainda na parte da manhã, propôs-se que se formassem quatro grupos, para refletirem sobre questões ligadas a facetas da trajetória do MCP, numa perspectiva avaliativa, e sobre as urgências atuais que o movimento se sente mais desafiado a priorizar. Aqui também se incluiu alguma discussão sobre os principais pontos do mais recente Encontro nacional do MCP, realizado em Feira de Santana – BA.

Após um saboroso almoço, preparado por militantes do movimento, a exemplo de Maíra, os participantes retomaram os trabalhos, a começar pela socialização dos principais pontos levantados nos grupos, a que se seguiu nova roda de intervenções, sendo os participantes estimulados a considerarem em suas falas o que consideravam constituírem as grandes prioridades do MCP, e como, a partir da realidade de sua área (sindical, assentamento, etc.), poderiam organizar-se para levar a termo tais prioridades, tomando em consideração os onze eixos de lutas, tirados no último Encontro nacional, com foco mais forte em cima das lutas em torno da escandalosa dívida pública.

A coordenação deste Encontro, em Santa Rita, assumiu o compromisso de socializar oportunamente uma síntese deste encontro. O propósito destas linhas, é claro, não foi este, mas o de ressaltar alguns aspectos do cotidiano de um movimento popular e de suas atividades que vêm resistindo ao tempo – ele está a dois anos de completar meio século! -, de modo consequente, a despeito dos tremendos desafios enfrentados e a serem enfrentados. Uma inspiração de resistência propositiva para as classes populares, em tempos sombrios. Viva o MCP!

Olinda, 09 de novembro de 2017.

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