Reflexões crepusculares, por Maurice Barth

Faz muito tempo que eu me faço perguntas sobre minha Igreja… questões que se resumem nesta : como foi que essa casta governamental – que acabou substituindo a comunidade dos crentes – pode reencontrar o caminho dessa boa nova que, não obstante, ela me transmitiu?

Foi da Igreja que eu recebi a boa nova anunciada por Jesus, resumida desde o comecinho de seu ministério pela leitura que Ele fez de Isaías, na sinagoga :

«O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me consagrou com a unção».

«Ele me enviou para levar a Boa Nova aos pobres, para anunciar aos prisioneiros que eles são livres, e aos cegos que verão a luz, levar aos oprimidos a libertação».

E Jesus desenvolverá esta mensagem, em seguida:

Amai-vos uns aos outros, sede portadores de paz, lutai pela justiça.

Não procureis honrarias nem glória. Sede servidores dos vossos irmãos e irmãs, praticai a misericórdia, dedicai-vos, em primeiro lugar, aos pobres e aos deserdedos, vítimas das injustiças, não temais de colocar-vos à contra-corrente das convenções, das tradições, das autoridades.

Buscai a verdade, mas não a imponhais.

O que fizerdes aos menores dentre os homens, é a mim, Jesus, que o fazeis…

O Evangelho continua a Carta do Cristianismo. Como é que a Igreja chegou a pôr em prática outra coisa bem diferente?

A história é bem conhecida : o representante da criança nascida num estábulo, instala-se num palácio em Roma, com sua coorte e seis títulos principescos. Desde o século VIII, cria um Estado, com seus diplomatas, seus serviços de informações, seus cortesãos, suas intrigas. Torna-se então um soberano político de um território, com tudo o que isto supõe de pesada carga administrativa e de compromissos políticos. Jesus não previu isto!

Quantas vezes o papa pôs o exército para intervir, mesmo que tivesse sido para defender seu território, como quando recorreu ao exército francês, no século XIX.

Quantas vezes os núncios apostólicos se comprometeram com os regimes estabelecidos, como no caso do regime de Vichy, o que, aliás, provocou, em 1945, uma reação da revista dominicana «A Vida Intelectual », que pedia a supressão dos núncios.

Como defender seu território, dentro de um espírito evangélico?

Como evitar deixar instalar-se uma aliança do poder espiritual e temporal que suscita as cruzadas, as guerras politiqueiras e as guerras de religião, e finalmente uma história de violência?

Tudo isto é bem conhecido.

Ainda hoje, a Igreja tem dificuldade de se conformar, por não mais dominar o mundo, como o fez durante séculos. Continua a fazê-lo notadamente por meio do seu aparelho teológico, disciplinar, administrativo que lhe serve sobretudo para justificar-se de ditar a conduta de manter e de impor sua moral abstrata e arbitrária, sua lista de pecados veniais e mortais, seus ritos e seus dogmas.

Jesus Cristo disse : «Ide, ensinai todas as naçõe», mas não disse «imponde-lhes vossa língua, vossa cultura, vossos costumes e vossas tradições». Será que imaginamos o contra-senso que há em fazer a recitar o símbolo de Nicéia, vindo de uma cultura grega antiga. A Índios da Amazônia? E que ainda mais é em Latim ou em Espanhol, que não são línguas suas ?

Ela não se conforma, menos ainda, em mudar seus modos de governar, vindos de outra época. As elaborações intelectuais visando a enricar e abrir horizontes seguem estreitamente vigiadas. A inquisição não existe mais, mas as condenações sem recurso não pouparam os teólogos mais indiscutíveis como Yves Congar e Dominique Chenu, na França, ou Jon Sobrino, em El Salvador.

Remanescem demasiadas contradições entre a mensagem transmitida e sua aplicação, entre o apelo de Jesus ao despojamento e a prática do poder imperial, o fausto vindo da Renascença.

