Quando as bicicletas ameaçam o capitalismo

As imagens da tentativa de assassinato coletivo ocorrida na última sexta-feira (25/2) em Porto Alegre demonstram um pouco sobre a violência que está introjetada em parte da sociedade. E, conforme os leitores poderão acompanhar abaixo, não apenas no Brasil.

Vídeo mostrou intenção de atropelar ciclistas em Porto Alegre na última sexta 25.Na última sexta-feira (25/2), um homem enfurecido com uma manifestação pública a favor do uso de bicicletas avançou sem qualquer cerimônia sobre centenas de pessoas (vídeo acima). Ele estava irritado com a presença de outros veículos não motorizados que não o deixavam passar por alguns poucos minutos.

O assassino – que felizmente não conseguiu fazer vítimas, apesar da tentativa – chegou a receber defesa prévia por parte do delegado Gilberto Almeida Montenegro – que deveria investigá-lo –, colocando a princípio a “culpa” nos ciclistas por não terem pedido “permissão” às autoridades.

O jornalista Mauricio Savarese descreveu melhor o que o vídeo mostra claramente: “Tentativa de homicídio. Premeditada. Por motivo torpe. Sem chance de defesa. De surpresa. E fuga. O atropelamento em Porto Alegre é isso.”

As bicicletas são uma forma de transporte público, como qualquer outra. Moto, carro, avião, barcos, bicicletas. Talvez por serem uma forma mais simples de se locomover, os governos não dão a devida atenção ao tema – não fazem ciclovias, por exemplo.

Do ponto de vista ambiental, as bicicletas são melhores: não poluem, são silenciosas e fazem bem à saúde. Nem todos podem usá-la: pelas grandes distâncias, pela necessidade de levar filhos pequenos à escola, pela própria falta de ciclovias, por qualquer outro motivo. Mas as bicicletas são uma forma de transporte público. Os carros estão quase sempre com uma única pessoa, apesar de caberem de quatro a cinco. Muitas bicicletas levam duas pessoas ao trabalho em centenas de cidades em todo o mundo, em países bastante diversificados como China, Suíça, França, Alemanha, Angola, Brasil, Canadá, Egito, EUA.

As bicicletas por vezes param de fato o trânsito como forma de chamar atenção, pois em geral é o contrário. São os carros a desrespeitar o espaço das bicicletas. No artigo 58 do Código de Trânsito brasileiro, é expressa a preferência pelas bicicletas. Diz o artigo: “Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.” (original aqui)

Qualquer motorista de qualquer grande cidade brasileira sabe que este artigo não é respeitado. Quem decide usar bicicleta raramente conta com ciclovias ou ciclofaixas. Os carros buzinam para os ciclistas, os assustando e se considerando superiores a eles, pela força. Não raro os assustam com fechadas e xingamentos. O coletivo Massa Crítica chama a atenção para o problema. Propõe uma mudança de cultura. De forma pacífica. Respeitosa à lei. Tentando, inclusive, fazer a lei valer. Enquanto o problema não é debatido, muitos continuam a desrespeitar a preferência que é garantida ao ciclista por lei. Donos de carros, para saírem pelas ruas em massa, não pedem “autorização” para as autoridades. (Leia aqui a carta aos motoristas, distribuída pelo coletivo)

Como na Holanda, por exemplo:

Parte de uma tradição, aliás:

A violência diária das grandes cidades não é apenas aquela que relata a mídia obsoleta. É também – e principalmente – a violência diária interna, da correria, da irritação, do estresse, de um estilo de vida estúpido que, no limite, gera a barbárie verificada nos vídeos. O desprezo total pela vida, que passa a valer nada. As pessoas tidas como inimigas se transformam em alvos a serem destruídos, como num videogame. O “progresso” da “sociedade” – avanço do PIB, políticas industriais, destruição do meio ambiente para gerar mais energia – inclui essa violência internalizada: o individualismo exacerbado, o desprezo pelo outro, o desrespeito pelo coletivo, tudo sob o signo da velocidade. As ciclovias não reduzirão esse impulso violento de nossa sociedade, mas ajudam. O que resolve é uma educação mais libertadora, humanista, que volte a valorizar a vida em toda a sua dimensão.

Em Porto Alegre, a reação dos ciclistas à tentativa de assassinato: "Mais amor, menos motor".

Em Porto Alegre, a reação dos ciclistas à tentativa de assassinato: 'Mais amor, menos motor'.

