Qual Sociedade? Qual Universidade? – Considerações acerca da contribuição da Educação Popular á produção de uma comunicação alternativa

Inicio as breves notas que seguem por rápidas considerações conceituais acerca de comunicação social e de universidade, numa perspectiva de alternatividade. Em seguida, ensaiarei algumas pistas sobre a contribuição da Educação Popular, nessa direção.

A partir da própria etimologia, comunicação é sempre expressão, produto e elemento interveniente na reconfiguração de uma relação social. A comunicação social retrata – não sem as habituais contradições – a dinâmica da convivência social, no tempo e no espaço. É também resultado desse processo. Como afirmava o velho filósofo alemão, numa sociedade de classes, “A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante.” Sabe-se do papel central que os meios de comunicação social cumprem no processo de circulação de idéias, crenças, interesses. É por essa via (também) que a mídia faz a cabeça de parcelas consideráveis da população: “a realidade é o que pinta na telinha”; “Deu no rádio!”, “Deus na TV”… Por outro lado, os meios de comunicação social, em determinadas circunstâncias, também podem assumir um papel transformador da ordem social existente. E é aqui que se acendem nossas esperanças, é aí que tem lugar nossa aposta.

Nesse sentido, vale a pena partirmos de uma constatação banal: não há processo comunicativo que se faça descolado da realidade social. Os processos comunicativos são por ela profundamente condicionados, por vezes até determinados. Aqui me vem à lembrança uma afirmação bombástica, feita por um conferencista, por ocasião da realização de um Congresso de Comunicação, nos anos 80: “Déem-me a rede Globo, e farei a revolução no Brasil…”  À parte o viés hiperbólico da proposta, pode-se revelar útil como recurso didático.

Comunicar é um verbo transitivo direto. Quem comunica, comunica algo a alguém, estando um e outro pólos socialmente condicionados, situados e datados. E isto se dá tanto nas macro-relações quanto também nos micro-espaços, inclusive da mídia convencional. Aqui tomamos em conta especialmente os macro-espaços, e, em particular, o desempenho da mídia convencional. Ao focarmos a dimensão eventualmente transformadora dos processos comunicativos, a mídia convencional desponta como alvo a ser, antes, desmontado, desmascarado quanto aos fios de sua malha, do que um alvo a que se recorrer como opção transformadora. Seria temerário, além de ingênuo, apostar-se na transformação da mídia convencional em um caminho de transformação social, de caráter democrático. Em vão pretender-se mudar o caráter da mídia brasileira (ou de qualquer outro país capitalista ou de classes), sem mudar o tipo de sociedade. Nenhuma ilusão a esse respeito!

Algo semelhante também ocorre em relação ao conceito de universidade. Em vão, tenta-se compreender o sentido de uma universidade, dissociando-a do contexto societal em que se insere. Inútil, pretender-se trabalhar a universidade, sem, antes ou ao mesmo tempo, situá-la no espectro de uma determinada sociedade. Universidade é, como se sabe, um espaço formativo relevante, pelo menos do ponto de vista da educação escolar. Por seus espaços passam importantes protagonistas de processos organizativos, comprometidos tanto com o continuísmo quanto, em grau bem menor!,  com as forças de mudança social.

A depender, portanto, da posição social de tais protagonistas, podem estar comprometidos, ou com os interesses do mercado e das forças que lhe dão sustentação – e estes constituem a grande maioria, nos diversos segmentos (discente, docente e técnico-administrativo) – ou com os interesses das classes populares e das forças de mudança – e estes constituem uma pequena minoria, seja no âmbito das universidades privadas, seja no interior mesmo das universidades públicas (não esquecer o número considerável de agentes do Estado (juízes, inclusive) que saem das fileiras das universidades públicas, colocando-se quase sempre a serviço dos interesses dominantes, haja vista, por exemplo, o número de sentenças judiciais tomadas contra os trabalhadores rurais, comprometidos com a Reforma Agrária…

A desconsideração desses elementos resulta, não raro, numa avaliação equivocada, segundo a qual bastaria aos universitários o desenvolvimento de sua capacidade intelectual, que, por si só, asseguraria a formação humana dos jovens e dos adultos freqüentadores de uma universidade. Trágico engano! Equívoco grave, este, que se manifesta sob várias formas. Uma primeira: a escola, a universidade, os cursos, enfim, acadêmicos ou não, corresponderiam a atividades neutras. Trata-se, na verdade, de ferramentas que se prestam a todo tipo de organização social. Tanto podem estar a serviço dos setores dominantes – os interesses do Mercado, os caprichos do Estado ou dos governos de plantão! -, quanto a serviço das classes populares, no caso de uma sociedade que se contraponha ao Capitalismo ou a um sistema similar. Em nosso caso, prevalecem larga e abertamente os interesses dos setores dominantes. Basta atentar-se para os critérios normalmente definidores de escolha profissional. Cada vez menos se trata de vocação, e cada vez mais de imposições que privilegiam os interesses do Mercado. Quantos profissionais universitários

Equívoco que também deita raízes na aposta unilateral na centralidade da dimensão cognitiva, descolada das demais dimensões formativas (a afetiva, a volitiva e práxica). Quanta gente sai das universidades, a cada ano, sem quaisquer sinais convincentes da verdadeira vocação. Pessoas que decidiram seguir esse ou aquele curso, apenas interessadas em tirar vantagens? Por exemplo, quantos juízes formados em universidades públicas, a serviço da causa do latifúndio e do agronegócio?