Demasiadas garantias são dadas à política dos poderosos em detrimento dos pobres que constituem a grande mairia da população mundial.

Aqui e ali, encontramos nos textos oficiais qualificativos que não correspondem à realidade : a Igreja se diz uma «sociedade perfeita», «perita em humanidade» ou ainda «servidora e pobre». Pobreza relativa quando se sabe que a Igreja da Itália possui um terço dos bens imobiliários do país e não paga impostos. A auto-satisfação em «perita em humanidade» se acha na encíclica de Paulo VI sobre o desenvolvimento «Populorum Progressio». Tal evocação, quando de um debate na televisão alemã, do qual participei em 1967, logo provocou uma explosão de riso.

Riso compreensível, quando se sabe que foi necessário esperar o Concílio Vaticano II para que a Igreja reconhecesse oficialmente a liberdade de consciência e os direitos humanos.

Hoje já não são apenas não-crentes a atacarem, como Voltaire, a Igreja, mas são crentes que, cada vez mais numerosos, contestam a estrutura e o funcionamento de sua Igreja.

De uns temos para cá, contestações abertas se manifestam entre os padres. Recentemente, na Alemanha e na Áustria, um texto subscrito por várias centenas de padres reclamava reformas na estrutura e no governo da Igreja. Seus bispos, que devem sua nomeação ao seu conservadorismo e ao seu conformismo. Naturalmente não se mexeram. Quanto ao papa, este contentou-se com chamar os cristãos à obediência. Mas, o movimento está lançado, ainda que seja minoritário.

AMÉRICA LATINA: QUANDO CRISTÃOS ENCONTRAM OS POBRES

Os acontecimentos que sacudiram os cristãos da América Latina, na segunda metade do século XX, constituem uma ilustração da incapacidade da instituição, de ter um novo olhar sobre a humanidade, e de responder aos apelos dos homens e das mulheres que buscam formar seus compromissos no mundo numa fé vivida no dia-a-dia.

Tais acontecimentos levantam, com efeito, duas questões : a do engajamento dos cristãos na vida social e a da atitude do Vaticano que reproduziu por aqui, uma vez mais, sua política geral no mundo, inspirada numa concepção de vida espiritual totalmente separada da vida social.

Como foi que ela consegui quebrar esses movimentos de engajamento de cristãos, recusando toda evolução ao interno de seu sistema, e fazendo a escolha política de apoiar os regimes autoritários?

Em meados do século XX, na Europa e na América do Norte, os movimentos de Ação Católica se apresentam bastante influlentes. Trata-se de movimentos especializados, conforme o tipo de profissão (operários na JOC, agricultores no CMR…), que se engajam fortemente nas lutas sociais da época com o lema «Todo o Evangelho em toda a vida». Os anos 50 e 60 são igualmente a época dos padres operários, padres que havia decidido integrar-se profissionalmente no mundo operário. Tais movimentos exercem – via Ação Católica do Canadá, notadamente – uma certa influência sobre as Igrejas da América Latina, que tomam a iniciativa de fazer pesquisa sobre a situação sócio-econômica em diferentes países do continente. Elas tomam, então, consciência do drama em que vive a maioria da população, e, por meio disto, das contradições entre tal situação e as exigências do Evangelho. Esse movimento de tomada de consciência preocupa-se, não só com a situação daquela época, mas igualmente com o seu enraizamento histórico.

Com efeito, desde a origem da colonização, o «rei católico» da Espanha acredita-se autorizado a distribuir terras dos Índios aos colonos que ele envia a esse novo continente, e isto em nome de uma visão teocrática de seu poder. Ele age em nome do papa de cujo poder se sustenta, e portanto, de qualquer modo em nome de Deus que reina sobre toda a terra, porque el acha que também recebeu a missão de se apossar desse continente desconhecido para «evangelizá-lo» : os Índios que não foram massacrados, são então batizados, querendo ou à força, e sua terra é distribuída aos colonos, nessa mesma ocasião. Foi assim que se construíram as grandes propriedades, e a oligarquia que delas se apossa e se tem perpetuado até o presente.

