Queres um tapa na cara no fim do carnaval?

Desconcertante, insólito e genial. ”Adeus à carne” é o mais novo espetáculo de Michel Melamed em cartaz no Teatro SESC Ginástico. Carregado com o deboche que lhe é peculiar, a obra de Melamed traz esquetes carnavalescas provenientes de um cotidiano hostil e cínico. A peça já se inicia com uma grande cruz, cujo centro é representado por um ânus iluminado. Grunhidos e gestuais animalescos são encenados pelo próprio Melamed e o restante do elenco: Bruna Linzmeyer, Pedro Henrique Monteiro, Rodolfo Vaz, Thalma de Freitas e Thiare Maia.

De cabo a rabo, o espetáculo segue um discurso alegórico do dia a dia brasileiro a partir da (multi)perspectiva carnavalesca. É instigante ver como o texto se teatraliza a partir das cenas que nos são corriqueiras durante o carnaval, mas que não nos damos conta ou não refletimos criticamente sobre elas. O amor platônico (ou de carnaval) por várias vezes é pincelado pelas cenas, ora nos fazendo refletir sobre nós mesmos; ora nos divertindo, somente.

 

 

O velho clichê da manipulação midiática, aqui, ganha novos contornos. Os seis atores, vestidos com capacetes das logomarcas das principais emissoras de televisão do Brasil, encenam o pauperismo conteudista de tais veículos e como se relacionam entre si, numa nítida e preocupante dança hipnótica de amansadores de rebanho.

As inúmeras possibilidades da sexualidade também ganham destaque em “Adeus à carne”. Seja numa transa rápida durante um bloco de carnaval em uma ruela ou seja em um ritual macabro, onde os algozes quebram o soturno cênico nos apresentando uma “rapidinha” corriqueira, que, diante dos olhares estupefatos da plateia, termina da mesma maneira que começou: inesperadamente.

Lésbicas, gays, grávidas, caixões, roldanas, velas, capuzes, escadas, enfim, o espetáculo nos interpela com fragmentos cênicos de uma vida concreta, nos trazendo para reflexão de um país do carnaval. O drama carnavalizado dá tom desta obra genial que, inegavelmente, dá um tapa na cara deste povo demagogo e feliz.

A pergunta que fica é: vem pra são paulo?!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *