Profetas no Calçadão

O Calçadão da Cardoso tem dessas. Às vezes passa dias e dias calmos, como se estivesse em coma. Desde o campeonato de futebol decidido em favor do Treze com uma fervorosa comemoração, semanas atrás, os dias pareciam calmos finalmente. E de repente, um grito, uma confusão ou uma discussão quebram o silêncio, agitam o coração da cidade, que se move nervosamente.

Uma moça paga por um consultório odontológico sai abordando os pedestres: “O orçamento e o documento do aparelho é grátis…”. Como um pregão ortodôntico, anunciava sorrisos planificados e perfeitos a preço de banana.

Do outro lado, um homem mostra sua nova invenção. Duas tábuas de passar de madeira que já estão equipadas com extensão elétrica. Outro vendia dois pequenos rádios antigos, um deles um Nord-Som com três faixas.

No meio do burburinho da feira de celulares, passa uma figura estranha, vestido completamente de verde e amarelo, parecendo anunciar a nova paixão para os dias juninos.

Paradoxalmente, a camisa da seleção brasileira parece unir torcidas como a do Treze e Campinense.

Batuca na caixa, olha nos olhos, catimba malandramente o freguês:

– E aí professor, vai uma graxa?

– Hoje não, valeu!

Velhas bicicletas descoloridas cruzam o Calçadão de um lado ao outro. Um vendedor de sandálias fosforescentes da moda clama pelas freguesas, produto original com preço de pirata.

Personagem popular com seu megafone, Gavião canta ópera, todos já estão acostumados com sua excêntrica presença.

Eis que surge, com barba branca de profeta, o padre e parlamentar Luíz Couto, guiado por um par de assessores. Senta numa das mesas do São Braz, toma um café sem açúcar. Rapidamente cercado, gentilmente fala com o eleitorado. Um homem faz um pedido, quer uma Constituição Federal nova.

O assessor anota o endereço e aproveita para lembrar ao padre tem de sair dali, pois ele tem uma entrevista agendada numa tv:

– Luíz, tem um salão de barbeiro logo ali, vamos dar uma aparadinha na barba, pra sair legal na televisão.

Paciente, Couto sorri. Parece obstinado em sua resposta:

– Vou nãooo homem, o povo daqui gosta de barba!
Carlos Azevedo é jornalista e professor universitário