Apesar das advertências, como as do religioso dominicano Montesinos, a maioria dos colonos «católicos» não parou de tratar os Índios como seres inferiores ou mesmo como escravos. Cinco séculos após a chegada de seus antepassados, seus descendentes continuam sendo os principais proprietários e os senhores do jogo político.

Em meados do século XX, a maior parte dos países do continente é dirigida por ditaduras que, pela força da violêmcia, mantêm a ordem estabelecida por meio pela oligarquia colonial.

Foi neste contexto que cristãos decidem, nos anos 60, criar comunidades eclesiais de base (CEB). As CEB organizam a vida cotidiana em sua totalidade e assumem os diferentes aspectos da vida social: saúde, meio ambiente, ajuda social, educação e, naturalmente, vida cristã. Essas comunidades são por isso lugares de reflexão sobre o os laços da fé com a vida de todos os dias. Trata-se, com efeito, de tentar apreender os acontecimentos sob o olhar da fé, e inversamente de viver a fé sob o olhar dos acontecimentos. É o que se chama de «sinais dos tempos. A meditação do Evangelho é um elemento essencial das CEB.

Tais presenças na vida social e política tiveram consequências na prática religiosa desses países. Naqueles lugares onde eles antes se contentavam, com demasiada frequência, com o culto, os cristãos descobriram a necessidade de ultrapassar esses níveis para que a fé animasse toda toda a social.

Essa renovação eclesial está longe de ser marginal. Uma grande parte dos bispos do continente acompanha o movimento e preconza oficialmente uma «opção prioritária pelos pobres», por ocasião da II CELAM, Conferência Geral do Episcopado da América Latina, em Medellín (Colômbia), em 1968. Opção que designa não apenas os que nada possuem, mas que, ao mesmo tempo, também são sem direito e sem voz.

Teólogos seguem seus passos, em busca de apreender o significado

E o alcance dessa opção da Igreja pelos pobres, elaborando o que se chama Teologia da Libertação ou, como o dizem alguns, o Cristianismo da Libertação. Trata-se de uma corrente teológica globalizante, sendo ao mesmo tempo política, cultural e espiritual.

– Política: ao assumirem a opção pelos pobres, os cristãos da América Latina também se solidarizam com suas lutas.

– Cultural: a América Latina Índia, eles buscam construir uma Igreja, a partir da cultura ancestral, e a «desocidentalizar» a teologia.

– Espiritual: a mensagem evangélica inspira o movimento.

Estamos, então, no coração de um período de intensa vitalidade da Igreja da América Latina, uma vitalidade única, sem dúvida, em sua história de cinco séculos, e que muitos católicos da Europa vêem como um sinal de renovação para toda a Igreja no mundo, na esteira do Concílio Vatincano II que se realiza. Com efeito, essa opção prioritária pelos pobres, tomada pela Igreja da América Latina não ficou uma fórumula simplesmente retórica, mas um compromisso solidário nas lutas de libertação contra os poderes ditatoriais e a opressão das injustiças estruturais.

Os povos da América Latina, em grande maioria, são crentes e os católicos expressam, à vontade, sua fé na vida pública. A participação de cristãos nos movimentos de libertação é particularmente ativa nos países que se acham em plena guerra civil.

Em El Salvador, durante a guerra civil, as manifestações contra a repressão e pela paz acabam, com frequência, na Igreja, e as homilias do Arcebispo Oscar Romero denunciando as injustiças atraem uma importante multidão popular.

Na Guatemala a grande marcha dos Índios foi encerrada com uma missa na grande esplanada da capital.

