PRAZER É PECADO?, por Maureen Dowd

É difícil dizer o que é mais incompreensível. Um escrito de “Sister Mercy” sobre Kama Sutra, o desejo sexual e “os nossos anseios de prazer”. Ou o ter-se esquentado e se incomodado tanto o Vaticano com o tratado acadêmico, a ponto de censurá-lo, seis anos após sua publicação.

É apenas o capítulo mais recente da insana cruzada do Vaticano contra as freiras norte-americanas – e todas as mulheres católicas – para empurrá-las de volta à mofada subserviência.

Mesmo para uma Igreja que evolui muito lentamente, isto era clássico. “Só o amor: um modelo para a ética sexual cristã”, escrito por Irmã Margaret Farley – professora emérita, de 77 anos, da Divinity School de Yale, ex-presidente da Sociedade Teológica Católica da América, e “an award-winning scholar” – e que foi publicado em 2006.

A Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, que parece tão hostil às mulheres quanto o Comitê Saudi para a Promoção da Virtude e a Prevenção do Vício, levou anos para apreciá-lo, findando por censurá-lo em 30 de março, mas só fazendo comunicado público, domingo passado.

A denúncia contra o livro da Irmã Farley baseia-se no fato de que ela trata do mundo moderno como ele é. Ela se recusa a enquadrar-se na rígida avaliação do Vaticano, com olhar de um mundo natural, ilusório, em que os homens imperam sem qualquer diálogo prévio com as mulheres (“men rule with no backtalk from women”), os homossexuais são uns desviados, os divorciados não podem recasar-se, homens e mulheres não podem usar contraceptivos, a masturbação é uma grave desordem, o celibato é uma relíquia sagrada, mesmo com toda a onda geral de pedofilia.

Na rica prosa tradicional, na perspectiva histórica e global, o argumento principal da Irmã Farley consiste em que é a justiça que precisa reger as relações. Pelo próprio interesse da justiça, ela sustenta que o auto-prazer deve ser tomado por fora da moralidade-tabu.

Immanuel Kant, que considerava a masturbação “abaixo do nível dos animais” deve ceder lugar a Alfred Kinsey. “Eis, por certo, o caso de muitas mulheres, seguindo o movimento de “nossos próprios corpos”, no último quartel do século XX, descobriram um bem enorme no auto-prazer – talvez especialmente ao descobrirem suas próprias possibilidades de prazer – algo que muitas não haviam experimentado, e sobre o que nem sequer sabiam, nas relações sexuais ordinárias com seus maridos ou companheiros, escreve ela, “dessa forma, a masturbação serve efetivamente a suas relações, em vez de causar-lhes estorvo.”

Ela provoca uma lufada de ar fresco sobre a estupidez eclesiástica, no caso do relacionamento homossexual e nos casos de novo casamento após divórcio. “Quando se tornar verdadeiramente impossível manter-se um relacionamento conjugal, fica liberada a obrigação de se manter tal relação,” escreve ela, acrescentando, “tal como quando na Idade Média, uma perna quebrada tornava impossível continuar uma peregrinação com a qual alguém se tinha comprometido.”

Referindo-se ao Concílio de Trento e a uma Igreja que tinha uma posição contrária ao prazer, Irmã Farley assevera que a concepção não é a única razão que os casais devem ter para as relações sexuais. A fecundidade deve “referir-se não só à concepção dos filhos, ela escreve, “pode referir-se a múltiplas formas de fecundade no amor aos outros, o cuidado com os outros, o fazer o mundo um lugar melhor para os outros, mais do que sucumbir a um “egoísmo a dois”.

O Vaticano mostrou-se impiedoso para com “Sister of Mercy”, ao proclamar que o uso deliberado da faculdade sexual fora do casamento, ou da procriação, ou para o interesse de si próprio, é errado: que atos sexuais de natureza homoafetiva constituem um “desvio”, e que os casamentos em geral são indissolúveis. A Irmã Farley fez uma declaração de que não pretendia que o livro fosse uma expressão ou uma crítica à atual doutrina católica oficial, enquanto figuras acadêmicas e a coordenação de sua congregação apressaram-se em defendê-la.

Essa mais recente e ignóbil luta contra uma nobre religiosa
soma-se ao quadro de uma Igreja Católica em permanente defensiva, mergulhada em corrupção e em escândalos sexuais, expondo o que todos observam como óbvio: eles perderam o senso do certo e do errado.

O Cardeal Timothy Dolan, da Arquidiocese de New York, repreendeu o New York Times, depois que Laurie Googdstein escreveu que, assim como o arcebispo de Milwaukee, em 2003, autorizou o pagamento de até 20 mil dólares para os padres envolvidos em abusos sexuais, como incentivo para que concordassem em abdicar de sua condição de padres.

O Cardeal Dolan insistiu, por meio de uma porta-voz, em que se tratava de “caridade”, não de “pagamento”. Mas, se você fosse o pai de uma criança abusada por um padre que foi embora com 20 mil dólares, “caridade” talvez não fosse a palavra que viesse à sua cabeça.

Esta crise tornou a Igreja cruel. A hierarquia devia ler o opróbrio de Irmã Farley contra adultos a causarem danos em crianças e adolescentes vulneráveis, por havê-los explorado sexualmente; o respeito pelo indivíduo e a exigência de livre consentimento, diz ela, significam que o estupro, a violência e a pedofilia contra vítimas forçadas jamais se justificam.

“A sedução e a manipulação de pessoas com limitada capacidade de escolha, por causa de imaturidade, por dependência especial ou perda de capacidade comum, devem ser regradas desde fora”, escreve ela.

Se só a Igreja pode alcançar esse tipo de clareza, que seja melhor do que o estilo “caridade” de Dolan.

Tradução: Alder Júlio Ferreira Calado

http://www.nytimes.com/2012/06/06/opinion/dowd-is-pleasure-a-sin.html

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