Relembrar é viver e aprender

American Boy é um filme que Martin Scorcese fez em 1978, dois anos após o grande sucesso de Táxi Driver, mas também imediatamente posterior à realização de New York New York, numa época em que passava por um momento de depressão e se questionava sobre sua vocação como cineasta, por talvez estar desviando do caminho que havia pensando em tomar quando decidira trabalhar com cinema.

“If this movie doesn’t do big I’ll shave, or start doing cocaine”.

Verdadeira ou falsa, esta declaração poderia muito bem ter sido dita antes do musical sair em cartaz. Com a desaprovação do público confirmada e o fracasso de bilheteria após seu primeiro filme de grande orçamento, Martin acabou cumprindo uma das profecias.
E ele não fez a barba.

Em meio a boatos sobre um suposto relacionamento confuso com Liza Minelli e dúvidas sobre seu talento e suas escolhas como diretor, Scorsese faz American Boy, um média metragem de 50 minutos cujo tema e protagonista é um de seus amigos mais próximos naquele momento, Steven Prince.

princeSteven, que na época tinha 20 e tantos anos, havia exercido muitas profissões até 78, desde holdie de Neil Diamond até atendente em posto de gasolina. Mas naquele momento estava se consolidando no mundo de Hollywood, já havendo atuado em papéis secundários de Táxi Driver (Easy Andy) e New York New York. Mesmo bastante jovem Prince tinha muitas histórias pra contar e Scorsese, após pesquisas e anotações, resolveu chamá-lo para contar algumas de suas anedotas numa filmagem informal.

Apesar de encontrarmos alguns furos em sua vasta cinematografia, algo que me sinto a vontade em afirmar é que Martin Scorsese ama cinema e ama o que faz. Isso fica claro nos planos, na luz, no som, em cada detalhe de seus filmes, aos quais percebemos que ele deu toda a atenção possível, tirando, às vezes, até mesmo uma possível falha bem vinda ou deixando um tom superficialmente perfeito. Talvez por ser meticuloso demais, não deixa espaço para o acaso, para reações espontâneas ou erros.

American Boy é um respiro libertário em que tudo não precisava ser perfeito e bem acabado e um momento em que Scorsese abre espaço para o público se aproximar. Isso acontece em dois níveis: um é a forma que ele se coloca no filme.

Está sempre presente (visualmente ou por meio de sua voz, comentando ou fazendo perguntas), mas deixando-se de lado para destacar o verdadeiro astro, Steven Prince. Uma ótima cena para demonstrar isso é quando George, o dono da casa, vai abrir a porta para Prince e inicia uma (falsa?) briga, até que o mesmo, diz “You! Scorsese!”. Ao que este responde “What?”. Ou seja, ele só estava se restringindo ao seu papel de observador, deixando a ação se desenrolar e captando as imagens que se apresentavam a ele.

Martin Scorsese se mostra um verdadeiro maestro, que está ali para reger os instrumentos: luz, câmera, atores, o discurso, etc. Um belíssimo exemplo é quando George declara já ter ouvido de Steven que overdose não seria uma maneira ruim de se morrer. “You just get higher, and higher, and higher….” e quando Steven, do outro lado da sala começa a repetir também “higher and higher…”, Marty simplesmente faz um movimento com o braço indicando para a câmera fazer uma pan até chegar nele.

É esse equilíbrio entre protagonista e figurante que encanta. Ao mesmo tempo em que coordena tudo, muito ciente do que está acontecendo, é humilde e carinhoso. Não trata Steven apenas como um objeto temático ou um personagem, mas como um amigo.

Tão tenso de ter feito algo grande, com altas expectativas e responsabilidades, e ainda decepcionado com o resultado, resolveu se dedicar a algo que pudesse realizar rapidamente, entre amigos e sem grandes requisitos.

Tudo que ele precisava era de película, uma pequena equipe que fizesse o som e a câmera e um amigo cheio de histórias fantásticas para contar. Se verídicas ou não, isso não importava. O importante era a química entre Prince e Scorsese e Prince e a câmera. Ele domina o público com sua personalidade espalhafatosa e seus vários personagens, às vezes sombrio, outras hilário. Sem falar de sua presença física mesmo, muito marcante através da voz esganiçada, fundas olheiras, olhar esbugalhado, um jeito um pouco frenético e muito gestual de falar.

Entre momentos cômicos e absurdos, presenciamos também a vulnerabilidade de Prince ao falar sobre seu histórico com as drogas, a vez que matou uma pessoa e sua relação com o pai. Um dos depoimentos pérola é a descrição que mais tarde foi usada como uma cena por Quentin Tarantino em Pulp Fiction.

Assim, após mais ou menos, 12 horas de material filmado, 50 minutos foram selecionados na edição final, aos quais foi adicionada uma música de Neil Young, algumas cartelas e cenas de vídeos caseiros ilustrando o que seria a família de Prince.

O que nos leva ao segundo aspecto muito importante de American Boy: a aproximação do público através da exposição do dispositivo.

Seu tom quase caseiro e a intimidade com a qual foi realizado dá ao público a oportunidade de observar alguns dos procedimentos de feitura do filme, desde discussões sobre a quantidade de película no chassi, até frases como “Isso vai ter que ser editado, porque senão estragaremos o final da história”.
Vemos refletores que estão sendo usados como iluminação nos cantos do quadro e microfones “sobrevoando” suas cabeças. Percebemos a naturalidade do processo de filmagem, pela câmera na mão; sua mobilidade e enquadramentos soltos; o plano e o foco sempre ajeitados, à medida que as coisas acontecem e a maneira informal com que tudo está organizado. Por tudo isso, pelos cortes abruptos e pelo fato da câmera quase nunca filmar Steven de frente, que está quase sempre falando para Marty ou para todos, nos sentimos mais um no meio a roda de amigos, ouvindo histórias e dando risadas.

Ainda pensando em seu papel como maestro, aprendemos um pouco sobre Scorsese e seu processo como diretor e entrevistador, através de momentos em que percebemos que está guiando Steven, ao fazer pequenas perguntas que impulsionam o discurso e guiam a entrevista. Ou através do bloco de folhas que o acompanha sempre, certamente um roteiro com idéias e anotações de histórias que ele gostaria de colocar no filme.

A última cena é um epílogo que resume bem o sentido do documentário. Ao falar sobre o relacionamento recente com seus pais, Prince se vê requisitado a repetir-se algumas vezes, pois Scorsese acredita que o relato dramático foi contado de forma muito leviana. Acompanhamos a mudança no tom de voz e na forma com a qual ele fala e sentimos até mesmo que é doloroso falar seriamente daquilo.

Nesse momento temos todos os elementos a mostra: personagem, diretor e dispositivo e é onde Scorsese exerce mais ativamente seu papel, assumindo completamente sua função de regente, que antes poderia estar sublimada, mas que se pensarmos bem, estava sempre ali: na escolha do formato, na decisão de expor o dispositivo da filmagem, na única música de Neil Young “Time Fades Away”, etc.

American Boy é um filme simples e sincero que não está em busca de nenhuma grande verdade, mas prova que qualquer dúvida que Scorsese ou qualquer um pudesse ter em sua vocação como cineasta é desnecessária.