Na Nicarágua, onde os sandinistas, vencedores do ditador Somoza, dirigem o país, três padres participam do governo, e pela rádio nacional, um dominicano anima uma meditação religiosa matinal intitulada «Evangelho e Revolução». Esse engajamento público dos cristãos para se oporrem ao ditadores é, por certo, minoritário, mas muito ativo e, com frequência, apoiado pelos bispos. Há bispos dos quais se diz: «Se vês o bispo, tu vês o povo». E há os que preferem frequentar os salões da oligarquia. A Igreja tem, pois, uma abordagem de duas vertentes, e ão é clara diante de todas essas questões.

Tio Sam, por seu lado, mantém-se vigilante sobre seu quintal, e tem uma abordagem mais unilateral. Nesse período de guerra fria, os que faziam oposião às ditaduras não estariam teleguiados pelo inimigo? Em todo caso, esses movimentos de libertação não vão mesmo no sentido de seus interesses financeiros e de sua estratégia.

Ele acusa de comunista a quem lhe pareça ameaçar seu quintal, suas « repúblicas de banana», as multinacionais e os ditadores ao seu dispor.

O governo americano decide, por duas vezes, enviar uma comissão de peritos para se informar do que se passa na América Latina, e sondar a estratégia que deve ser adotada por seus governos. Publica seu Relatório Rockerfeller, em 1969, e, em seguida, o Relatório de Santa Fé, em 1982.

Esses documentos denunciam os perigosos desvios que ameaçam a tranquilidade do continente, e fazem recomendações precisas, em todos os domínos: políticos, culturais, econômicos e religiosos. A Igreja da América Latina neles é apresentada como infiltrada pelo comunismo, e os Estados Unidos são convidados a combater a Teologia da Libertação. É o que desenvolve claramente a Proposta n. 3 do Relatório Santa Fé:

«A política externa dos E.U. deve começar a enfrentar (não simplesmente a reagir a posteriri contra) a teologia da libertação, tal como ela utilizada na América Latina pelo clero da teologia da libertação».

Ou ainda: «Na América Latina, o papael da Igreja é vital para o conceito de liberdade política. Infelizmente, as forças marxistas-leninistas utilizaram a Igreja como arma política contra a propriedade privada e o sistema capitalista de produção, infiltrando a comunidade religiosa de idéias mais comunistas do que cristãs.»

Ao lermos tais documentos, ficamos confusos diante do maniqueísmo primário dos peritos, e, no entanto, Reagan seguirá ao pé da letra a maior parte dessa recomendações, e funda notadamente a Escola das Américas para formar os militares dos regimes ditatoriais da América Latina.

Isto vai permitir aos ditadores locais servirem-se desses relatórios para acentuar sua repressão, e, em particular, para tentarem desvencilhar-se dos cristãos que participam desses movimentos de libertação. Eles partem à procura dos que possuem bíblias, pois sabem que este livro é usado pelas comunidades de base como o texto fundamental que inspira seu movimento. A bíblia é, portanto, considerada pelos ditadores como um livro subversivo. Nos países da América Central em estado de guerra civil, os militares deram, então, ordem para destruir as que encontrarassem nas casas. Frequentemente, isto ocasionou o massacre daqueles em casa de quem fossem encontradas bíblias.

Também o Vaticano se acha obcecado pelo perigo comunista, e faz sia a tese americana da «terceira guerra mundial», conceito inventado pelos americanos, para justifica suas escolhas estratégicas.

Preocupa-se com este fato, de as novas orientações tomadas por esses novos movimentos cristãos da América Latina, parecendo incapaz, em sua insensibilidade, de perceber o alcance da posição daqueles. De repente, alia-se docilmente à estratégia americana, apoiando as ditaduras do lugar, em continuidade ao que fez, com frequência, no passado. (Mussolini, Franco, só para evocar a história recente).

Os exemplos seguintes ilustram tristemente a contribuição do Vaticano para a «terceira guerra mundial».

