Que política?

Há uma política que não consiste em doutrinar os demais para que pensem como nós, nem para que acreditem no que nós acreditamos, ou ajam como nós achamos que se deva agir. Esta política é a política da pessoa, que se faz por presença, com o nosso estar no mundo.

O padre José Comblin falava da ação social cristã como uma ação de tipo pessoal: faz com que apareça a pessoa esquecida. Na Terapia Comunitária Integrativa tenho encontrado uma forma de praticar este modo de fazer política. A pessoa esquecida sou eu mesmo, que fui me perdendo pelo caminho, na tentativa por ser aceito, na expectativa de ter que agradar aos demais, ou ser perfeito. Hoje volto ao que é meu.

Os governos passam, os regimes mais ou menos autoritários, também passam. Fica a pessoa, com marcas mais ou menos fortes que lhe foram sendo impressas no decorrer da vida. Trabalhar as feridas, transformando-as em competência sanadora, incorporar a experiência adquirida e o conhecimento para viver de uma maneira feliz, é preciso. O sistema nos intoxica com pressões e informações excessivas acerca do que não podemos mudar; impõem-nos sensações de impotência e culpabilidade ou resignação. Tendemos a perder a nossa personalidade própria, adquirindo hábitos de pensar, agir e sentir alheios. Recuperar a identidade se impõe como uma tarefa imprescindível.

Desfrutar da vida não depende tanto do que temos materialmente, mas, sim, do que somos capazes de fazer com o que recebemos como herança. No espaço familiar, na rede de amizades, no contato cotidiano com outras pessoas, vai se desenvolvendo a nossa vida. Recuperar a criança que fomos, permite que possamos ter de volta a espontaneidade, a confiança e a alegria. A vida é até o último momento. Não podemos incorporar a noção de descarte que tratam de nos impor. Ficar velho é acreditar que agora não resta mais do que esperar a morte. Cabe recuperar a noção plena de que estamos aqui para sermos felizes. Esta possibilidade depende unicamente de nós mesmos.

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