Quantos mais corpos negros precisam morrer para que nos importe?

Protestors carrying symbolic yellow balloons make their way to the funeral of eight-year-old Agatha Sales Felix, who was killed by a stray bullet during a police operation at the Alemao complex slum, in Rio de Janeiro, Brazil, on September 22, 2019. – Felix died during a confrontation between alleged drug traffickers and police officers on September 21. (Photo by Carl DE SOUZA / AFP)

Por Clarissa Nunes

Para o Estado, Agatha, criança negra de oito anos, estava em confronto

De acordo com o Anuário Nacional de Segurança Pública os homicídios decorrentes de intervenções policiais somaram-se em 6.220 em 2018. Dessas vítimas 99,3% são homens e cerca de 75% de indivíduos negros.

Um crescimento de quase 20% em relação a 2017. Os crimes de feminicídio, com um aumento de 4% em relação ao ano anterior, fizeram 1.206 vítimas. Dessas, 61% de mulheres negras.

No Rio de Janeiro, só esse ano, 16 crianças foram baleadas no que a polícia chama de “confronto armado”. Para o Estado, Agatha, criança negra de oito anos, estava em confronto. Bolsonaro defende que policiais assassinos não sejam culpabilizados.

Defende que mais Ágathas morram pelas mãos de um Estado racista. Nas redes sociais e mídia os vídeos das queimadas na Amazônia e o sofrimento dos animais são repercutidos e geraram até mesmo uma crise diplomática para o Brasil.

Essa crise tem lado: o do mercado e o do agronegócio. O assassinato de Ágatha, nas mesmas redes, é recebido com uma apatia e resignação estarrecedora. Não interessa ao mercado mobilizar o mundo contra o genocídio da população negra.

Quantos mais corpos negros precisam morrer pra que nos importe o extermínio da juventude negra?

A autora é advogada criminalista e membro da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia.

Edição: Monyse Ravenna

Fonte: Brasil de Fato