Quero apenas amizades verdadeiras

Será utopia querer apenas amizades verdadeiras? Sinceramente, nunca vi alguém que desejasse ter falsos amigos. Já vi situações que considerei inusitadas, mas ainda não encontrei ninguém que não se incomodasse com este tipo de falsidade. Já até soube que uma pessoa que admitia ter em sua loja um gerente que, há anos, roubava-o, mas que era “imensamente eficiente, compensando os tais roubos”, dizia o proprietário da loja. Enfim, é um ponto para pensarmos.

Muita gente irá afirmar que amigos de verdade só mesmo pai e mãe. Outros acrescentarão que apenas os cães são capazes de sentir uma amizade verdadeira, atribuindo aos gatos a terrível pecha de interesseiros. Até mesmo nos casamentos há quem diga que só existe uma dita “amizade verdadeira” entre os cônjuges enquanto há interesses comuns, pois se há uma separação, tornam-se inimigos mortais e mesquinhos como nunca se viu.

Concordo quando afirmam que os pais são os grandes amigos dos filhos, ressalvando-se aí os casos anormais, aqueles que fogem à regra. No entanto, nem sempre os filhos assim entendem. Quando, na infância ouvem “não” de seus pais, ficam com raiva, achando que seus pais são malvados. Já na adolescência, o “não” dos pais significa, para os filhos, que eles sofrem de total falta de compreensão e absurda burrice com relação ao mundo, e que estão total e deliberadamente contra os filhos. Esta amizade verdadeira só é percebida e compreendida plenamente numa idade mais adulta, principalmente quando os filhos/netos nascem. Aí, os pais, que antes eram déspotas, passam a ser maravilhosos. No entanto, eles deixam de ser pais e passam a ser avós, e os filhos deixam de ser a prioridade, cabendo aos netos o foco das atenções e mimos.

Já os animais, que consideramos irracionais, são capazes sim de desenvolver uma profunda amizade conosco, animais humanos, que nos autoconsideramos racionais. Já presenciei provas de amizade dadas por cães e até pássaros que foram de trazer lágrimas aos olhos. Encontrei na atitude de alguns animais verdadeiros bastiões de sensibilidade e ternura que pouca gente ainda consegue dispor. Por isto é que comumente eu afirmo que quanto mais eu conheço o ser humano, mais eu gosto de cães. Alguém discorda de mim?

O fato é que temos grandes dificuldades hoje em dia de afirmar onde podemos encontrar a verdadeira amizade. Já estamos até acostumados às decepções que nossas “amizades” nos agraciam. Mas, nem tudo está perdido. Conheço alguns exemplos de pessoas que possuem um imenso senso de amizade e compreensão para com o próximo. Tenho um casal de amigos, Antônio e Doralice, que já completou sessenta e dois anos de casamento verdadeiro e de incansável dedicação de um ao outro, e que realmente vive para servir ao próximo. Eles são um referencial único para quem os conhece, ajudando, de coração, quem precisa de uma mão estendida, e sem querer ou pedir nada em troca. E, mesmo assim, são vítimas imerecidas das ingratidões e desilusões que só o espécime humano é capaz de provocar. Este casal já fez coisas para ajudar pessoas que ninguém acredita. Até no período de repressão política, eles ajudaram pessoas que estavam em sérios apuros, comprometendo-se pessoalmente junto à autoridades militares, que também eram seus amigos, no intuito de salvar indivíduos de situações de real e imediato perigo e elevado risco de integridade física.

Diz a sabedoria popular que sabemos quem são nossos amigos verdadeiros nos momentos de dor e dificuldades, já que ser amigo na alegria e nas boas fases da vida é fácil. Já percebi na pele que isto é a mais pura verdade. Mesmo assim, continuo acreditando neste sentimento único e construtivo: a amizade. Tenho alguns amigos há mais de trinta e cinco anos e, sempre que a vida nos possibilita, procuro estar perto ou ter notícias deles. Interessante que quando encontramos um verdadeiro amigo de infância, mesmo que não nos vejamos há vários anos, em segundos todos os elos do passado são restabelecidos como se o tempo não tivesse passado, restabelecendo-se todos os antigos códigos pelos quais nos entendíamos nos tempos idos e, quando isto acontece, somos até capazes de nos entender apenas pelo olhar. É algo quase que sem explicação.

Com a idade, tornei-me mais condescendente para algumas coisas. Para outras, fiquei mais radical. Hoje, não aceito mais pessoas que não gosto participando de minha vida. Há pouco tempo, tive a chance de estabelecer uma parceria de trabalho, porém, não gostei da pessoa com quem trabalharia e não fiz tal parceria. Não quero, por livre e espontânea vontade, conviver com quem não gosto e ponto! Já me basta ter pessoas com as quais sou abrigado a conviver, por imposição da vida, mesmo não gostando. Estou aprendendo a ser um amigo muito verdadeiro comigo mesmo! Se não formos amigos de nós mesmos, respeitando-nos, quem será? Por isso que hoje eu só quero amizades verdadeiras. As amizades “made in Paraguay” eu dispenso!

Por incrível que possa parecer, considero minha intuição uma grande amiga e aliada. Até hoje ela nunca me traiu, sendo sempre verdadeira e implacável. Sempre que ela diz “não” e eu teimo no “sim”, acabo me dando mal. As mulheres são reconhecidas por terem uma intuição sempre muito presente. Os homens também têm intuição, mas, por serem mais imediatistas e pouco reflexivos, não lhe dão ouvidos e acabam se dando mal. Qual o homem que nunca ouviu de uma mulher “cuidado com fulano que ele é falso!”? E qual o homem que, ao se dar mal, nunca disse: “bem que ela me avisou!”?

Como forma de conservar minhas amizades, procuro, acima de tudo, respeitar meus amigos ao máximo, aceitando-os como são. Procuro não impor minha presença, pois sempre podemos ferir a privacidade alheia, mas quero que todos saibam que estou sempre pronto para ajudar quem de mim precisar. E, se não for amigo, que se torne mais um. Afinal, a vida nos ensina que quem tem um amigo verdadeiro, nunca está sozinho no mundo!

O autor é carioca, por engano. De formação é historiador e publicitário, radialista por acidente e jornalista por necessidade de informação. Vive vários dilemas religiosos, filosóficos e sociológicos. Ama o questionamento.

Fonte: Debates Culturais