Tal contribuição começou bem cedo. Desde 1954, bem antes dos relatórios Rockefeller e Santa Fe, os Estados Unifos se haviam desvencilhado do presidente da Guatemala, Jacobo Arbenz Gusmán, democraticamente eleito, três anos antes. Ele cometera o erro de ter querido redistribuir as terras por meio de uma reforma agrária, o que ameaçava as repúblicas de banana.

Foi sobre um navio de guerra americano que o novo ditador foi instalado no poder, levando consigo o núncio apostólico. Em seguida, a Guatemala vai sofrer tempos sombrios na violência e na guerra civil, da qual os Índios serão as principais vítimas. Duzentas mil perssoas serão torturadas, assassinadas e desaparecerão em cerca de trinta anos.

Na Argentina, a ditadura dos coronéis (1976-1983) fará 70.000 vítimas, igualmente torturadas, assassinadas e desaparecidas. Os versículos subversivos do Magníficat são censurados ; «Ele derrubará os poderosos do seu trono, e elevará os humildes». O episcopado nada protesta. Quando as mães dos prisioneiros vêm pedir assistência ao Cardeal-Arcebispo de Buenos Aires, elas ouvem como resposta; «Eu não posso intervir a favor de comunistas». Não se pode expressar amálgama mais claramente.

No Chile, o General Pinochet é responsável pelo massacre de 3.000 pessoas, entre 1973 e 1981. E, por solicitação da Argentina, eu regime recebe antigas figuras de nazistas, alguns dos quais aí chegaram graças à proteção do Vaticano. O núncio é um amigo pessoal do ditador.

Por ocasião de sua visita em 1987, enquanto sobre as fachadas dos apartamentos imensos cartazes anunciam a «nova evangelização», João Paulo II aparece sobre um balcão ao lado do general e vai lhe dar a comunhão, quando da missa

Que significa a «presença real» em semelhante contexto?

Em El Salvador, o núncio apostólico transmite à assembléia americana os relatórios enviados a Roma por Oscar Romero, o único bispo que se solidarizou abertamente com a oposição e os movimentos que lutam pela justiça e contra a repressão. Tem muita dificuldade de ser recebido por João Paulo II que não lhe traz qualquer apoio. Seu assassinato premeditado não suscita quaisquer protestos. Enquanto ele já é venerado pelo povo salvadorenho, sua beatificação não é de atualidade.

Em 1983, a Nicarágua se acha em pleno conflito entre os sandinistas no poder, que depuseram o ditador Somoza, e o movimento dos «contra» apoiado pelos Estados Unidos. Foi neste contexto que João Paulo II resolve visitar o país, e prepara sua viagem com notório oponente ao regime.

Desde tais acontecimetnos, a situação na América do Sul evoluiu consideravelmente. Quase todas as ditaduras desaoareceran, As guerras civis igualmente, salvo na Colômbia. As injustiças fundamentais, no entanto, permanecem, sob outros aspectos.

Permance igualmente a conscientização por parte dos cristãos solidários com os pobres e com os marginalizados de todo um povo e das causas estruturais desta situação.

Os teólogos da livertação sobreviveram e deram continuidade, apesar de tudo, à sua reflexão. Foram tomadas em conta novas realidades: a marginalização das Mulheres, dos Índios… Teólogos Índios buscam elaborar uma teologia aberta às riquezas da cultura indígena. Será que os deixarão trabalhar?

Pouco a pouco, os bispos que haviam levado a sério esse apelo do Povo de Deus são substituídos por membros ou por gente familiar à Opus Dei que se apressam em demolir a obra pastoral de seus predecessores, como por exemplo na diocese de Dom Helder Câmara, no Brasil. Aliás, o segundo sucessor de Oscar Romero, em El Salvador, Dom Sayenz, também ele da Opus Dei, tinha a patente de coronel (como ex-assistente das forças armadas) e havia prestado juramento às forças armadas, que assassinaram seu predecessor.