Outra forma sob a qual se manifesta tal equívoco (o de superestimar-se a dimensão intelectual desconectada das demais dimensões afetiva, volitiva e práxica, tese sobre a qual o Prof. Ivandro da Costa Sales não cessa de se bater) tem a ver com a a necessidade de o processo formativo dos humanos dar-se, ao mesmo tempo, nessas squatro dimensões A formação do ser humano como Gente tem que trabalhar organicamente tais dimensões, de modo que os educandos-educadores sejam capazes de sentir o que pensam; de sentir e pensar o que querem; e de fazerem o que sentem-pensam-e querem. Não é bem isto o que se costuma acentuar nas salas de aula. Aqui tem lugar privilegiado, quando não exclusivo, o pensar.

Tal é a centralidade da dimensão intelectual na esfera acadêmica, que os critérios de avaliação se restringem quase exclusivamente a tal dimensão: ter domínio da matéria, ter uma boa quilometragem de leituras, repetir o pensamento dos clássicos ou de outros, ser detentor de aptidão de pesquisador, ter bom desempenho na exposição dos temas tratados, e coisas do gênero. A quase ninguém toca o fato de se flagrar graves contradições entre o falar do professor e sua conduta na vida cotidiana, mesmo que seja em sua relação com os estudantes. Pode até não se agradar desse comportamento, mas é tido como aceitável, não susceptível de crítica mais séria ou de cobrança institucional. Trata-se às vezes de alguém extremamente competente do ponto de vista intelectual, a conviver, sem maiores problemas, com atitudes ríspidas, desrespeitosas, preconceituosas, contraditórias…

Situação agravada na raiz, já na origem e pela natureza do processo de seleção e admissão, ou seja: pela estrutura mesma do concurso público. Os critérios definidores da classificação incidem exclusivamente no perfil intelectual do candidato, da candidata. É claro que tal critério continua, não apenas relevante, como também indispensável. O problema ocorre quando se trata de Elegê-lo como único critério único para definir-se o processo de admissão. Afinal, como ficam as outras dimensões igualmente relevantes e indispensáveis, como a dimensão afetiva, a dimensão volitiva (relativa à vontade), a dimensão práxica (pôr as mãos na massa)? Como avaliar o compromisso político-institucional do candidato, da candidata? Quem garante que, uma vez bem avaliado seu desempenho intelectivo, isto seja suficiente para se contar com alguém que, pelo fato mesmo de ingressar no serviço público, se mostre comprometido com o bem público, dos alunos, da instituição, da própria sociedade? Quem garante que, ao entrar para a universidade, ele/ela se envolva com a atuação em atividades, não apenas de docência, como também de pesquisa (versando sobre temas socialmente relevantes) e de extensão, em parceria com protagonistas das classes populares, já que não falta gente das universidades públicas a prestar assessorias remuneradas a empresas e instituições particulares?

Com relação à Educação Popular, que contribuição dela se espera, na construção de uma nova sociedade, na qual tanto a universidade quanto os meios de comunicação se ponham a serviço das classes populares?

Um primeiro desafio a enfrentar tem a ver com o sentido que se toma de Educação Popular. Tal como ocorre em outros campos conceituais, também o de Educação Popular tem comportado sentidos não apenas diversos, como também, por vezes, antagônicos. Costumo dizer que Educação Popular tem-se prestado a várias causas: até contra o Povo tem-se feito Educação Popular. Aqui tomamos Educação Popular como o processo formativo protagonizado pelas classes populares, em todos os momentos do processo, desde a concepção ao planejamento; da implementação à execução; do acompanhamento à avaliação, tendo como objetivo a construção de uma nova sociedade, alternativa ao Capitalismo, e que se mostre economicamente justa, socialmente igualitária, politicamente participativa, culturalmente diversa.

A construção de uma sociedade desse tipo só pode comportar como protagonistas as forças sociais comprometidas efetivamente com o combate incessante ao Capitalismo ou a qualquer sociedade de privilégios classistas e de agressão à Natureza. O perfil mais próximo de tal protagonista são os movimentos sociais populares que trabalham com um projeto alternativo de sociedade. Nem todo movimento social é popular. E nem todo movimento popular é necessariamente comprometido com as lutas de construção de uma nova sociedade alternativa ao Capitalismo. Há movimentos sociais (inclusive no campo sindical) de tal modo colados à pauta governamental e ao Estado, que se mostram completamente estranhos a e distantes das lutas de transformação social. Para estes, a mera satisfação de demandas pontuais – as suas! –  é suficiente para corresponder às suas aspirações e expectativas. Já não lhes faz sentido trabalhar com Educação Popualar, pelo menos no sentido aqui assumido.