HISTÓRICO GLOBAL

Em março de 2007, um ataque parecido com o de Porto Alegre, de menor proporção, aconteceu em São Francisco, nos Estados Unidos:

Em maio de 2007, em Berkeley, também nos Estados Unidos, onde os ciclistas demonstram que a polícia falhou em responsabilizar a violência do motorista (via uma associação pró-ciclistas):

Em 2007, na cidade de Nova York, após a repressão da polícia ter dispersado os ciclistas a partir de medidas inconstitucionais ou mesmo arbitrárias – por exemplo, multa por não possuir lanterna, mesmo com a lanterna funcionando –, o movimento “Massa Crítica” local decidiu se dividir em subgrupos e continuar resistindo. Ao final, convergiam em pontos estratégicos da cidade, como em Times Square. Tudo dentro da legalidade. Mesmo assim, as pessoas continuaram a ser presas. Às vezes sem motivo aparente, como fotografar uma prisão de um ciclista. No país supostamente mais “livre” do mundo, as cenas chegam a ser patéticas: ciclistas sendo tratados como criminosos, sendo algemados como se fossem uma ameaça criminal à ordem pública.

Em agosto de 2004, durante um passeio semelhante, foram presas 264 ciclistas, numa mudança de atitude da prefeitura. Em março de 2007, a prefeitura de Nova York surpreendentemente mudou a autorização legal para realizar reuniões públicas. A partir da data, seria permitida a reunião de não mais que 50 pessoas (!). Todos os que não cumprissem a determinação – em confronto evidente com a liberdade de primeira geração de livre associação – poderiam ser presos. A prisão de fotógrafos e pessoas filmando as cenas é uma violação direta a várias determinações de cortes federais nos EUA.

Assista ao vídeo:

Este tipo de ação da polícia é – mais uma vez, no “país das liberdades” – uma evidente recomendação das autoridades, como demonstra o ataque deliberado de um policial a um ciclista também em Nova York, no ano seguinte (2008):

Também nos Estados Unidos, também em 2008, só que na cidade de Seattle, outro motorista ficou “irritado” e partiu pra cima das bicicletas. A CNN, claro, tratou de inverter a história. Tal como em Porto Alegre, parte da mídia (sobretudo a de TV) vendeu a ideia de que a população aterrorizou o motorista, quando foi este que, na verdade, avançou em cima da multidão, como conta o vídeo abaixo.

As brigas judiciais foram intensas neste país, entre 2004 e 2007. Evidentemente que o poder público repressor perdeu todas as ações federais e foi obrigado a mudar de tática. O movimento denuncia que os policiais aplicam multas por motivos estapafúrdios, como forma de intimidar os ciclistas. O vídeo abaixo também é em Nova York, só que de 2009:

AÇÃO EM REDE QUE DÁ CERTO

Por outro lado, as mídias digitais popularizadas mostraram mais uma vez sua força. Já havia, tal como o delegado Montenegro, pessoas como o major Maya, do 9° Batalhão da Brigada Militar (BM), que afirmou que a Brigada estaria “apurando uma outra versão: a de que o motorista raspou em um ciclista e os outros o fecharam, o que teria causado o atropelamento”. A “versão” – fruto naturalmente de má-fé ou ignorância – foi logo desmentida pelo vídeo, que deixou claro a natureza criminosa da ação do motorista.

O assassino – que tentou matar dezenas de pessoas, por isso o chamamos ‘assassino’, como seria natural em qualquer caso semelhante de alguém que utiliza uma ferramenta para tentar matar alguém, segundo entendimento do código penal brasileiro – já fez contato com a delegacia por meio de seu advogado. Vamos fiscalizar.

Mas se você deseja participar do movimento, atenção: não é perigoso. 99% das manifestações não dão qualquer problema. É um passeio pacífico, muitas vezes bem recebido. Como em muitos lugares no Brasil (acesse aqui), ou como o de Lisboa em 2009:

Recepção pacífica ao assassino nesta segunda 28 em Porto Alegre

O Massa Crítica organiza os passeios toda última sexta-feira do mês em quase toda grande cidade do mundo, incluindo todas as grandes capitais e totalizando centenas de cidades nos cinco continentes.

O coletivo em Porto Alegre não é exceção, com saída do Largo do Zumbi dos Palmares às 18h45 em ponto. No blog, registraram: “Só com bom humor para manter a sanidade.”

Fonte: http://blogdokayser.blogspot.com

Fonte: http://blogdokayser.blogspot.com

Acompanhe o debate por meio do blog e a página do grupo ou pelo twitter.

Informações do movimento em nível nacional em www.bicicletada.org

Outros vídeos pelas buscas “massa crítica” ou “citical mass”.

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@gustavobarreto_(*) Gustavo Barreto, jornalista. Contato pelo @gustavobarreto_.

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Comentários

comentários

Excelente post, Gus. Irretocável coluna! Parabéns, vou compartilhar.
Bjs!

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