As comunidades eclesiais de base vêem-se em conflito com as milícias que têm o apoio do papa e da oligarquia, como os Legionários de Cristo, fundados no México por um notório pedófilo, ou os Arautos de Maria, cujo uniforme evoca a educação militar na qual foram formados.

Essa flagrante contradição com o anúncio do evangelho aos pobres é uma longa tradição secular da política do Vaticano. Enquanto que a guerra fria agora é uma página da história, o Vaticano continua a vigiar de perto a Igreja na América Latina, e a conter ao máximo os teólogos da libertação. Ainda em 2007, a Congregação para a Doutrina da Fé condenou firmemente um deles, o jesuíta Jon Sobrino, sobrevivente do massacre cometido aos seus confrades da Universidade Centro-Americana (UCA), em El Salvador. Os motivos alegados não correspondem em nada ao conteúdo de seus escritos.

É POSSÍVEL UMA REFORMA?

Há uns cinquenta anos, formaram-se, um pouco por toda a parte, grupos de católicos em busca de questionar o sistema em vigor, e de viver de uma outra maneira («autrement»). Na França, são os grupos que se expressam na revista «Parvis» ou o movimento « Jonas» de padres contestatários. Suas tentativas não encontram qualquer eco junto aos bispos que os ignoram ou fingem ignorá-los.

Os movimentos de protesto iniciados o ano passado por 400 padres e teólogos austríacos, alemães e suíços tiveram um alcance muito maior em seus respectivos países. Várias dezeans de padres da Normandia tentaram junta sua voz à deles.

Na origem deste movimento um texto-petição intitulado «Igreja 2011: uma renovação indispensável». Este texto publicado na esteira da gravíssima crise dos escândalos de pedofilia do célebre Colégio Canisius, em Berlim, ultrapassa, porém, largamente, os fatos e reclama uma reforma em profundidade, em 14 pontos. Através desta reforma, há primeiro uma nova visão da Igreja que é posta, uma Igreja

– convidada a cessar de fazer da instituição um fim em si mesma, para reencontrar sua razão de ser como portadora de uma missão ;

– convidada a dirigir-se a homens livres, tanto fora dela quanto dentro, pondo em prática uma estrutura participativa e um direito verdadeiramente democrático.

Por enqanto, mantemo-nos numa tradição bem enraizada: o texto não recebeu, por enquanto, nenhum eco por parte da hierarquia.

Gérard Bessière o evocou numa carta intitulada «os últimos dos Mohicanos» (Outubro de 2011), e se espanta com o silêncio dos teólogos franceses diante do fechamento da Igreja.

«O clima de restauração que paira na Igreja. O «povo de Deus» tem questões a colocar nos sínodos. Roma não quer ouvi-las, e os núncios fazer saber aos bispos que não devem transmiti-las. Semelhante censura faz pensar nos regimes totalitários. A supremacia pontifícia controla a vida das Igrejas, nomeia com frequência sob seu controle, póe fim á colegialidade episcopal e à sensibilidade dos fiéis.

Milhares de cristãos vão embora na ponta dos pés, sem serem escutados, enquanto se busca há muito tempo um acordo com os integristas. Prevalece o zelo pela continuidade com o passado. Será que não estamos assistindo a um discreto sepultamento do do Concílio Vaticano II?»

Eu não creio na possibilidade de uma reforma no contexto atual. Se ela fosse possível, após 2.000 anos de história, isto já se teria feito. Durante esses milênios, não faltaram tentativas de atualização ou de renovação desse tipo. Todas fracassaram, quase sempre pelo fato da intransigência romana no domínio doutrinal e disciplinar ou pelo peso do aparelho institucional, tendo como retaguarda o controle da Cúria.