Por que e de que modos, afinal, a Educação Popular se faz terreno fértil nesse grande plantio em mutirão, por uma nova sociedade, por uma universidade verdadeiramente pública e por uma proposta de comunicação à altura dos atuais desafios?

Em primeiro lugar, porque essa Educação Popular constitui um espaço alternativo de formação, na medida em que se apóia em princípios humanizadores, tais como a consciência de que somos seres inacabados (Paulo Freire), razão porque nos fazemos homens/mulheres sempre em relação com os humanos, com a Mãe-Natureza e com o Sagrado; somos seres vocacionados à Liberdade e, por isso mesmo, combatemos todas as formas de escravidão; somos protagonistas de nossa história, o que significa, por exemplo, não abdicar de nossa condição de protagonistas de nossa história, atribuíndo a outros tarefas que são nossas, como ocorre na democracia falsamente representativa; somos chamados a desenvolver mais e melhor, a cada dia, nossa capacidade perceptiva, de ver, de ouvir, de sentir, de intuir coisas novas, alternativas à ordem vigente; nos empenhamos em despertar em nós e nos outros a consciência de nossas potencialidades e de nossos limites; rompemos, na prática, com a dicotomia entre trabalho intelectual x trabalho braçal; despertamos a consciência de nossa condição, ao mesmo tempo, docente e discente (somos todos aprendentes e socializamos nossos achados, por meio do mutirão da construção de saberes, em suas interfaces); apostamos na formação humanizadora ininterrupta; nos processos formativos, lidamos com múltiplas linguagens (palavra, escrita, imagens, artes, teatro, poesia, música, dança…); defendemos a alternância de cargos e funções, não permitindo que alguém fique, por longo tempo, a exercer as mesmas funções, mas propiciando que todos alternem funções adminstrativas e funções de base; exercitamos continuamente a leitura de mundo (análise de conjuntura) e, sobretudo, ensaiamos, dia após dia, reescrever o mundo; defendemos a Mãe=Natureza das mais diversas formas de agressão; ensaiamos, a cada dia, passar da condição de consumidores (inclusive dos meios de comunicação) à condição de produtores de saberes e de cultura.; valorizamos o exercício ininterrupto da mística revolucionária, por força da qual renovamos, dia após dia, nossos compromissos com a causa libertadora dos oprimidos, a partir da libertação de nossas próprias misérias humanas, buscando ser melhores hoje do que éramos ontem, e amanhã, do que somos hoje.

Esses e outros princípios da Educação Popular, desde que efetivamente interiorizados e assumidos, nos fortalecem a convicção e a disposição de contribuir cada vez mais e melhor com os movimentos sociais comprometidos com as lutas por uma nova sociedade; nos fortalecem a convicção e a disposição de trazer tais movimentos para mais perto do espaço acadêmico, especialmente das universidades públicas, jsutamente para reabilitar sua dimensão PÚBLICA. Isto é de compromisso efetivo com os interesses das classes populares.

A presença mais efetiva desses movimentos nos espaços das universidades públicas – estando ou não nelas matriculados seus membros – propicia o fortalecimento dos embates pela reabilitação da dimensão PÚBLICA desses espaços que têm sido constante alvo de privatização (desde fora e desde dentro). A ocupação de tais espaços pelos movimentos sociais com projeto alternativo de socieade fortelece a luta pelo restabelecimento ou pela construção do PÚBLICO nos espaços governamentais como as universidades, à medida que se organizam debates públicos e processos de intervenção democrática nas mais diversas instâncias acadêmcia (dos Departamentos aos Centros; dos colegiados de base aos colegiados superiores até à Reitoria). Instâncias frequentemente submetidas a processos de privatização, ainda que encobertos por sedutoras alegações. Seus frutos falam mais alto…

Com relação especificamente ao campo dos meios de comunicação social, a Educação Popualr também tem relevantes ensinamentos. Não dá para nutrir-se ilusão em relação à grande mídia. De repente, encontramos um estudante entusiasmado em ousar fazer um trabalho alternativo na mídia convencional. A Educação Popular alerta-nos para um duplo risco: ou nos decepcionamos logo, ao sentir na pele que a mídia convencional, sendo paga pelo Mercado ou pelo Estado, só pode ser caixa de ressonância dessas forças, e, portanto, não vai tolerar o atrevimento de um(a) jornalista pretendendo “reinventar a roda”. Resultado: ou fica calado e obediente ou cai fora. Uma outra possibilidade é a de sujeitar-se objetivamente aos desígnios do Mercado, patrão da grande mídia, e, por outro lado, manter seu discurso de protagonista ou aliado das classes populares… Como exceções, há ainda os que, tendo consciência dos limites da grande mídia, e não tendo opção de trabalho alternativo ao sistema, buscam favorecer, por meio das brechas e nas entrelinhas, os interesses populares.

Seja no caso das universidades, seja no caso dos meios de comunicação de massa, a Educação Popular adverte que, por si mesmos, tais espaços não se transformam, sem que haja muita pressão dos protagonistas que lutam pela construção de uma sociedade alternativa ao sistema vigente.

João Pessoa, 29 de junho de 2010