As perspectivas de mudança já não parecem mais prováveis, hoje. A fortaleza está bem construída. A Cúria, com o papa à sua frente, não está nada disposta a sair de lá para se instalar num prédio popular, aberto aos leigos, aos pobres, às mulheres. O sistema se acha demasiado bem tecido ao longo de séculos, com sua constituição a privilegiar um poder absoluto do papa, rodeado por um exército de funcionários, sua « camarilla italiana», que vivem em recipiente fechado, e que não estão nada à escuta dos acontecimentos mundiais. Estão, pois, pouco propensos ao diálogo.

Mas, não se trata apenas do tipo de poder exercido ao interno da Cúria, trata-se da própria existência do Vaticano como Estado. O tempo das guerras de defesa do território não têm mais razão de ser, é claro, mas o que se vê regularmente é o Vaticano a tecer estratégias de influência e de poder nas instâncias internacionais, notadamente nos bastidores da ONU, onde o Catolicismo é a única religião a ter um estatuto de Observador. No Parlamento europeu, também o Vaticano intervém, quando por exemplo, tratou-se de publicar um texto denunciando as teses e o movimento criacionista. O Vaticano fez pressão para impedir essa publicação, utilizando um pode de tipo estatal.

Que a Igreja publique um texto para expressar-se quanto a esta tomada de posição do Parlamento europeu, vá lá, mas é demais que intervenha para que o texto não seja publicado. Poder-se-ia imaginar que, sem ser um Estado, a Igreja pudesse influir nos acontecimentos, mas sem ambiguidade… simplesmente com a entreajuda dos cristãos…

As próprias visitas pastorais do papa a diferentes países são ambivalentes, porque nelas o papa é recebido, ao mesmo tempo, como um chefe de Estado.

Tudo isto põe o Vaticano no jogo político internacional, em sitemas de oder que não correspondem nada ao seu papel, e muito longe do espírito do Evangelho pregado por Cristo : «Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus». Como continuar a viver claramente essa distinção? Como ficar próximo dos pobres e dos sem direitos, quando se passa tanto tempo e gasta tanta energia diplomática, a defender seus próprios interesses?

Este Estado é um contra-senso: falseia a transmissão da mensagem do Evangelho, ao longo dos séculos, e, ainda por cima, põe obstáculo a uma reunificaçáo dos católicoscom os outros cristãos, que não podem admitir a confusão inevitável entre o poder político e as exigências do Evangelho.

Por duas vezes, no século XX, a Igreja apareceu questionando-se, e a escutar os sinais dos tempos à luz do Evangelho. Primeiro, foi a «opção pelos pobres» feita pela Igreja, na América Latina. Uma tomada de consciência, ao mesmo tempo evangélica e política, da exigência expressa por Jesus, de anunciar a Boa Nova aos pobres. Vimos como o Vaticano reagiu, por meio de um discurso de silêncio, a dezenas de milhares de mártires da solidariedade com os pobres, entre os quais Oscar Romero, dois outros bispos e uns quinze padres e religiosos.

Na mesma época, uma lufada de ar fresco sacudia a Igreja. O Concílio Vaticano II suscitou esperanças de renovação, de abertura ao mundo. A reação não se fez por esperar por muito tempo, e os nostálgicos das «tradições imutáveis» logo retomaram o controle: beatificação de Balaguer; crescente controle do Opus Dei sobre numerosoas estruturas eclesiais, reabilitação da liturgia em Latim, mão estendida aos integristas, neocatecumenato, retomada em lugar de honra do Catecismo romano… a instituição inclina-se para si mesma.

Há trinta anos se fala da nova evangelização. Mas, o que há de novo? Assiste-se a uma restauração dos velos métodos missionários que não chamam mais a atenção às questões angustiantes dos homens e das mulheres do século XXI. Quando será que a Igreja vai começar a levá-los verdadeiramente a sério? A reexaminar seus métodos e sua organização?

Se se considerar o tempo que foi preciso para que ela aceitasse que o mundo girava em torno do Sol, quanto tempo há de levar a Igreja para realizar a reviravota universal em curso?

Muitos católicos vêem isto, e desejariam profundas reformas. Mas são poucos os que o manifestam publicamente, como «Jonas» na França, e sem repercussão no aparelho. Os outros, os mais numerosos estão silenciosos, inclusive a Ordem Dominicana à qual pertenço. Nem sempre foi este o caso.

Vários anos antes de eu entrar para a Ordem, lembro-me de que SEPT, uma revista situada no movimento dominicano, que foi interditada por Roma, durante a Guerra Espanhola, porque alguns externavam verdadeiras dúvidas acerca da legitimidade do apoio a Franco. Fiquei impressionado com sua liberdade de tom em relação à Igreja, instituição e aparelho, por uma reflexão séria de tipo evangélico. Eu reencontrei essa liberdade de tom na Ordem, basta pensar em homens Chenu, Féret, Congar, Maydieu e muitos outros menos vistos, que tiveram um certo número de problemas com Roma. Infelizmente, de alguns anos para cá, a Ordem não cumpre mais seu papel de crítica evangélica em relação à instituição, e é lamentável.

Todos os que silenciam perderam a esperança de que o sistema possa mudar, um dia, ou têm medo de que su fé esteja abalada. Com efeito, o Evangelho foi de tal modo sobrecarregado ´pelo enorme aparelho dogmático e eclesiástico, que a fé acabou confundindo-se com o sistema que a transmite. Ao ponto que, se se critica a interpretação da mensagem evangélica pela tradição eclesiástica, tem-se a impressão de tocar o coração da fé… A fé tornou-se tão estreitamente ligada ao que dela diz a instituição, que não se pode criticar esta, sem tocar aquela.

A assembléia dos crentes – a ecclesia – reduziu-se a uma instituição que, no decorrer dos séculos, transformou o anúncio da fé em defesa da fé, que se tornou finalmente uma simples autodefesa. O sistema se acha perfeitamente travado. A instituição Igreja não parece sentir a necessidade de mudar.

O Cristianismo está longe de haver posto em prática o coração da mensagem evangélica: o anúncio aos pobres da boa nova de sua libertação. Para tanto será preciso que a Igreja decida abrir seus olhos para o mundo novo em gestação – alguns dizem «em vias de destruição». Ela será, então, constrangida a encontrar finalmente uma outra linguagem , a ter um outro olhar sobre o homem e a humanidade, um outro estilo de instituição e de governança.

Maurice Barth, Janeiro-abril de 2012

«Eis em duas palavras quem é o autor: Maurice Barth, dominicano de uma grande tradição infelizmente perdida, tem 96 anos, e continua militante no verdadeiro sentido do termo… Militou toda a sua vida, tendo sido em particular muito próximo de Henri Curiol, e engajou-se em todos os combates da Palestina ou da América Latina com sua teologia da libertação (ele foi uma pessoa próxima de Dom Oscar Romero). Redigiu este texto, sob a pressão de alguns irmãos, entre os quais me encontro, com o objetivo de fazer um balanço de seus engajamentos na Igreja. Foi Arnaud de Coral, antigo responsável pelo dia do Senhor que dele recebeu por meio de ditado, tendo organizado o conjunto, porque Maurice está quase cego, há alguns anos.

Pessoalmente eu estou muito feliz pelo resultado. (Pessoalmente, eu tinha vontade de lhe sugerir como título « «Indignem-se», mas o título já havia sido posto por Stéphanie Hessel que tem a mesma idade). Eu desejaria que daí a gente pudesse publicar uma brochura, a partir deste texto, no gênero da de Stéphani Hessel. Se este texto lhes agradar, difundam-no. Ele é feito para isto. Frei Régis, Dominicano, 17 de maio de 2012.

Trad.: Alder Júlio Ferreira Calado

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